Cada Vez Me Parecem Mais Uma Variante Da Cientologia

Refiro-me aos directores pipp’s, com um dos quais tive ontem um encontro imediato de primeiro grau. Repetem as mesmas coisas de há 25 anos (quando fizeram “estágio”) como se fossem novidade ou, em alternativa, dizem que nada mudou e parecem ter-lhes enfiado no corpinho uma sabedoria extrema acerca de como ouvir as crianças e perceber o que elas gostam, ao contrário da “escola” que destrói a criatividade e espírito crítico dos alunos. Elogiam de forma oportunista os professores, mas no fundo acham que sem a sua esclarecida liderança só “dariam aulas” de que os alunos não gostam e que não lhes servem para a vida. A visão pobre e mesmo medíocre de que na escola só se deve aprender o que é “útil” para a vida é o testemunho de que se quer alinhar por uma visão redutora da Educação, em especial para os alunos mais desfavorecidos.

Já agora, dois reparos acerca de duas declarações dos outros dois intervenientes no debate: não existe qualquer “consenso científico” acerca do efeito negativo das retenções, mesmo que seja “por si só” como o Alexandre H. Cristo ressalvou; o que existe é o acordo acerca de ser uma medida cara e é isso mesmo que diz a parte final do estudo que a presidente do CNE insistia em dizer afirmar o contrário do que eu citara. O que lá está é que a repetição de ano tem um efeito positivo estatisticamente baixo e que, por ter custos financeiros, se deve investir em medidas adicionais. Ou seja, o argumento para a não-retenção nesse estudo é de ordem puramente economicista.

(já agora, acho de uma enorme falta de coragem política colocarem-na sob os holofotes a defender, porque acredita mesmo nisso há 40 anos, e não se chegarem à frente os mentores actuais do novo anti-intelectualismo disfarçado de demagógica – e falsa – preocupação com os desfavorecidos…)

The results suggest that repeating the 4th grade increases students’ scores on the subsequent 6th grade national exams of Portuguese and Mathematics by 0.08 and 0.10 for the sample (on a scale of 1 to 5). For the sub-sample the impact of retention is not statistically significant. Also, students with no previous retentions obtain better scores on both exams; being a male or having a mother with a primary education level decreases the scores in Portuguese but does not affect the scores in Mathematics.

(…)

In summary, the main finding of this paper is that the impact of early retention is either not statistically significant or of a small positive magnitude. Taking into account the high costs of maintaining students in school for one extra year, the small benefit from retention we obtained suggests that repetition is an ineffective tool to deal with under-achievement at early stages. Thus it would be interesting to implement experiments to evaluate and compare the impact of alternative measures to promote the success of low-achieving students, such as extra hours of teacher support, mentoring, summer schools, and preferential assignment to high performing teachers. These results are especially important for countries with high retention rates that are considering alternative educational policies to promote students’ success.

No estudo do Banco de Portugal, as conclusões sobre os efeitos da retenção, em especial no 2º e 3º ciclo, são similares:

The effects of short-term repetition at ISCED 2 in Portugal are positive albeit small. Therefore, despite the uncertainty about the long-term effects, our results do not call into question the practice of retention for higher levels of schooling. In addition, there is an alignment between selection for treatment and treatment benefits, both in regard to observable and unobservable characteristics of students.

Ou seja, as retenções podem traduzir-se em melhorias, desde que sejam colocadas em práticas as adequadas medidas compensatórias. Há quem diga que não funcionam, mas se calhar é porque são encaradas como remendos e não são levadas muito a sério, como aquela de 45 minutos de tutoria para meia dúzia de alunos ao molho.

É isto uma defesa pura e dura da prática da retenção? Não, é a defesa pura e dura da liberdade dos professores fazerem o seu trabalho e não serem obrigados por teses pipis a transitar todos os alunos, só porque alguém ainda ficou agarrado às sebentas do “estágio” dos anos 90 do século passado. Seria bom ideia que desencravassem do vosso oásis mental em que aos alunos só se deve dar o que faz falta à sua vida quotidiana. Como respondi a quem isso afirmou, “ainda bem” que aprendemos muita coisa que pode parecer pouco útil a curto prazo. Eu aprendi coisas sobre os planetas e o sistema solar e não fui para astronauta. Gostei muito de saber como funcionam as placas tectónicas ou se desenvolvem as plantas e, num sentido restrito, isso não tem qualquer interesse evidente para a minha vida quotidiana. Como para a maioria das pessoas não terá saber como se desenvolveu o espírito crítico e científico a partir do Renascimento e o que levou a que um homem como Leonardo da Vinci imaginasse, desenhasse e planeasse imensas coisas que não tinha meios para concretizar.

Mas seremos pessoas menos completas se optarmos por um currículo do que apenas “agrada”, do que apenas é “fácil de entender”, do que é “útil”. Se apenas aprendermos o que precisamos para o dia a dia a Humanidade estupidifica e estagna. É esse o grande plano para a Educação do século XXI da nova clique de líderes educacionais? Porque se parece muito com o contrário do que afirmam acerca da criação de cidadãos críticos e interventivos. Pela forma como agem e falam, espírito crítico e informado é do que menos gostam.

