A Felicidade Dos Medíocres

Detesto quem acha que nos devemos sentir bem só porque há quem esteja pior do que nós. Enviaram-me a ligação para um “directo” no fbook na passada 6ª feira desta senhora doutora, cheia de cargos e honrarias, que acha que o “cansaço” ou “desgaste” que sentimos é muito relativo porque, afinal, temos electricidade em casa e há professores com computadores e carros e tudo, enquanto nos países africanos a maioria não tem nada disso. Parece uma lógica imbatível numa perspectiva-jonê da sociedade, em que os miseráveis justificam que os outros não se possam sentir mal, pois ainda não estão assim tão mal. É uma esquerda não apenas caviar, mas muito chique e caridosa. A mim, que sou de qualquer coisa carapau frito (sardinha assada agora é gourmet), isto aflige-me porque me parece que se quer definir a felicidade alheia pelo padrão da mediocridade. É o discurso do fiquem felizes, porque no sudão do sul nem há escolas com telhado. Mas com muita laca ou fixador ou gel ou lá o que é.

coice-da-jumenta

20 thoughts on “A Felicidade Dos Medíocres

  1. Acho que foi esta senhora que eu “atropelei” há 9 anos no Encontro Ciência 2010. Quase de certeza, Bem, se não foi, gostaria de ter sido. A senhora devia ler este livro para se “apropriar” do conceito “negative solidarity”

  2. A felicidade dos medíocres é a felicidade mais infeliz que existe.

    Também me irrita o discurso do coitadinho, de que há quem esteja pior, etc.
    Só falta acrescentar que quem está pior do que todos, designadamente os coitadinhos, os que têm menos, etc., são aqueles que estão mortos.
    Desculpem a frieza.

    1. É uma falácia fabulosa: desde que haja alguém pior, é feio e imoral reclamar. Como o pior absoluto é a morte, então nunca se deveria reclamar.
      O problema é que também sou ‘lixado’ para falácias e declaro que há muitos que estão melhor, pelo que ganho o direito de reclamar ser igual a eles…

  3. Faz lembrar aquela piada do inferno….. para os portugas nem precisavam de quem guardasse o caldeirão a ferver, pois quando um tuga estava quase a conseguir sair, os outros puxavam para que não saísse.

  4. Tem piada a tal senhora! Ela que trabalhe com essas más condições lá na sua instituição. Pelas fotos que se vêem no site são bem melhores do que as de qualquer escola pública! Já agora quanto dinheiro recebe do estado esta Ensinus??

  5. Foge Guinote!

    Estudos Africanos+Lusófona+Colégio Alfragide+Mulheres Socialistas=Combustão!

    Preocupadinha com o Sudão?É, vê-se pelo percurso… Só que os €€€€€ falam mais alto, não é?

      1. O ISCTE tem sido nas décadas pós 25 de Abril (salvo umas míseras honrosas exceções – não gosto do ter “poucochinho”), um verdadeiro ninho de víboras, que já estiveram mais ativas, mas que estarão em hibernação.
        Temo, seriamente, pelo dia em saiam da letargia.

  6. Medo👻… cargos é com fartura… a dividir dava para dar emprego a umas quantas pessoas.
    Quanto ao ISCTE…
    É de pensar que se acham donos da Educação e do Ensino… é a guerra com os Politecnicos…

  7. Isso é tudo muito bonito, mas a verdade é que, infelizmente, os dados que temos não corroboram essa tese.
    Vamos ver o seguinte:
    Mais de metade da população vive abaixo do limiar da pobreza (tal como definida pelo banco mundial)
    Portugal situa-se consistentemente nos primeiros 30 a 40 lugares nos vários índices de desenvolvimento humano (em mais de 200 países). Tendo em conta que a maior parte da população mundial vive nesses 160/170 países mais pobres do que o nosso, é seguro dizer que os portugues se situam no top 10% dos habitantes mais “ricos” do mundo. Para a maior parte dos portugueses esta afirmação é um insulto, mas é matematicamente correta. Infelizmente neste mundo ser pobre é o mais comum.

