O Horror À Falácia

Já cheguei à página 51 do livro de João Costa e João Couvaneiro, mais uma em que se não se cumprem as pretensas boas intenções enunciadas antes (pp 18-19) sobre a moderação do discurso adoptado.

Esta página corresponde ao início do capítulo em que se pretende ridicularizar – nunca nomeando de forma clara, para evitar o confronto transparente – quem alegadamente considera ser da ordem do “horror ao conhecimento” a postura de alguns pedagogos que insistem na prioridade das competências, algo que é mais do que evidente nos documentos orientadores (Perfil do Aluno, Aprendizagens Essenciais, etc) produzidos durante este mandato na área da Educação.

Citemos, com a devida imagem:

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Em matéria de argumentações intelectualmente pouco sérias, procurando iludir o debate com o ruído de proclamações arreigadas em slogans, o que dizer da seguinte, produzida por alguém que diz ter uma postura “equilibrada”, na tal entrevista em que considerou que também falou da menoridade dos “conhecimentos enciclopédicos” (algo que seria profusamente glosado nos dias e semanas seguintes pelos discípulos do novo tempo educacional):

Nas escolas, os alunos estão a viver rotinas de “memorizo informação, despejo no dia do teste e, a seguir, esqueço”. E isto significa que há aprendizagens que não se estão a consolidar.

Mas pronto, vamos tentar perceber ao que se referirão aos autores ou a quem. Coloco-me fora da contenda, pois sou soldado raso. Sei que há dois ou três autores que, ao longo dos anos, têm um discurso muito crítico da abordagem das “competências” e da forma como o conhecimento é menorizado nesta tendência pedagógica. Uma pesquisa breve devolve-me um artigo conjunto de dois deles (Carlos Fiolhais e Guilherme Valente) com o título de “O horror aos melhores ou a inutilidade da escola”. Mas… é de 26 de Abril de 2001, como reacção à primeira investida deste tipo de pedagogia das competências e transversalidades, que ficou conhecida como ” Gestão Flexível do Currículo”. Porque é importante que se perceba que este pseudo-debate tem vinte anos e João Costa e João Couvaneiro chegam muito atrasados a algo que tem História. Não sei se a desconhecem ou se apenas fazem por ignorar.

Curiosamente, nos tempos recentes, essa é uma expressão de que o google não nos devolve referências, muito muito em relação aos debates ligados à promoção das competências como uma espécie de fase superior do desempenho dos alunos. Nem sequer nos devolve nada relativo ao anterior ministro Nuno Crato. Ou seja, não sabemos bem sobre o que ou quem estão a falar os autores, em especial quando recorrem a tal expressão, pelo que seria mais claro que evitassem, como prometerem nas primeiras páginas, a caricatura e o simplismo das posições que identificam como adversas. Sim, a mim não horroriza tal expressão, mas, como disse, não estou ao nível dos autores na elevação intelectual e argumentativa com que tratam estas questões.

Mas… posso sempre recorrer ao único autor que julgo “incontroverso”, avesso ao “óbvio” e que escreveu sobre o “horror de conhecer”.

Por que pois buscar
Sistemas vãos de vãs filosofias,
Religiões, seitas, [voz de pensadores],
Se o erro é condição da nossa vida,
A única certeza da existência?
Assim cheguei a isto: tudo é erro,
Da verdade há apenas uma idéia
A qual não corresponde realidade.
Crer é morrer; pensar é duvidar;
A crença é o sono e o sonho do intelecto
Cansado, exausto, que a sonhar obtém
Efeitos lúcidos do engano fácil
Que antepôs a si mesmo, mais sentido,
Mais [visto] que o usual do seu pensar.  
A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se eternamente
Fraco no engano, [e assim] no desengano; 
Quer na ilusão, quer na desilusão.

Retiremos e guardemos para pensar e repensar que “A fé é isto; o pensamento a querer enganar-se eternamente”.

5 thoughts on “O Horror À Falácia

  1. É um daqueles assuntos que até já chateia de tão batido… Competências versus conhecimentos, avaliação sumativa versus avaliação formativa… Assuntos estéreis que até já tresandam a mofo… Não sabem mais nada estas pessoas responsáveis pela educação de um país? Sempre a inventarem a roda?
    E com aquele ar arrogante e de sobranceria intelectual por se achar acima dos que todos os dias enfrentam várias turmas de alunos a quem nada interessa seja de que maneira for.
    Esse João Costa não foi também professor? Ah, mas ok, era do superior e aí, está claro, cada docente pode fazer muito bem o que lhe apetece; além disso, às aulas só vai quem está realmente interessado… Que figura tão ridícula este João Costa

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