Importa, Importa, Arlindo!

Mas se é verdade que não importa, porque se agarram tanto a ela?

O diretor que seria eleito por apresentação de plano de ação para a escola/agrupamento com votação dos coordenadores de departamento eleitos, a que se poderia acrescentar nessa eleição um parecer vinculativo do Conselho Geral que passaria a ter apenas funções de supervisão e aconselhamento. A votação dos coordenadores de departamento poderia ser representativa em função do número de docentes desse departamento.

A presidência do Conselho Pedagógico poderia ser feita de entre os coordenadores de departamento ou do diretor.

A dimensão pedagógica de uma escola passaria assim a distribuir pesos de poder entre todos os elementos e o diretor seria o interlocutor de todos os departamentos, ficando na sua dependência.

Todos, incluíndo o diretor, deveriam ter funções letivas com pelo menos uma turma, ou contacto com grupo de crianças ou alunos nos caso da Educação Pré-escolar e 1.º Ciclo, a determinar por um crédito de horas para estas funções. 

Com um modelo assim, pouco importa se a gestão é unipessoal ou não.

O Arlindo começa a esboçar, no fim, os alicerces do que deveriam ser propostas para melhorar a vida das escolas. Mas faz isso mesmo em modo de esboço (há ali passagens claramente a traço grosso, claramente com falta de sustentação perante críticas cirúrgicas ao que significam ao certo) e penso que sob pressão do desagrado perante a recuperação de uma lógica de divisão da carreira docente entre uma elite com escalões exclusivos e remunerações próprias e o resto dos zecos. Não lhe fica mal incluir algo que eu defendo desde sempre e que ontem recuperei num texto de 2008 (que todos numa escola devem ter funções lectivas), mas neste momento já sinto que o exercício se transformou num conjunto de piruetas sobre o “pecado original”. 

Esse pecado é o de querer ter uma carreira “funcional”, estanque e sobreposta ao resto, que não se percebe se poderá ser intermitente, com as pessoas a voltarem aos escalões de origem quando deixarem de exercer aqueles cargos, mas que, no essencial, considera que os dois escalões mais elevados devem ser para um grupo muito pequeno de generais e coronéis. Com o modelo de carreira proposto, para pouco mais de 800 agrupamentos, as Finanças ficariam descansadas porque nem 10% dos docentes acederiam, ao mesmo tempo, aos tais dois escalões do topo. Isso seria ainda menos do que o terço de titulares de MLR ou os poucos mais que, no regime actual, lá conseguirão chegar antes de se aposentarem.

As propostas do Arlindo têm o mérito de existir e poderem ser discutidas, mas padecem do mal de serem feitas a partir de uma perspectiva que não é a da generalidade dos professores, antes parecendo uma proposta inicial de um próximo governo de maioria PS, preocupado apenas com o SNS e largando os porfírios à classe docente. Parece uma proposta pensada a partir de “cima”, de quem quer dirigir as escolas em “grupo fechado”, mesmo que se apresente a possibilidade de eleição dos coordenadores de departamento.

É uma proposta que não explica se o Pedagógico passaria a ter elementos de 1ª (os coordenadores) e de 2ª (o resto), em termos de carreira. Por exemplo, um coordenador de directores de turma tem menos responsabilidades do que um coordenador de departamento? Como seria escolhido e por quanto tempo, já que as direcções de turma mudam quantas vezes de ano para ano? Teria direito a salto quântico na remuneração? E os coordenadores de estabelecimento dos mega-agrupamentos, alguns com escolas a seu cargo que são exactamente as que há 10 anos tinham directores ou conselhos directivos? A proposta é demasiado vaga e lacunar e o esperar por “sugestões” e “contributos” parece revelar ou que tarde se perceberam as falhas evidentes ou se querem encontrar formas de remendar um pano ruim.

Eu não gostaria de passar esta última semana de Junho apenas a contraditar o que penso ser uma proposta com demasiadas armadilhas e lacunas (o Arlindo diz que este terá sido o último texto, por agora, sobre o assunto), talvez feita de forma apressada e dificilmente susceptível de ser vista como “ensaio”, mesmo se o Arlindo foi explicando aos poucos a “tese” central… ou seja, de que as escolas devem ter não uma liderança formalmente colegial, mas um modelo como o actual, com reforço do papel dos coordenadores de departamento, elevados a um estatuto de excepção que me levanta tantas reservas quanto o que actualmente têm, por exemplo, os adjuntos na distribuição dos créditos horários.

