Bom Senso, Lucidez

É aqui que entra o senso comum. O senso comum não está fechado em gabinetes a analisar estatísticas. O senso comum sabe que alunos de 12 anos, se puderem, preferem não estudar, porque a escola é uma seca. O senso comum intui que os encarregados de educação preocupam-se mais se tiverem medo que os seus filhos falhem. O senso comum pressente que os professores tenderão a relaxar, se tiverem de aprovar toda a gente. O senso comum baseia-se no conhecimento da natureza humana, que só reage a estímulos do tipo prémio versus penalização. É isto mesmo: ao contrário dos teóricos, o senso comum conhece a natureza humana.

Dando de barato que professores motivadíssimos e imbuídos do mesmo espírito missionário do senhor ministro estariam disponíveis para a tarefa. Que teriam tempo, disponibilidade mental, as circunstâncias e os meios para passarem ainda mais horas a ministrar ensino personalizado e a la carte a este e àquele aluno em dificuldades – e o conseguiria fazer sem negligenciar os restantes: pode a aprendizagem em idade escolar ser a única atividade humana que funciona sem o estímulo do chicote e da cenoura? Deve a escola ser um perpétuo recreio ou, pela exigência do esforço e do trabalho, é mesmo suposto que, de quando em vez, seja uma seca? Será que queremos formar cidadãos sem preparação para as muitas secas da vida futura? Aprender a lidar com o stresse (por causa de exames, por exemplo) não deve fazer parte da formação da criança?

Mas isto não é ainda o principal. O principal é saber se, de facto, alunos que não aprenderam o A, conseguem juntar A+B. A experiência pessoal de cada um de nós falará por si. E eu falo da minha. Eu era um excelente aluno de matemática, desde a aritmética da escola primária ao final do primeiro ciclo do meu tempo (5.º e 6.º anos de escolaridade). Mas ali algures entre o 7.º e o 8.º, perdi o fio à meada e não consegui acompanhar a matéria. Ainda assim, sem saber como, apanhei uma professora que passava toda a gente, soubesse ou não soubesse. Cheguei ao 9.º ano, e não só não consegui entrar na matéria – faltavam-me noções básicas -, como tomei a decisão de me livrar o mais rapidamente possível da disciplina, passando “cortado” a matemática e “fugindo” para Humanísticas. Poderia, é certo, como “aluno em dificuldades”, ter tido um “acompanhamento especial”, logo no 8.º ano. Mas, garanto que, aos 14 anos, se me dissessem que iria passar de qualquer modo, jamais me empenharia em aproveitar tal “acompanhamento”… O que devia mesmo era ter repetido a disciplina, no 8.º ano, uma e outra vez, até apreender as competências necessárias para progredir. Estaria, então, em condições de frequentar o 9.º ano, lutar, de novo, por ter aproveitamento e, quem sabe, construir um futuro nas ciências exatas. O facilitismo do 8.º ano, a minha “não retenção”, fez de mim um ignorante. O meu obrigado ao Tiago Brandão Rodrigues daquela escola.

Thumbs

7 thoughts on “Bom Senso, Lucidez

  1. Parece a minha história… só que no 7.º ano, antigo 3.º ano. Foi no ano lectivo de 74/75 e o engenheiro que nos leccionava Matemática leccionava mais anedotária… rsssssssss 😦

  2. Desconfio que se a humanidade só aprendesse com o chicote e a cenoura o FL não teria tido a possibilidade de escrever esse texto num computador.

  3. Nota introdutória: ao contrário do autor, segui as humanidades, ainda que até ao atual 9.º ano tenha tido a matemática como disciplina favorita e com melhor nota. Mas a vida deu outras voltas!
    Quanto ao tema, sinceramente, ainda não estou muito lúcido sobre a matéria – não sei se voto sim ou não ao fim das retenções. Por isso, procuro se alguém terá a ideia de propor que o barco siga o seu rumo, apenas com as ajudas mínimas para quem tenha de facto dificuldades, e, finalizado o ano, aí por fins de maio, que é bom tempo de flores e de primavera, se “obrigasse” os com mais dificuldades a continuarem o ano letivo mais um ou dois mesito, conforme as dificuldades… Já vi a ideia em qualquer lado, e talvez desse bons frutos. Se alguém sabe de onde e como esta ideia surgiu, diga-me, por favor! Obrigado.

    1. Jomiguelor,

      Peço desculpa antecipadamente.
      Eheheh !
      Mais um mesito ou dois ?
      Os cromos cheios de bronze e os escravos sem férias ?
      Nem os pais papavam esse sacrifício… perder as suas férias ?
      Tá bem, tá.

      1. Sem alíneas! Mas da maneira que estão as coisas, quando há reunião final, ainda falta bastante para agosto, já muitos professores ostentam o seu bronze e outros ainda com imenso trabalho pela frente, âs vezes até por agosto dentro. Teremos sempre bronzeados e escravos. Importa ver o que é melhor para a escola e para a sociedade. De resto, pelo que ouço e vejo, a escravatura é praticada pelos próprios colegas, uns contra os outros, incluindo à cabeça os Diretores… Mas isso são outro rebuçados.

    2. Essa ideia pratica-se nos Estados Unidos, pelo menos em alguns condados. Tive um familiar a quem isso aconteceu: Aqui esbarrá, fatalmente com custos, pois serão necessários mais transportes escolares, almoços etc, sem esquecer a vontade dos “beneficiários”, que, ao verem o restante “povo “de férias, estarão motivadíssimos para mais “aulas”, como, por hipótese, teriam estado ao longo do ano letivo.
      A minha experiência, mostrou-me ao tempo do Dr. Crato, que os alunos que obtiveram negativas nas provas globais, não apareceram para receber apoio com vista à realização da segunda “chamada”, pois os respetivos encarregados educação, no caso em apreço, assim decidiram, pois os “meninos” já estavam “passados”.
      É a vida: se eu conseguir os meus objetivos com menos esforço, para quê esforçar-me mais.
      O grave destes “sonhadores” é passarem toda a responsabilidade do sucesso ou insucesso dos alunos para os professores, ao mesmo tempo que parecem desresponsabilizar os alunos pelo seu sucesso.Estarei enganado?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.