    Voltando ao valor dos 10%, imagine que tinha à sua frente um grupo de 30 pessoas e a terceira mais rica (10%) queixava-se que não tinha tanto dinheiro como as 2 mais ricas? É isso que acontece com o portugueses quando se comparam com os outros países europeus. Obviamente que é para esses que temos de olhar (e tentar alcançar) Mas quando nos comparamos com os 90% da população mundial que vive pior que nós, não nos estamos a comparar com o “padrão da mediocridade” e sim com a infeliz e mais comum condição humana.
    Quando as pessoas dizem que não estão assim tão mal, isso não é uma forma de ser feliz com a infelicidade dos outros, nem deve ser um ato de resignação em relação ao status quo. Deve ser apenas e só uma questão de olhar o mundo com alguma perspetiva e humildade e não apenas a partir do nosso umbigo.

    Já agora este pequeno texto que achei muito interessante.

    https://www.publico.pt/2017/12/11/mundo/opiniao/pobreza-mundial-hipocrisia-ocidental–1795587

    1. Qual “tese”?

      A de que não devemos resignar-nos e de não ser feliz porque outros são mais infelizes?

      Mas não é isso que escrevi e que, aparentemente, é algo exactamente similar ao que escreve no fim do seu comentário?

      Um de nós não deve ter percebido o que o outro escreveu…

    2. Ah, a mentalidade dos novos gurus: só tenho direito para meia sardinha por cada pessoa cá de casa, mas tenho de calar os lamentos, pois na Índia, em Moçambique, na Etiópia, na barraca dos ciganos que vivem a 200 metros de mim só há uma côdea de pão.

      Obrigado, Senhor, por me fazeres tão rico neste mundo de m…a!

      É esta a mentalidade que também se institui na Educação: os filhos dos desgraçados, sem ambições ou horizontes, não devem ter oportunidades para abrirem os olhos e singrarem na vida. Vamos mantê-los na ignorância (basta saberem assinar o nome e contar até 10), dar-lhes um papel qualquer a atestar que passaram por um edifício a que chamam escola e lançá-los para o subemprego ou a caridade do subsídio.

      Haja paciência para esta gentinha!

  8. Lamento que, sendo do PS, tenha uma atitude pouco activa relativamente à possível alteração de varias mediocridades da sociedade portuguesa, tais como:
    . A negligente conservação de escolas, hospitais e monumentos nacionais;
    . A indiferença perante a “imundície” da calçada portuguesa nos passeios e a má qualidades das ruas da capital portuguesa (onde proliferam os pilaretes como muros, divisões)
    . A inércia de todos perante a “liberdade” dos sem-abrigo (a maioria precisa de apoio psiquiátrico/psicológico em vez de “caridadezinha) junto de Igrejas, arcadas…
    Quando foi o 25 de Abril acreditei que iriam desaparecer os mendigos…mas afinal a evolução da sociedade portuguesa permite-se desperdiçar as qualidades de centenas de pessoas que em nada contribuem nem para si, nem para os outros;
    . Que sociedade desigual é esta? Deveria nivelar-se pelos melhores exemplos. Mas poderia ou deveria começar por impedir reformas de centenas de euros.
    Quem muito trabalhou, muito ganhou, muito arrecadou, poderia ter uma reforma razoável mas nunca superior a cem mil euros quando o ordenado mínimo nacional é inferior a mil euros.

    Isto é mediocridade em termos de critérios sociais.

    Lamento o amargo desabafo!

  9. o discurso ‘fiquem-felizes-com-o-que-têm-porque-podiam-ficar-pior’ só se aplica a quem é dirigido porque quem o profere jamais se submeteria a essas condições e por isso ocupa sempre cargos devidamente abonados…

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