Resisto, Resisto!

Ou quase.

Um amigo disse-me que eu não iria resistir a comentar a última prosa do SE Costa, desta vez no Observador com o inebriante e apelativo título de “Apontamentos sobre o facilitismo”. O texto em si é mais um subproduto da cartilha que o SE Costa (não confundir com o EE Costa) anda a espalhar por todo o país num espírito de missionação (mas não de martírio) que fica sempre bem a uma esquerda de inspiração católica. O que desperta pouca inspiração analítica a quem já leu isto há décadas e décadas, numa espécie de ladaínha de fundo. E o destaque é logo daqueles que nos deixa esmagados, porque, afinal, é a escola a “única esperança de mobilidade social para muitos”, desresponsabilizando logo tudo o que lhe fica a montante e a jusante.

Não é justo que a escola, que é a única esperança de mobilidade social para muitos, em vez de eliminar as assimetrias sociais à entrada, as reproduza ou, por vezes, as acentue.

O que a mim não parece justo é que quem deveria ter a obrigação de esclarecer a opinião pública, a mistifique de forma voluntária. Ou seja, que descreva fielmente a realidade que promove, para depois dizer que não é nada disso que se pretende. Ora… se há coisa que sabemos em relação a esta geração de políticos é que para eles as palavras perderam significado e são meros artifícios para servirem a mentira como facto. Ou, nesta modalidade habilidosa, os factos como se fossem mentiras, parecendo que aquilo que é, não é, nem deveria ser. Mas, infelizmente, o que parece é. E só não é com muito esforço e muita energia gasta a combater a pós-verdade.

O medo dos arautos do facilitismo é simples de entender. Baseia-se na ideia de que a alternativa a reprovar é passar. Isto transforma o ato educativo num ato administrativo. Transforma a passagem de ano num mero exercício estatístico, em que se confunde o resultado com o que deve gerar esse resultado. Parte do princípio de que promover o sucesso é espoletar passagens administrativas independentemente do que os alunos aprendem. A ser assim, estaríamos perante uma fraude em que todos nos enganávamos uns aos outros. Os alunos eram defraudados porque não estariam a aprender. Os professores defraudados por se estar perante uma legitimação de uma perversão do seu trabalho. Costumo dizer que, se Portugal um dia acordar com 0% de insucesso, mas os alunos não tiverem aprendido nada, falhamos duplamente. Porque a sua avaliação foi adulterada e porque não aprenderam.

Eco

(eu costumo dizer que se um dia acordar com 0% de treta na conversa de secretários de Estado, é porque, afinal, não acordei)

11 thoughts on “Resisto, Resisto!

  1. “Parte do princípio de que promover o sucesso é espoletar passagens administrativas independentemente do que os alunos aprendem. A ser assim, estaríamos perante uma fraude em que todos nos enganávamos uns aos outros. Os alunos eram defraudados porque não estariam a aprender. Os professores defraudados por se estar perante uma legitimação de uma perversão do seu trabalho. Costumo dizer que, se Portugal um dia acordar com 0% de insucesso, mas os alunos não tiverem aprendido nada, falhamos duplamente. Porque a sua avaliação foi adulterada e porque não aprenderam.”

    Claro que é isto que está já a acontecer e se vai agravar…É óbvio! Só não sabe isto quem não conhece o que está a passar-se!
    Se o sr. SE quer fazer a experiência de todos alunos passarem de ano: sucesso total”: 0% de insucesso!
    Se o senhor SE quer fazer a experiência de fazer passagens administrativas, DECRETE-AS.
    Tenha coragem.
    Mas deixe os professores avaliar em consciência e com justiça. Qualquer nota de 0 a 20 assegurará a transição de ano. Mas não se enganarão os alunos e, sobretudo, os pais.

    (- Oh compadre, então como vai o seu rapaz, lá na nova escola.
    – Lá vai indo, melhor do que eu julgava. Tem uns dezitos, não é grande coisa mas enfim)

    (Na reunião de avaliação:

    – OH colega, não sei que nota dar a este rapaz; não faz nada, está sempre na conversa a distrair os outros, nas provas entrega-as em branco, tira um , tira dois… não passa disto!
    – Colega, dá-lhe dez em nome do sucesso! AH AHAH )

    ” A ser assim, estaríamos perante uma fraude em que todos nos enganávamos uns aos outros. Os alunos eram defraudados porque não estariam a aprender. Os professores defraudados por se estar perante uma legitimação de uma perversão do seu trabalho. Costumo dizer que, se Portugal um dia acordar com 0% de insucesso, mas os alunos não tiverem aprendido nada, falhamos duplamente. Porque a sua avaliação foi adulterada e porque não aprenderam.”

    FRAUDE, Mentira, engano de alunos e pais
    Violência moral,
    destruição moral dos professores e perversão do seu trabalho.

    As palavras são de sua excelência…

  2. Muito bom para justificar o insucesso nas actas. Transcrição completa. Nada melhor que uma justificação acertada do PM. Quem se poderá opor???

  3. “(eu costumo dizer que se um dia acordar com 0% de treta na conversa de secretários de Estado, é porque, afinal, não acordei)”

    Muito bom!! 😊 Obrigada por me ter feito rir!

    (O resto é desfaçatez, falsidade, hipocrisia, etc., etc. Deprime o mais otimista.)

  4. Agora sim, senhor secretário de estado, esclareceu com todas as letras o que é o «54». Uma fraude, um facilitismo… só que gerado e criado por vossas «incelências» (parte importante que lhe faltou admitir), senhores muito criativos! Pena que nos deixem a nós professores, grelhados e à beira de um ataque de nervos, com tanto trabalho e tanta hipocrisia a passar-nos à frente. O seu texto está quase perfeito, só faltou escrever que quem promove essa fraude e esse facilitismo são os senhores.
    Pelas Escolas, tentam alguns professores, com as poucas energias que lhe restam, manter a dignidade da Escola e continuar a incutir nos alunos o valor do trabalho, do empenho… um blá, blá, blá, que os alunos já há muito não acreditam. E ainda temos que justificar o injustificável.
    «Por vossa culpa, vossa tão grande culpa…».

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