O Inferno Em Que Transformaram A Minha Profissão – 3

Última parte do texto da colega Maria de Fátima Patranito sobre vários aspectos da burrocracia escolar que nos submerge. Em relação a alguns comentários que fui lendo, em especial no fbook, gostaria de deixar umas breves notas: em alguns casos, a descrição até pode pecar por defeito, pois há escolas nas quais se realizam reuniões e se pedem documentos que não surgem nesta listagem; em seguida, que se há pessoas que acham que nos lamentamos demais e as outras profissões também os seus problemas, então que essas profissões se queixem dos seus agravos, pois ninguém se queixará por nós; por fim, que sei perfeitamente que existe quem acha que isto é tudo muito natural, necessário e mesmo indispensável, sendo que muitas delas costumam estar no topo da cadeia hierárquica e de sala de aula ou praticam pouco ou fazem-no com aquela mestria que só é possível a quem se alegra com mais um procedimento administrativo, mais um cabeçalho por inovar.

*

C – Relatórios e outros documentos de preenchimento obrigatório

1 – Mediação/tutoria/apoio (“intervenção em foco académico” de acordo com o novo vocabulário do 54/2019). Os professores que estão no gabinete de mediação fazem 3 registos por aluno (!!!). Cabe à coordenação do gabinete elaborar o relatório final. Na tutoria, o professor faz 1 relatório por aluno e por período letivo.

2 – Relatório de autoavaliação (final do ano, em diferentes datas, de acordo com a situação profissional do professor).

3 – Avaliação de colegas (preenchimento de 3 documentos para cada colega avaliado).

4 – Relatório da Direção de turma.

5 – Relatório de Coordenador de área disciplinar (CAD).

6 – Relatório de Coordenador de Departamento.

7 – Se tens um recurso de nota (1 relatório do professor da disciplina e 1 do DT).

8 – Se tens alunos a quem devam ser aplicadas medidas de recuperação e integração (no caso de excesso de faltas).

9 – Se tens alunos a quem devam ser aplicadas medidas corretivas (no caso de indisciplina); 1 por aluno.

10 – Documento que atesta que a PEF (prova de equivalência à frequência) e PEA (prova extraordinária de avaliação) estão feitas de acordo com as orientações superiores (JNE e legislação em vigor). É preenchido e assinado pelo coordenador da área disciplinar (CAD) ou pelo coordenador de departamento, no caso de acumular funções, como é o meu caso.

11 – Identificação de alunos que necessitam de uma ajuda mais individualizada (um documento extenso, com imensos quadradinhos onde deve ser debitada informação que ninguém compreende muito bem o que é, ou que não serve rigorosamente para nada e a que a equipa multidisciplinar deu o ilustre nome de “Ficha de identificação da necessidade de medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão” (acrescento um reparo pessoal: o D.L 54/2019, acrescentou a tudo o que já existia um elevado grau de loucura).

12 – Avaliação das atividades de apoio ao estudo dos alunos que as frequentaram, preenchendo 1 documento com o nome dos alunos, número total de sessões e nº de sessões a que cada aluno assistiu, se foi proposto ou se as frequentou voluntariamente.

13 – Relatório final das atividades do CAPA (Centro de apoio ao estudo).

14 – Documento da distribuição de serviço para o próximo ano letivo e preferências de horário (da responsabilidade do CAD ou do Coordenador de Departamento).

15 – PTT (projeto de trabalho de turma) de preenchimento obrigatório pelos diretores de turma e onde são registadas todas as informações relativas aos alunos da turma, nomeadamente:

(A) caracterização da turma;

(B) contactos com encarregados de educação (% de presenças nas reuniões; nº de contactos pessoais; nº de outras formas de contacto). Estes registos são feitos para cada uma das reuniões/período a período a que acrescem ainda o registo dos motivos das reuniões ou dos contactos e existe ainda uma coluna de observações;

(C) Perfil da turma, com registos período a período e onde se destacam “pontos fortes”, “áreas de melhoria” (não se pode dizer “pontos fracos” pois não é politicamente correto) e “ações de melhoria” (aqui tens de registar “Objetivos”, “Estratégias/Atividades” e “Resultados”;