É uma proposta que menoriza a possibilidade de compensar com menos horas lectivas esses coordenadores se, afinal, têm assim tanto trabalho (porque “visão estratégica” temos todos de ter, em diferentes escalas, com as nossas turmas). É uma proposta que se preocupa muito em demonstrar que não acarretaria mais encargos financeiros, como se essa devesse ser a grande preocupação. Parece querer dar algo aos “novos”, mas apenas numa perspectiva de curto prazo, amputando o horizonte de progressão, excepto para os que se tornem coordenadores. Por fim, parece-me uma proposta feita para quem está cansado do actual modelo de carreira que os entalou num escalão chato, mas que sabe que não pode propor, ou não quer por questões estratégicas, uma estrutura que desbloqueie os constrangimentos actuais.

Em suma, é uma proposta que, tirando um ou outro detalhe, dá logo à partida tudo o que um futuro governo com a matriz do actual quereria conseguir. Começando a “negociar” assim ainda se acabaria muito pior do que estamos agora. Excepto para alguns. Não me admiraria nada ver alguns directores ou as suas organizações a considerarem que a proposta é “interessante” e que representaria um “desafio”.

Napoleão Minion

 

 

43 thoughts on “Importa, Importa, Arlindo!

  1. Fica-se a pensar na “bondade” de um blogue. Nem é contra a publicidade. Presta-se um serviço e ganha-se com isso. Até aí… não me choca.
    Agora, a defesa de interesses muito pessoais contra os milhares de colegas… Propostas de castas e de intocáveis.
    O poder causa mesmo danos!
    Os sindicatos usam, manipulam, malevolamente os seus associados e toda uma classe. Os seus dirigentes não largam o poder. Os Directores andam a fazer o mesmo. Há histórias de terror por esse país fora.
    E depois andam aí a falar de inclusão e de cidadania. Para consumo alheio, claro.
    Tenho saudades do tempo anterior a MLR. Éramos todos ” suficientes”, apesar de muitos serem muito bons.
    E a escola era democrática. Quem começava a ter tiques de poder tinha vida curta.
    Era uma escola feliz e tinha muita qualidade pedagógica e científica. E erros, claro.
    Ficaram os erros.

    1. Concordo, Maria. Já tenho dado por mim a pensar nisso. A memória ajuda a ter a noção das coisas. Mas há muita gente que acabou de chegar. E tem-se perdido uma cultura docente que nos aproximava. Às vezes penso que o desapego ao poder de uma certa geração permitiu o caminho para gente arrivista e sem preparação.

      1. MargaridaMF, há escolas onde o ambiente entre colegas é de ” cortar à faca”. Seja entre iguais, que agora já acham que não são; seja entre quem faz questão de exibir a sua diferença.
        Comemorações de escola onde já só entram os grandes e os pequenos líderes.
        Pessoas insuspeitas que, de repente, são outra coisa. Silêncios cúmplices, tácticas, oportunismos e malvadez. Gente pequenina a querer parecer grande. E há alguns que acham que sim.
        Tudo isto despertou o pior das/nas pessoas. Não acredito que isto melhore. Tudo o que aconteceu este ano mostra isso.
        Mas acho que devemos resistir. Apesar de tudo. Se assim não, quem/ o que somos, afinal?

    2. O Ar Lindo não vai gostar do que a colega aqui recorda! Porque será? Porque deixar o poder e voltar ao que os reles zecos fazem… é complicado?

  2. Uma proposta miserável!
    Acabei de ser eleito coordenador de departamento e discordo de quase tudo o que o Ar Lindo tem estado a propor.
    Aliás, no lugar dele eu teria vergonha da proposta de eleição de diretor que apresentou.
    E o que é essa coisa de os coord. de departamento terem uma carreira à parte?
    É um modelo pensado para um mini-estado: o diretor e seis ou sete iluminados perpetuar-se-iam na tachada.

    Vergonhoso tudo isto!

  3. Boquiaberto e desiludido … resta -me apenas concordar com todos estes colegas e repetir —- adeus Ar Lindo !!!
    Tentar justificar o injustificável ? ” Pior a emenda que o soneto ! “.

