Domingo

Ontem, uma romaria de dezenas e dezenas de governantes tomou posse aqui do pedaço, sob o olhar benevolente de um Presidente da República que de tanto desejar ser plebiscitado acima dos 90% sorri a tudo e mais alguma coisa, tudo perdoando até ao dia – a História talvez ensine – a seguir ao tal plebiscito. O governo que 2ª feira continuará a obra do anterior pouco tem de novo e o que tem de menos velho não aparenta grande coisa ou vagamente renovação. Sendo de continuidade, dificilmente poderei sentir qualquer comunhão de objectivos, sendo que há quatro anos ainda me iludi que não seriam apenas uma versão falsamente soft dos que os antecederam nos últimos 15 anos. Sim, talvez não exista agora alguém tão despudoradamente sem vergonha como o engenheiro, mas continuam a medrar quase todos os que ele elevou ou manteve no poder. Podem voar mais baixinho, não ir ao pote com tanta evidência, mas os canais continuam, menos esta ou aquela vara mais gananciosas, essencialmente os mesmos, assim como as prioridades, em especial as menos saudáveis. Nem um dedo se mexe contra os grande interesses privados que herdaram de mão beijada os monopólios públicos e cuida-se que a regulação só sirva mesmo para prateleira dourada de alguns, mantendo-se perfeitamente despojada de meios ou ineficácia. Existem formalmente entidades para que se possa dizer que existem. Reguladores que adorariam estar ao serviço dos regulados. Em matéria de Justiça, há muita coisa que quase acontece para além de algum aparato mediático. Há muitas críticas aos julgamentos na “praça pública”, mas isso só acontece porque a maioria dos restantes, quando a poderosos diz respeito, não passam de farsas a prescrever. As criaturas do pântano guterrista continuam praticamente incólumes e conseguiram cooptar parte da pseudo “esquerda radical” apenas com o doce aroma das periferias do poder e cedências em causas ditas civilizacionais. À direita, a deriva que nos levou insanamente além da troika, explica tanto o estado comatoso em que ficou depois do poder ter fugido e a estatura liliputiana das figurinhas que a disputam. como a legitimação que de forma repetida os actuais governantes apresentam para as suas políticas medíocres, pois podem sempre afirmar que os anteriores eram mesmo, mesmo muito maus.

Na segunda-feira voltamos a temos um país de que tomou posse há muito uma clique política que se reproduz nos mecanismos clientelares do nepotismo e que estabeleceu uma parceria com os principais grupos económicos que escolheu para entregar as poucas jóias semi-preciosas da República, confluindo na estratégia de produzir uma representação desfocada da realidade, conseguindo convencer muita gente que é bife kobe (ou seitan se a conversa for com o pan) a sola de sapato que lhe é servida na dieta diária de uma democracia formal.

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