(D) ocorrências disciplinares – registos por período (nomes dos alunos;       disciplinas onde se registaram as ocorrências; resolução (identificar medidas, sanções e data);

(E) outros dados que incluem o n.º de alunos com assiduidade irregular; n.º de alunos que anularam a matrícula; n.º de alunos com classificações negativas;   n.º de alunos com média de suficiente; n.º de alunos com média de bom;         n.º de alunos com média de muito bom; nomes dos alunos propostos para mérito escolar (3.º P);

4ª NOTA MUITO IMPORTANTE: Todos estes dados estatísticos podem ser obtidos a partir do programa Inovar ou de outro que a escola utilize, mas a partir do momento em que se instalou na escola a mentalidade de que os professores, além de 3 meses de férias, não faziam nada, inventaram-se mil e uma “tarefas” repetidas em vários suportes para justificar a sua presença na escola, para lhes infernizar a vida familiar e os tempos que deveriam ser de descanso ou para lhes ocupar todo o tempo, sem lhes deixar tempo para a atualização científica, leituras diversas e para preparação de aulas. 

(F) medidas de suporte à aprendizagem e à inclusão, que implicam um registo aluno a aluno, período a período e onde se devem identificar “Barreiras/fatores que afetam de forma significativa o progresso e o desenvolvimento do aluno”; “disciplinas”; “medidas” e “monitorização/avaliação”;

5ª NOTA: Este registo ocupou 7 páginas no PTT da minha direção de turma.

(G) projeto(s) de articulação horizontal (interdisciplinar), onde se devem registar as “Atividades”; “Aprendizagens/Áreas de competência”; “Disciplinas/serviços”; “Calendarização”; “Domínios de Cidadania”; “Recursos”; “Avaliação (realizado/ não realizado; balanço global)”;

(H) educação para a cidadania (disciplinar), onde se devem registar os “Domínios”; as “Atividades”; as “Disciplinas/serviços”; a “Calendarização”; “Avaliação (realizado/ não realizado; balanço global)”;

(I) avaliação do ptt, onde se devem registar, período a período, os “Objetivos do conselho de turma” e se estes foram atingidos “Total, parcialmente ou não atingidos”;

(J) projeto de educação sexual (pes), onde se deve registar o professor responsável (DT) e os professores envolvidos; as dimensões da sexualidade humana (biológica, psicoafectiva, sociocultural); atividades/iniciativas; disciplinas; nº de horas; calendarização; avaliação do projeto.

16 – Questionário online para os classificadores, na plataforma moodle, do IAVE.

17 – Questionário online para avaliação da biblioteca escolar.

 

D – Comunicação/informação por correio eletrónico (um outro lado da escravização)

– Esta é uma forma fácil de comunicar e difundir informação, contudo ela é abusivamente utilizada por direções, encarregados de educação, colegas, outros serviços das escolas, centros de formação, câmaras municipais e serviços educativos, editoras, e muitos mais.

Este meio de correspondência eletrónica é abusivamente utilizado porque nos é remetida a qualquer hora do dia ou da noite, nos períodos de descanso como por exemplo feriados e fins de semana e até quando já se está em pleno período de (merecidas) férias.

Os números apresentados são aproximados, dado que ao longo do ano vou apagando alguns dos mails recebidos e reenviados, nomeadamente os de entidades diversas que pedem divulgação de atividades ou de ações de formação, por exemplo. Nestes números, também não estão contabilizados os contactos de e com os encarregados de educação, dado que os mesmos são efetuados através do programa informático Inovar/alunos. (*)

– Enviados: 746;

– DT 10º – 294 (assuntos da direção de turma, excepto contactos com e de encarregados de educação, (*);

– CT 7ºC e F: 36;

– Cidadania: 45;

– Departamento: 68;

– Direção e Conselho Pedagógico: 84;

– Editoras: 98;

– Formação: 49;

– Grupo disciplinar: 146

6ª NOTA: Segundo a legislação em vigor e para além da desconsideração e do desrespeito pelos docentes por parte de quase todos estes serviços e organismos, a situação configura assédio moral, pois não se respeitam os períodos de descanso, nem a vida privada, como se ela não existisse e fosse totalmente desnecessária. Por algum motivo, alguns Estados Europeus já legislaram sobre este assunto, proibindo às empresas/entidades patronais este contacto permanente e abusivo. 

