As Minhas Respostas Para A Peça Do Jornal De Negócios…

… que saiu hoje (conteúdo completo apenas para assinantes).

Tiago Brandão Rodrigues: o ministro à “sombra”

Vindo de fora do setor, da política e do país, Brandão Rodrigues entrou como um desconhecido, fugiu das luzes nos momentos turbulentos e termina o mandato sem um legado em tons vivos.

Aqui vai o que escrevi:

1-    Como avalia, de forma genérica, o desempenho do ministro da Educação, Tiago Brandão Rodrigues?

O ministro Tiago B. Rodrigues cumpriu de forma muito disciplinada a missão que lhe foi confiada neste governo, nomeadamente a de manter os sindicatos do sector sob controle durante mais de dois anos, assumindo um papel político de “ombro amigo” que chegou mesmo a merecer elogios a alguém tão exigente nestas matérias como Mário Nogueira. Como ministro propriamente dito da pasta, ficou por se lhe conhecer uma marca distintiva, pois as principais políticas desenvolvidas com impacto no quotidiano das escolas ou na orgânica do sector têm a assinatura do secretário de Estado João Costa e da secretária de Estado Alexandra Leitão.

2-    Aponte um dossiê que considere que tenha corrido bem e outro que tenha corrido mal – justificando.

Penso que o dossier que correu melhor ao ministro foi exactamente o da manutenção de uma política de aplainamento da carreira docente, em termos de progressão profissional e salarial, pois conseguiu, como referi, manter uma assinalável “paz social” no sector até ao início de 2018. Se isso não foi apenas responsabilidade sua, não se deve retirar-lhe o mérito de ter sido o rosto de uma relação amistosa com a generalidade dos sindicatos durante esse período.

Uma área em que as coisas correram mal, embora esta avaliação esteja muito sujeita à subjectividade de cada um e à forma como encara o que “qualidade” em Educação, foi a da completa cedência ao sector político mais permissivo em termos de avaliação dos alunos e à adopção de um discurso marcadamente datado em termos ideológicos sobre a monitorização das aprendizagens dos alunos, aceitando deslocar ainda mais do que antes todo o ónus da prova para os professores, desresponsabilizando quase por completo os alunos pelo seu próprio desempenho. De certa forma, a falta de experiência do ministro no sector, aliada à sua falta de conhecimentos teóricos nesta área, tornou-o uma presa fácil de uma retórica atractiva e acredito que bem intencionada, mas profundamente demagógica.

3-    Além do desconhecimento do setor, no início do mandato muito se falou também da falta de experiência / influência na política e nos palcos mediáticos. Que balanço faz destes outros aspetos, incluindo os que são mais de “perfil” do ministro?

Este ministro iniciou o mandato sem qualquer escrito conhecido sobre Educação, o que não será inédito. Mas o que talvez seja mais notável, pela negativa, é terminar esse mandato sem qualquer intervenção pessoal marcante sobre uma única matéria educativa, limitando-se a reproduzir lugares-comuns conhecidos, pelo menos, desde os anos 60 ou 70 do século XX. Há titulares da pasta que, por si só, concordemos ou não com eles, trouxeram um “peso” específico (Roberto Carneiro, Marçal Grilo, David Justino), aqueles que vieram cumprir uma missão definida superiormente, mas que a tornaram sua (Maria de Lurdes Rodrigues, Nuno Crato) e os que passaram pela pasta como simples rosto pacífico para consumo público (Isabel Alçada) como Tiago Brandão Rodrigues. Digamos que funcionou como um medicamento com suaves propriedades analgésicas e calmantes durante a maior parte do tempo e raramente conseguiu transmitir a ideia de que era ele que conduzia qualquer política. Nas áreas mais técnicas (pedagogia, gestão curricular, inclusão) a obra que fica deve-se a João Costa, enquanto nas mais polémicas (relação com ensino privado, gestão da carreira docente, greves no sector) a condução das medidas ficou a cargo de Alexandra Leitão. Isto para não falar nas matérias que passaram completamente ao lado do próprio ministério como sejam os casos da descentralização de competências ou do investimento público no sector.

Quanto a outros pontos de vista deixo aqui um dos destaques, com duas observações:

PG JNeg12Set19

  • Caro Filinto, o ME deve ter ido muito a escolas a norte do Mondego e acredito que entre o Douro e o Minho tenha sido figura muito presente, mas a sul do Tejo e em outras zonas mais agrestes, parece-me que só ia onde o mandavam ir ou a escolas com direcções amigas de alguém na 5 de Outubro ou na 24 de Julho. Se falou muito com os directores? Talvez, mas o resto do pessoal não ganhou grande coisa com isso. E sabes bem que eu cada vez tendo a confundir menos o clube d@s director@s com o resto da classe docente ou mesmo com a “voz das escolas”.
  • Por outro lado, quanto ao senhor da confap, o “segredo” não é ter o número de telefone deste ou daquele (isso arranja-se com mais facilidade do que parece), mas sim saber resistir à tentação e ter a capacidade de NÃO o usar. Eu sei que somos muito diferentes em termos de práticas, mas nunca é suficiente sublinhá-lo.

5 thoughts on “As Minhas Respostas Para A Peça Do Jornal De Negócios…

  1. Se o Paulo não estiver acima do 6º escalão. vai ficar a ‘marinar’ na lista de espera ‘ad eternum’ pela ousadia…
    e se não estiver nos primeiros 4 da lista de graduação do grupo, ainda se arrisca a um ‘horário-zero’ que facilmente se pode cozinhar…

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