  4. # Maria e #Margarida
    Absolutamente de acordo! Como lamento que as gerações mais novas, não usufruam do ar democrático que se respirava nas escolas! Essencial à mente de quem se quer e deve ser livre para poder ensinar esse direito! Hoje, tudo se degradou e reina o desânimo, hipocrisia e o salve – se quem puder! Muito mau!!!!!

  5. O Arlindo é como muito boa gente: tem a sua vaidadezinha, pensa que vai deixar a sua dedada na História da Educação, quer aparecer, ter os seus segundinhos de fama.
    Quem acompanhou o blogue dele ao longo do tempo não demorou muito a percebê-lo. A sua candidatura a uma direção confirmou-o. Estas ideias que agora expôs são a cereja no topo do bolo.
    Se o homem propusesse uma eleição do diretor por todos os docentes, sem castas escolhidas a dedo e compadres entre si. teria disposição de o ler/ouvir. Assim, dedico-lhe estas linhas e já vai com sorte, pois nem tanto merece.
    O mundo está cheio desta gente tola e pavoa: creem-se inspirados e com «ideias». Como diria o Eça, salvo erro, nada pior do que pessoas com «ideias».

  6. As propostas do Arlindo (e outros) são preocupantes porque revelam que o terreno é fértil para as fazer vingar. Não fosse assim e ele não as apresentava.
    A alteração do actual modelo de gestão escolar já não passa de uma miragem. As oportunidades foram passando e há coisas que, se mudarem, será para pior…


  7. Karamba!…ao vir visitar o quintal do Dr. Paulo o que observo em meu redor é um conjunto de Carpideiras.

    pergunto eu: – Morreu alguém?
    resposta de uma das carpideiras: – não

    pergunto eu: que aconteceu?
    resposta de uma outra carpideira: – Foi o Arlindo…foi o Arlindo…foi o lindo….foi o lino…

    pergunto eu: mas que fez esse filho de um coiote?….Sim!….que fez esse Arlindo?
    resposta das carpideiras (em uníssono) : a carreiraaaaaaaaaa….a gestãooooooooooo

    Perante este ambiente fúnebre só posso apelar ao pároco Guinote para que dê a extrema-unção a esta gente porque elas tem razão…resta-lhes pouco tempo

    Arlindo (esse filho da mãe, embora Homem de visão) apenas realizou um exercício (bondoso) de antecipação daquilo que irá deixar de ser realidade virtual.

    Eles sabem
    Nós sabemos
    Toda a gente sabia e sabe
    Arlindo apenas abriu a boca e falou antes do tempo. Pai, perdoa-lhe, porque não sabe o que faz, nem o que diz.

    Guinote conforta as órfãs.

    1. Caramba com ” c ” de cu de galinha ( e de outros termos igualmente aplicáveis ).
      Não tens vergonha nesse trombil ?
      Nesse focinho ?
      Andavas fugido…mas sempre a cuscar.
      És ridículo !

    2. Isso é o que tu pensas , caramba? Queres, apostar, caramba, que uma proposta que eu sei, tu sabes, eles sabem, como esta, o Costa vai passar mal Caramba? Lembra-se da saudosa, e per ti amada, MLR e cães de fila, como tu perdão, como tudo acabou , Caramba?

  8. Aquele que se dizia defensor dos contratados (não me recordo do nome da peça) depressa arranjou tacho do PS e amansou. Arlindo prepara-se para fazer o mesmo?
    É o que parece.
    E às vezes o que parece é.

  9. Deixem também o Arlindo em paz. Apenas tem dito o que pensa. Nunca se propôs a salvador de nada. Ajudou muita gente com as aplicações, eu inclusive. é natural que tenha tido um plano. A dada altura, isso foi óbvio, para quem estivesse atento. e nada de mal …. é uma opção. Também não é necessário bater no Arlindo. É uma pessoa, tem imensas fragilidades …. ou não teria suportado todos estes anos até chegar aqui … Espero que lhe corra tudo bem e que não seja comido pelo sistema, que é o que me parece que vai ser …. é um desabafo idiota meu, como tenho muitos. E assumo que os partilho aqui. Arlindo, não vou ao teu blog, aquilo mete impressão com os desdentados …. e há anos que não me identifico contigo mas há sempre aquele respeito. Sim, ele lê estas coisas.
    E com isto, vou descansar, a ver se o fogo não apanha a casa do meu Pai.