E – A componente não letiva (ou o que cabe aos “mais velhos”)

No meu caso pessoal, as 11 horas de componente não letiva, estão assim distribuídas: 2 h (direção de turma) + 4 h (coordenação de departamento e CAD, em acumulação) + 2 h (apoio aos alunos do 10º e de 7º) + 2 h (gabinete de mediação) + 1h (trabalho colaborativo). Muitas destas atividades estavam integradas na componente letiva, pois são atividades de carácter pedagógico, mas a ministra Maria de Lurdes Rodrigues, do cimo da sua arrogância, alterou o ECD a seu belo prazer. Isto implicou redução de horas e de horários e mais uma poupança de milhões, ao longo de todos estes anos. Políticos e sindicatos continuam a ignorar esta situação.

F – Organização do dossiê digital, da responsabilidade do CAD ou do Coordenador de Departamento

Antes da era da informática, cada grupo disciplinar mantinha o seu arquivo em papel, onde eram colocados todos os documentos inerentes às atividades do grupo – planificações, testes, atas de reuniões, etc.

A era digital trouxe a esperança de se pouparem papéis e árvores, mas acrescentou mais umas “tarefas” aos coordenadores de departamento ou aos CAD. Assim, os vários documentos são enviados por cada um dos professores ao coordenador e este “arquiva-os” no dossiê digital, que se divide nas seguintes pastas: (1) Atas; (2) Avaliação (todas as grelhas Excel onde constam as classificações dos vários instrumentos de avaliação e que vão sendo completadas ao longo dos vários períodos letivos); (3) PAA do grupo; (5) PEF + PEA + Exames nacionais – dados estatísticos); (6) Planificações (gestão curricular, planificação anual e planificações por tema, domínio ou módulo); (7) Professores (diversas subpastas consoante o número de professores, onde são colocados os testes e outros instrumentos de avaliação + critérios de correção de cada um deles); (8) Projetos e protocolos de cooperação com outras entidades); (9) Relatórios do CAD e do coordenador Departamento).

G – Formação contínua de frequência obrigatória

Como mudei de escalão em Dezembro de 2018, as 30 horas de formação, feitas entre Dezembro/2017 e Fevereiro/2018, foram literalmente deitadas no lixo. Assim, fui obrigada a fazer 50 horas de formação, entre Abril e Julho/2019, para poder aceder ao 10º escalão, no próximo ano letivo.

Todas as ações de formação são, intencionalmente, realizadas fora do horário de trabalho, ou seja, nos períodos que deveriam ser, obrigatoriamente, de descanso. Mais uma “modernice” da ministra MLR, porque “os professores, além de privilegiados, não faziam nada ao longo do ano letivo!”.

NOTA FINAL: Os docentes que estão na carreira têm, atualmente, a 1ª redução da componente letiva aos 50 anos (2 horas e só aos 60 atingem a redução máxima de 8h). Estes colegas estão “carregados” de turmas, sobretudo os que lecionam as disciplinas das Humanidades (História, Geografia (EB) e Filosofia (ES) e das Artes (EV), algumas reduzidas a uma carga horária semanal de 50 minutos.

 Maria de Fátima dos Santos Patranito

(Por questões compreensíveis não é referida a escola onde leciono)

Papel

Dissoluções

Boris Johnson suspende o Parlamento à João Franco, alegando que quer cumprir a vontade da maioria que votou pelo Brexit. Por cá, ameaçam-se de dissolução organizações ou corpos sociais que se tenham revelado mais dificilmente domesticáveis. Aposto que nos dois casos se alega o “interesse nacional” e se bate no peito em jeito de patriotismo. A democracia em minúsculas segue dentro de momentos.

Democracy1

A Necessidade Da Memória Em Tempos Digitais

Regressei ao mundo real e, como seria de esperar, foi duro. Porque há coisas por pagar, outras por levantar, não sei mais o quê por resolver, tudo acrescido do facto do choque térmico de quase 10 graus em poucas horas.

