6ª Feira

Há quem goste de apontar aos professores o facto de aparentemente estarem sempre a queixar-se das suas condições de trabalho e que deveriam pensar que todos os que trabalham têm razões de queixa. Nada contra, mas nesse caso os outros que se queixem dos seus males e façam algo de acordo com isso (mas, por favor, não formem sindicatos alternativos ao establishment nem proponham “formas de luta” sem autorização dos comités autorizados e certificados para o efeito). Os professores têm todo o direito de demonstrar a sua insatisfação com aquilo que lhes cai em cima todos os anos e que pouco ou nada tem a ver com o trabalho com os alunos, para além da cosmética. Quem adormecer dois anos e voltar a uma escola depois disso entra logo num mundo novo de siglas, procedimentos e “conceitos” que renomeiam a pólvora seca pedagógica. Sim, há temas e problemas recorrentes que já deveríamos ter, em conjunto, procurado resolver de forma mais eficaz, como é o caso da indisciplina. Mas o problema maior é que nos foram dividindo, enfraquecendo e desanimando, enquanto uma minoria foi vulnerável a seduções diversas, seja da tutela em relação aos órgãos de gestão, seja destes em relação a cliques seleccionadas. E não é raro que baste um par de infiltrados para lixar uma organização bem pensada (desconfiai sempre de quem se oferece para ser muito útil, quando nunca lhe ouvimos um pio ou visto um acto de “assertividade”, mas sim de alinhamento com os ventos). E cada vez é mais difícil travar lutas, “comprar guerras” de proximidade ou distância quando se sabe que as tropas andam estropiadas.

Mas é importante que deixemos de ficar tolhidos pelo embaraço ou vergonha e continuemos a denunciar a nova camada de disparates e excrescências com que os costismos-arianismos-rodriguismos cobriram o trabalho docente neste mandato, agravando o que já era intolerável. Recolher manuais e apagar-lhes os apontamentos, tratar de toda a papelada administrativa que em tempos eram as secretarias a tratar só porque com a febre dos megas cada vez há menos pessoal para o fazer ou acompanhar a criançada ou juventude a cada iniciativa que algum colega muito empreendedor e convencido de ser excelente organiza desde que sejam os outros a fazer o trabalho terreno, vai muito para além do conteúdo funcional da profissão. Não é uma questão de “sobretrabalho”, é um fenómeno de desprezo pela especificidade da docência que assim se torna uma espécie de “acompanhamento de crianças e jovens na escola em tudo o que a a alguém se lembre de mandar fazer”.

Sim, devemos continuar a arranjar forças para protestar e reagir, como @ colega que escreveu o texto do post anterior e responder na cara, em directo e a cores a gente que gosta de mandar para depois colocar no relatório que coordenou ou que adora acumular medalhas com base em façanhas que todos desconhecemos. O triste é que num contexto de desqualificação da docência, quem mais sofre são os que têm maior orgulho no seu trabalho, sobrevivendo muito melhor os medíocres, pois as coisas ficaram ao nível em que se sentem mais confortáveis. E ainda melhor quem aceita colaborar, entre a crença em qualquer coisa com que nem sabe se concorda, mas convém.

Felizmente, a mediocridade que há em mim ainda me permite não desanimar por completo e enfrentar, olhos nos olhos, quem considera que cada novo nível de irracionalidade burocrática e impresso para registo da irrelevância é um sinal de muitobonzice. Ou quem critica por fora, para ver quem adere às críticas, mas vai logo buscar a corda para ajudar ao enforcamento alheio. Ou quem está sempre a dizer que é mesmo assim ou talvez possa ser de outra forma a menos que seja da maneira que mandaram fazer de início, caso liguem o lume no mínimo.

E quem quiser enfiar o barrete que enfie. Já não me rala muito se pensam que estou a falar disto mesmo agora ou no senhor geral. Ninguém vos manda vir aqui controlar.

Barrete

 

7 thoughts on “6ª Feira

  1. Ora nem mais: “(…)E quem quiser enfiar o barrete que enfie. Já não me rala muito se pensam que estou a falar disto mesmo agora ou no senhor geral. Ninguém vos manda vir aqui controlar.”

  2. Os nossos males estão cá dentro mesmo. É por sermos uma classe profissional muito reles que estamos neste estado. Quem está no poder já há muito percebeu isso. Somos muitos e, em larga maioria, maus profissionais. Desculpem a última parte, talvez esteja a exagerar… talvez.

  3. Absolutamente de acordo!

    Apenas acrescentaria que tudo isto se traduz em “sobretrabalho” e mais grave em Exploração…e, sempre, com a memorização da sala de aula e do ensinar, sim e repito: ensinar!

  4. Concordo em absoluto! Infelizmente as nossas diferenças são instrumentalizadas para nos dividir e não para nos fortalecer. O egoísmo prevalece e parece incrível que ainda muita gente não se apercebeu que as acções individualistas só agravam ainda mais a nossa condição. Faz falta ler a “Parábola dos sete vimes”, de Trindade Coelho.

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