Inflexibilidades

Texto chegado por mail com identificação do remetente. Admiro quem ganha ânimo para o escrever. A mim, começa a faltar, mesmo quando sou obrigado a apreciar coisas semelhantes, em especial quando a mediocridade surge na ponta dos pés.

Assunto:

Na sequência da reunião efectuada em 2019-10-16, orientada por […] e subordinada ao  tema “Domínios de Autonomia Curricular (DAC)” e dados conexos com o DL 55 de 2018-07-06 e na qualidade de DT do 7C (14 horas de componente lectiva incluindo 2 de DT) é-me imperativo efectuar os seguintes esclarecimentos:

Serei de pouca servidão ao CT, quer para coordenar (dentro das atribuições de DT) quer para participar (dentro das funções de docente de EV) nas actividades decorrentes da aplicação do DL 55.

Para enquadrar a afirmação anterior é necessário algum contexto, nomeadamente sobre o meu percurso como docente contratado e as opções e convicções que ao longo dos anos fui tomando e consolidando.

Iniciei a docência em 1985, e com algumas interrupções, decorrentes de outras actividades ou por falta de trabalho, fui contratado 23 vezes em 20 escolas ou agrupamentos, tendo obtido a profissionalização em serviço apenas em 2009. A opção pela contratação foi consciente, pois preferia ter horários reduzidos que me permitissem actividades extracurriculares fossem elas noutras profissões (vendedor de material informático, formador de CAD, arquitecto, designer…) fossem elas formações (canalizador, apicultor, operador de grua, ilustrador científico…) ou fossem elas simplesmente a prática de diversos ócios. Relembro que “Escola”, vem do grego scholē, “ocupação de quem se encontra em descanso” e posteriormente do latim scholaócio consagrado ao estudo”. É este ócio que sucessivamente vem sendo retirado aos docentes e que para mim é muito mais gravoso para a sua actividade do que o congelamento da sua carreira (digo eu que não tenho carreira e podendo ser considerado um mercenário da educação), pois acabado o tempo do ócio acabou o tempo da reflexão.

Agora apresento (parte) da minha teoria da conspiração.

  1. O assunto da reunião em questão (DAC) e o seu contexto já o ouvi em diversas ocasiões e para auditórios de geometria diversa.
  2. Conheço a sua origem no ido ano de 2001 com o “No Child Left Behind“ do governo George W. Bush e conheço os seus efeitos, sejam eles aplicados por detentores de Master of Science da Boston University School of Education ou Pós-Doutoramentos da Pontifícia Universidade Católica do Paraná.
  3. Estou cansado de ouvir Vítores Tétés, Ariánas Cosmes, Margaridas Soares e ressuscitadas Marias dos Ceús, “a todos e a cada um” como tanto gostam de afirmar como se o “todos” não incluíssem o “um”, a defenderem políticas educativas que não são mais do que propagandas ideológicas que roçam uma qualquer teologia, a cujos oponentes só falta chamar hereges e lançar para a fogueira.
  4. Descarregam sobre um corpo docente envelhecido, sem perceber que o seu alquebrar se deve não a uma perda de conhecimento mas a uma imposição horária atroz que os ocupa com ninharias. Querem sangue novo, sangue sem a história das áreas escolas e das áreas de projecto, pós modernistas do fim da história, enquanto camuflam que a criação de professores não se faz pela frequência dum curso mas na prática escolar que os leva da arrogância sapiente à humildade de quem professa.
  5. Não querem contestação, por isso os eleitos assoberbam os docentes com registos, tabelas, gráficos, grelhas, relatórios, observações e procedimentos, transformando-os em técnicos laboratoriais de bloco de papel em riste a registar os comportamentos das cobaias, perdão, dos alunos.
  6. A sua falácia preferida proclama que suas ideias não pretendem que os alunos passem sem saber, que o nível de exigência não tem de ser baixado, quando no final o que interessa é reduzir o número de retenções pois cada uma tem reflexo no orçamento da educação.
  7. Querem impor uma organização informal devoradora do pouco tempo de descanso que ainda resta e encaixar uma teoria numa estrutura rígida de horários, seja dos docentes ou dos discentes.
  8. Criaram uma agulha, perfeita, uniforme e brilhante, uma obra de arte merecedora de toda a admiração. Mas depois atiram-na para os professores para que sejam eles a descobrir a forma de lhe fazer o indispensável buraco.
  9. Os políticos, ideólogos (e teólogos) actualmente no poder, obsessivos compulsivos a brincarem ao Excel e ao SimCity, têm efectivamente o pau na mão. Quanto a mim fiquem lá a jogar com o pau, ciente de que em qualquer altura mo podem atirar. Mas no entretanto eu vou continuar a jogar com a bola, pois essa, eu não lha vou dar.

J. A.

Aplauso

16 thoughts on “Inflexibilidades

  1. J.A.
    Triste realidade … como eu entendo a frustração e desgaste estúpido a que quase todos os Professores estão sujeitos.
    Conseguiram destruir uma profissão tão importante , tão bonita e tão agradável.
    Haverá volta a dar ?
    Não me parece tarefa fácil.
    Felizmente ainda ” vivi ” tempos de normalidade no exercício das minhas funções.
    Fica a minha solidariedade .

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  2. Parabéns! É bom saber que ainda há quem não se verga. Fossem eles em maior número, e a situação não se teria degradado tanto. Bom fim de semana.

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  3. Estou a pensar seriamente dedicar me à agricultura, acho que vou rejuvenescer um par de anos. Não estou para aturar gente que se esqueceu de quem os formou.
    Parabéns pelo texto, infelizmente esses nem se dão ao trabalho de o ler, têm medo que a consciência lhes pese.

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  4. 👏👏👏Muito assertivo! Parabéns!
    Infelizmente a maioria tem “palas nos olhos” e é subserviente…
    Por mim também já me dedicava à agricultura… é a desilusão e a desmotivação para o “disparate reinante”

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