Para começar a resolver algumas coisas ainda hoje, lá fui levantar duas encomendas que estavam em espera (por uma vez não eram nos ctt) e que necessitavam de códigos para ser detectadas, mesmo se uma estava bem visível do balcão onde eu me encontrava. Claro que tudo segue um protocolo e a jovem funcionária (vintes e poucos) deve ter tido formação, mas ai-jesus que não sabia de nada e lá chamou o colega. O colega queria ver a mensagem de confirmação que me tinha sido enviada. Perguntei-lhe se não chegava que eu lhe dissesse o código que lá vinha (7 dígitos, para um tipo arcaico como eu fixam-se em poucos segundos e tinham sido vários os minutos que passaram enquanto observava a funcionária incapaz de lidar com os procedimentos que não soubera memorizar. Claro que saberia clicar nos ícones e até reconhecer palavras, mas ficou evidente que fora incapaz de memorizar a sequência das operações.  Desconfiado, o que a veio auxiliar lá inseriu o código que lhe disse, não sem antes comentar que não lhe parecia normal para uma encomenda online. Azar, estava certo e deu com a coisa. Uns vinte minutos depois de tudo ter começado, lá me deram o que estava à minha vista, num expositor de encomendas com a identificação bem à vista. Ainda bem que pagara previamente ou nem tinha conseguido almoçar em tempo útil e sabeis como isso me incomoda.

No segundo caso, novamente uma jovem funcionária (vintes um pouco mais avançados) capaz de ir buscar o que era necessário onde quer que estava, depois de alguma luta para inserir o meu nome (o raio do apelido é chato para quem só espera por silvas) mas absolutamente incapaz de pelos seus meios produzir a factura do produto para que eu o pudesse pagar. Pedido de ajuda a uma outra colega, mais graduada e despachada, que deixou as coisas mais ou menos alinhavadas até eu perceber que estava a ser facturado o dobro do valor devido por duplicação das quantidades (pelos vistos cada uma terá inserido o produto de forma autónoma). Vai de refazer todo o processo e eu a explicar à minha petiza como a informática ajuda muito (até porque sou utilizador registado, com todos os dados já lá guardados na base) se as pessoas a souberem usar E tiverem capacidade para memorizar os procedimentos correctos a adoptar.

E é no quotidiano que se percebe que a imensa facilidade em descarregar e usar apps no telemóvel ou publicar as férias, festas e felicidades nas redes sociais, podendo corresponder a “competências digitais”, está longe de satisfazer necessidades básicas de um quotidiano laboral que exige, apesar de todas as modernidades, o mínimo dos mínimos de alguma malfadada capacidade de memorização.

Mas eu é que estou velho e não percebo mesmo nada disto.

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O Inferno Em Que Transformaram A Minha Profissão – 2

Segunda parte do texto da colega Maria de Fátima Patranito.

– No conselho de turma faz-se, obrigatoriamente, uma apreciação geral de cada um dos alunos e identificam-se áreas de melhoria que também são aí registadas, aluno a aluno, período a período.

– Também são registados os sumários e as faltas dos alunos nessa plataforma, bem como a justificação das mesmas (“tarefa” que cabe ao diretor de turma).

– No final de cada período cada docente faz a avaliação das atividades de apoio ao estudo dos alunos que as frequentaram, preenchendo 1 documento com o nome dos alunos, sessões a que cada um assistiu, se foi proposto ou se as frequentou voluntariamente. Estes dados são retirados dos sumários das sessões, registados na referida plataforma.

– Há professores que colocam na plataforma Moodle materiais extra para os seus alunos, sobretudo no ensino secundário.

– Planificação anual e por período, dos temas, domínios ou módulos, consoante os anos de escolaridade (professores que têm os mesmos anos de escolaridade).

– Planificação de visitas de estudo e toda a documentação inerente (projeto da visita, lista de alunos para seguro escolar, autorizações para os encarregados de educação).