      1. Depois de um dia na escola muito, muito chato… Daqueles mesmo muito, muito chatos… Em que já não suporto olhar para a cara de certas pessoas… Vi este seu video e sorri.

        Obrigado. Nada como o humor inteligente para nos deixar bem dispostos.

  10. Até ver continuo a respeitar o Arlindo. E, nem que seja pelo pessoal da coluna da direita, vou continuar a ir lá. Faz-me lembrar, em permanência, o tipo de professores que, de alguma forma todos somos um pouco. Uns trastes… ou não estaríamos como estamos.

  11. Eu não tenho respeito por não democratas e por quem, para chegar onde planeou, passa por cima dos outros, espezinhando-os. Roma não paga a traidores, mas a pocilga da política paga… e bem. Chegar onde se pretende à custa dos zecos é isso mesmo, uma espécie de traição.
    Isto cada vez me vai aborrecendo menos, pois estou cada vez mais perto do fim, como todos nós, no fundo, mas incomoda-me o chico-espertismo e o culambismo. Um tipo que diz que deve ser eleito por 6 ou 7 pessoas, muitas delas cuja nomeação depende de si (do diretor), num universo de centenas de professores, dezenas de funcionários e milhares de alunos, não merece o meu respeito.
    E acrescento: não há almoços grátis. O Marcelo andou décadas a perorar nas TV até cumprir o seu desígnio.

  12. Muito bom, Paulo.
    E, muito obrigado.

    Ao Arlindo deixei um comentário:
    “Arlindo…possivelmente em 2010 eu pouco frequentaria o blog … e, talvez por tal… tudo isto tenha sido uma verdadeira e negativa surpresa.
    Até proporia dividir a classe docente em: docentes funcionais e em indecentes, perdão, indolentes, perdão, “indocentes tarefeiros ou indiscriminados ” (até é muito inclusivo e holístico e refere-se àqueles que dão aulas, têm boa vida, muitas férias, grandes ordenados e SEM responsabilidades) … peço desculpa pelo sarcasmo tendo em consideração a seriedade com que o venho lendo mas não resisti!
    Se não os consegues vencer, junta-te a eles… será? – É apenas uma pergunta retórica. Afinal…nada que divirja de comportamentos muito habituais neste país.”

  13. Os gestores das instituições educativas, dentro de 10 anos, serão todos gestores de carreira com formação específica. O problema das escolas não é a falta ou excesso de democraticidade mas sim a falta de competência na organização. A prepotência de que se queixam em relação a alguns directores, por exemplo, vem normalmente mais da insegurança e da falta de capacidade do que da insuficiente abertura à opinião dos outros.

    1. Não concordo muito com isso. Até porque a gestão das escolas deixará de ser feita nelas, mas nas autarquias, restando-lhes competências pedagógicas e algumas administrativas correntes.
      Não é preciso uma enorme “formação especializada”. O que acontece agora é que o ME cria “necessidades” para dar a sensação que essas competências devem ser adquiridas em “cursos” que até podem ser feitos online.

      Não passa tudo de uma grande encenação.

      1. Prefiro uma gestão administrativa separada do resto, seja ela sediada nas autarquias seja numa administração de agrupamento. Sobrará um órgão colegial, o Conselho Pedagógico, coordenado por um professor eleito pelos pares. Prefiro que esse coordenador seja eleito directamente por todos os professores. Mas se o sistema fosse mais flexível e albergasse outras soluções também não me afligiria. Estou certo de que outros andariam (como agora andam) muito aflitos mas isso seria problema deles.

    1. Se nos países onde se paga melhor andam aflitos para arranjar gestores, não será em Portugal que se irão encontrar esses contabilistas com a alma de um poeta, a pedagogia de um Cristo, a visão de um Steve Jobs, a …

      Se separarmos as competências e obrigarmos as pessoas a trabalhar em conjunto talvez tenhamos mais sorte.

      1. Outro problema que se torna urgente encarar é a das assessorias. As escolas não precisam de ter um electricista residente. No entanto o ME podia ter um departamento jurídico a sério para apoiar as escolas.
        Depois de se definir a extensão das assessorias talvez se possa reequacionar as competências dos gestores.

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