– Como diretora de turma, há que salientar as seguintes “tarefas”: 1. Controle de faltas e sua comunicação atempada aos encarregados de educação (através da plataforma Inovaralunos); 2. Justificação de faltas; 3. Elaboração de relatório para a direção no caso de o aluno atingir um determinado número de faltas de carácter disciplinar e ser necessário aplicar medidas corretivas; 4. Atendimento semanal de encarregados de educação; 5. Manter atualizados os processos individuais dos alunos; 6. Atualizar os processos individuais no final do ano letivo; 7. Limpar o dossiê da direção de turma; 8. Preparar e dirigir as reuniões com encarregados de educação; 9. Identificar alunos que necessitem de apoios individualizados (apoio em foco académico, nova designação do 54/2019) e preencher o respetivo documento (com 3 páginas de dados) para entregar à EMAEI; 10. Preparar as fichas de informação a entregar aos encarregados de educação em cada uma das reuniões do final de cada período; 11. Imprimir as fichas de informação para encarregados de educação; 12. Elaboração das atas das reuniões com encarregados de educação (para não correr o risco de ficarem por fazer e entregar ad eternum).

– Terminadas as atividades letivas, ainda fui coadjuvante do exame de 12º ano, na 1ª e 2ª fase; fiz 2 vigilâncias de exames; fui convocada como corretora de provas da 1ª fase, recebendo 37 provas para corrigir.

B – Reuniões:

– Reunião geral de professores, no início do ano letivo, para as boas vindas e receber horários. Para o serviço de exames (coadjuvação, vigilância e correção das provas). Para esclarecimentos sobre a contagem do tempo de serviço a recuperar: a “esmola” de 2 ano, 9 meses e 18 dias (em vez de 9 anos, 4 meses e 2 dias).

Total: 3

– Reuniões de conselho de turma: 5 por ano, multiplicadas pelo número de turmas que o professor leciona e que podem ir de 2 a 8 ou até mais, dependendo da sua disciplina. Nos anos sujeitos a exame nacional, podem ser feitas 6 reuniões de conselho de turma para identificar alunos que necessitem de medidas especiais no dia de realização das provas (tempo extra, suporte digital, etc.). Podem existir outras reuniões de carácter extraordinário. No meu caso, tive 12 conselhos de turma (3 turmas x 4 ct).

Total: entre 10 a 40 ou mais,

de acordo com o nº de turmas do docente

(ou mais uma para cada turma nos anos de exame)

– Reuniões de diretores de turma: 4 por ano para cada ciclo de ensino. Alguns professores podem ser contemplados com 2 direções de turma e, eventualmente, uma de cada ciclo.

TOTAL: 4

– Reuniões de grupo disciplinar para tratar de assuntos diversos, nomeadamente, dar cumprimento a orientações do conselho pedagógico.

Total: 10

– Reuniões de departamento quando há necessidade de dar cumprimento a orientações do conselho pedagógico ao nível dos departamentos curriculares.

Total: 3

– Reuniões de conselho pedagógico para tomar decisões ou fazer recomendações aos vários departamentos.

Total: 24

– Reuniões de cidadania com vista à implementação da “Estratégia” do ME para a Cidadania e Desenvolvimento. Apenas os professores que lecionam a disciplina. No presente ano letivo, apenas turmas de 7º ano, com 50 minutos semanais, em regime anual ou semestral, conforme as turmas (ensino normal ou ensino articulado da música). Convém referir que estes 50 minutos foram retirados às Ciências Sociais e Humanas. Mais uma vez a História saiu prejudicada!

Total: 8

– Reuniões com encarregados de educação realizadas no início de cada um dos períodos letivos, sendo que no 3º período se realizam duas. Podem realizar-se reuniões extraordinárias se as turmas tiverem problemas de comportamento. Na minha direção de turma realizou-se uma reunião extraordinária no 2º período, registando-se um total de 5 reuniões.

Total: 4

– Reuniões com da SADD (secção de avaliação do desempenho docente) com os avaliadores.

Total: 2

(e continua… continua…)

 

O Inferno Em Que Transformaram A Minha Profissão – 1

Publico em seguida a primeira de três partes de um texto elaborado pela colega Maria de Fátima Patranito acerca do labirinto em que se tornou a docência. Não é leitura para leigos ou colegas daquel@s muito alegritas com cada nova novidade burrocrática.

*

Tenho 62 anos; 44 anos de serviço (11 anos e 6 meses em outro organismo do Estado e o restante como docente). Escolhi a minha profissão por gosto e convicção. Se fosse hoje, faria uma opção diferente.

No presente ano letivo (2018-19), fui coordenadora de departamento (cargo que acumulei com o de CAD – coordenadora de área disciplinar) e diretora de turma do ensino secundário; tenho 14 h de serviço letivo (8 horas de redução), mas em contrapartida sou agraciada com 11 horas na componente não letiva. Ainda não contabilizei as horas de trabalho individual (ou seja, realizado em casa), mas elas ultrapassavam em muito as 10h que nos são deixadas para perfazer as 35h semanais.

I – Algumas considerações sobre a carreira docente

Há mais de uma década que a carreira docente tem sido constantemente sujeita a ataques de políticos incompetentes, arrogantes, difamadores e sem escrúpulos, pouco preocupados com a escola que é de todos, com as condições de trabalho de docentes e não docentes, homens e mulheres que, em algum momento da sua vida, ousaram dizer que gostavam de trabalhar com crianças e jovens.

Particularmente, os professores têm sido alvo de ataques diversos, difamação, insultos, bodes expiatórios de insucessos de sucessivas reformas nunca avaliadas, de vontades políticas de políticos e partidos sem agenda para a Educação, tema de conversa de café e de outros espaços públicos por gente que não faz a mínima ideia do que é ser professor em Portugal e no inferno em que, sobretudo desde o ministério de Sócrates/Maria de Lurdes Rodrigues, transformaram a nossa vida. Recentemente, até fomos usados para inventar uma crise política! A Comunicação Social e os seus “comentadores” de cartilha encomendada, têm ajudado a disseminar o ódio por uma classe que devia ser respeitada e acarinhada por todos. Escusado será dizer que nunca tivemos ou temos direito ao contraditório, nos diversos meios de comunicação social, sobretudo nas televisões pública e privadas.

Com a carreira congelada durante 9 anos, 4 meses e 2 dias, com cortes salariais e sonegação dos subsídios de férias e de Natal durante o período da “crise” (2009-2014), que representaram muitos milhões de “poupança” para o Estado (que necessitava de injetar muitos milhões em bancos privados cujas administrações praticaram atos fraudulentos e levaram à sua falência e continuam impunes), com vários entraves à progressão dos docentes integrados na carreira que são colocados no 1º escalão sem que se tenha em conta todo o tempo de serviço prestado até essa altura, com a necessidade de abertura de vagas (abertas pelo ME) para aceder ao 5º e ao 7º escalão, com cotas (de acordo com regras impostas pelo ME) para a atribuição de Muito Bom e Excelente, com muitos dos docentes a receberem salários de miséria (alguns levam para casa 900 euros e muitos têm de os repartir entre duas rendas de casa pois estão deslocados a muitas dezenas ou até centenas de km de casa, combustível ou transportes públicos, alimentação e outras despesas inerentes a quem está afastado da sua residência), uma proletarização que tem acontecido com a conivência de sindicatos afetos às duas centrais sindicais, por motivos diversos e por falta de agenda política, por interesses pessoais e por afastamento da escola, durante décadas e décadas, dos vários sindicalistas e, em simultâneo, negociadores.

Em 2018, as carreiras foram descongeladas, mas o poder político “esqueceu-se” de comunicar aos portugueses que os eventuais aumentos salariais que daí resultaram, estão a ser pagos em “prestações suaves de 25%, trimestralmente”. Para esses docentes, o salário correspondente ao escalão para onde transitaram só aparecerá no último trimestre de 2019, ou seja, 2 anos depois de o governo de Costa “Ter posto o relógio a andar” (sic). Muitos docentes foram ultrapassados nesta progressão devido ao despacho que recupera 2 anos, 9 meses e 18 dias do tempo de serviço prestado, pois o diploma descrimina os que progrediram em 2018, prejudicando-os, e os que progrediram em 2019, que recuperam esse tempo de serviço de uma só vez. Não acredito no Pai Natal, mas estas ultrapassagens foram intencionalmente consagradas no diploma porque, também elas, representam uns milhões de poupança e, como diz o povo é uma forma de “dividir para reinar”. Assim, sempre conseguem pôr professores contra professores (os mais distraídos, é certo, mas infelizmente acontece). E muito mais haveria a dizer, mas a intenção do meu registo é outra.

II – As “tarefas” de um professor ao longo do ano letivo

Não tendo escrito um diário sobre aquelas que são, de uma forma geral, as tarefas (termo utilizado, intencionalmente, para desprestigiar ainda mais a classe) de um professor ao longo de um dia de trabalho dito “normal”, não quis, contudo, deixar de registar as mil e uma atividades para que somos solicitados ao longo do ano e logo após o encerramento das atividades letivas. Fomos transformados em meros funcionários do Estado, sem qualquer desprestígio para os que, com profissionalismo e responsabilidade, exercem essas funções nos mais diversos departamentos dos serviços públicos. Mas a profissão docente tem especificidades que os políticos teimam em negar, intencionalmente ou por pura ignorância e até arrogância.

A – “Tarefas” gerais:

– Preparar aulas e materiais a utilizar (embora se resuma a uma frase, é a atividade que mais tempo nos deve ocupar. Por vezes, é a que fica para o fim de tudo o resto, porque a “burrocracia” e a “escravatura” digital assim o exigem!).

– Elaborar (incluindo critérios de correção), fotocopiar, corrigir e entregar devidamente classificados os testes e outros instrumentos de avaliação aplicados a cada um dos alunos.

1ª NOTA: A falta de pessoal não docente nas escolas tem sido uma constante. Assim, o ME e as direções das escolas sempre optaram por sobrecarregar os professores com tarefas inerentes a outras funções que não as docentes. Foi neste contexto que começámos a fazer matrículas e turmas (agora um pouco menos devido à utilização da matrícula eletrónica, embora as escolas continuem a gastar milhares de folhas A4 para “renovar matrículas” dos alunos que já pertencem à escola e apenas transitaram de ano). Este ano fomos todos surpreendidos com a decisão da direção de fotocopiarmos os nossos testes, com argumentos de que assim se controlaria, com maior eficácia, o número de fotocópias. O argumento é a falta de pessoal, sobretudo de técnicos operacionais, que se têm de desdobrar para outros serviços. Quem paga essa “fatura”? Os professores! O verdadeiro argumento é o desrespeito que todos nos devotam, incluindo alguns elementos da classe docente que ocupam lugares nas direções.

As turmas são de 30 alunos, excepto no 7º ano onde são de 28. Um professor pode ter entre 3 a 8 ou mais turmas (dependendo da organização curricular de cada escola, depois da entrada em vigor do Dec. – Lei 55/2018).

– Registar numa plataforma acessível aos encarregados de educação todas as classificações de todos os instrumentos (entre 6 a 15 instrumentos anuais, dependendo da carga horária semanal da disciplina).

2ª NOTA: Nunca ninguém demonstrou, através de dados estatísticos, a percentagem de encarregados de educação que acedem a esta plataforma durante o ano letivo, mas a avaliar pelos dados da minha direção de turma, ouso afirmar que a percentagem não irá muito além dos 8%/10%. Justificar-se-á tão hercúlea “tarefa” tendo em conta o tempo despendido com a mesma? 

– No final de cada período, cada professor regista, na mesma plataforma, as propostas de classificação dos alunos (recorde-se, sobretudo, o número de turmas de cada docente).

– Nessa mesma plataforma temos de rever/recalcular o número de aulas previstas e dadas (PD), mais importando aos encarregados de educação as faltas que um professor dá do que as faltas que o seu educando deu e que ele justificou com “dores de barriga” ou “indisposição”!

– Ainda nessa plataforma, cada professor “pode” fazer sínteses descritivas, por aluno.

3ª NOTA: por vezes começa-se pelo “pode”, para de seguida se passar à obrigatoriedade do registo, por decisão das direções). 

Maria de Fátima Patranito

(continua)

Burnout