Seita1

(o meu tio-avô Mário, sapateiro, e o meu pai, operário,  adoravam poesia… e não era a das quadras populares… o que raio lhes adiantava isso para a sua vida na perspectiva destes senhores? quase toda a poesia que tenho pelas estantes, herdei-a dele porque já eu, bárbaro, sou bem limitado em termos de poética)

23 thoughts on “Cada Vez Me Parecem Mais Uma Variante Da Cientologia

  1. O que me parece evidente é que, as doutas opiniões de quem está fora do contexto da Escola, embora sejam professores, é que os alunos do secundários, sobretudo os que não entram nas Escolas Superiores de Oxford, Cambridge ou outras do tipo e que ficam ou ficaram pelas Escolas Públicas Portuguesas, Universidades ou Politécnicos, não sabem coisas básicas como seja ler e escrever. Alguns dizem mesmo que estão habituados a ver o Youtube e por isso não lhes interessa ler. Se chegam assim ao Ensino Superior como é se ficarem com o 9º ou 12º. Para conduzir não é preciso conhecer a História de Portugal, muito menos o que são equações. Para que servem as equações. Mesmo saber a tabuada para quê? Isso é do século passado! Já nem é preciso usar régua de cálculo, nem mesmo máquina de calcular. Qualquer telemóvel tem calculadora!!
    Para que serve a progressão por competência? Não é preciso desde que se esteja numa rede!! A rede coloca-nos num qualquer lugar a ganhar bem. Não é preciso saber mais do que falar e falar, se possível razoavelemente bem. E não ter descaramento!
    Obrigado Paulo!

  2. Em relação a esta última parte do teu texto, o grande problema do pessoal que quer ensinar/aprender apenas o útil é esquecerem-se de que o que é útil para uns pode não ser útil para outros e que o que é útil hoje pode já não o ser amanhã.

    Não cabe à escola ensinar as coisinhas de que os meninos precisam para desempenharem as suas funções/empregos particulares. Essa formação terá de ser dada pelas empresas, consoante as suas necessidades.
    Da mesma maneira, num mundo em transformação cada vez mais rápida, o que hoje são conhecimentos e práticas válidas, amanhã estarão perfeitamente desactualizados (mais uma vez, compete às empresas dar a formação).

    Aquilo de que os meninos precisam é de cultura e de conhecer o funcionamento mais ou menos geral das coisas, conforme os níveis de ensino, de onde possam deduzir as soluções para os diferentes problemas que apareçam durante e nos mais diversos aspectos a vida, e onde assente a formação que lhes for ministrada para executarem as suas tarefas específicas.

  3. Irrita profundamente ouvir falar em espírito crítico e criativo!??? Como se desenvolve isso sem conhecimentos? É o espírito crítico das redes sociais!? Não há nada pior que um ignorante a debitar ideias precipitadas, bacocas ou arrogantes, convencido que está de posse da verdade! Aquele diretor que não soube apontar uma estratégia para diminuir o insucesso é uma fraude.

  4. Paulo Guinote boa intervenção televisiva.
    Agora é pena os pais e os opinion makers das TV’s não se indignem e até dizerem o contrário.

    Os diretores neste momento são papagaios e lambe botas do governo.

  5. “A Humanidade estupidifica e estagna”. Parece-me, infelizmente, ser esse o desígnio destas políticas da educação… serão “gerações manipuláveis” que é o que interessa para serem “escravizados”.
    😪

  6. Estou no ensino público (sec e 3.ºciclo) há já 30 anos e nunca vi um aluno que transitou de ano com um elevado n.º de negativas no final do ano letivo (que, algumas delas, passam a positivas através de uma votação nesse sentido dos docentes no CT – a Lei assim o permite) a tornar-se um aluno com os conhecimentos e competências que lhe permitam ter sucesso escolar no seu futuro. Agora, já testemunhei alunos (poucos) que, após a retenção, tornaram-se excelentes alunos.
    No modelo atual da escola, não tenho dúvidas que, globalmente, a retenção deve fazer parte da falta de mérito desse discente. Mais, a transição sem mérito não traz qualquer benefício ao aluno em questão pois permite-lhe considerar que não é necessário qualquer tipo de esforço e trabalho para continuar a poder transitar como dá um sinal negativo a todos os seus colegas que não precisam de trabalhar e obter resultados positivos para poderem transitar de ano letivo. É assim que os preparamos para a vida ativa na nossa sociedade global competitiva?
    Agora, concordo que o modelo atual do ensino regular, com as suas retenções, está longe de ser ideal. Devia haver alguns momentos de articulação (com avaliação) durante o ano letivo (exemplo: percentagem (em assuntos concretos – IVA, comissões, outros Identicadores – entre Mat, TIC, GEO, FQ, CN, EV) como os alunos retidos tenham apoio obrigatório como deve ser (nesta situação, os pais não poderiam isentar os seus filhos de frequentar as aulas de reforço e APAs).
    Devíamos ser criativos, originais e flexíveis como, por exemplo, ser permitido aos alunos “retidos” poderem frequentar, no próximo ano letivo, as disciplinas que tiveram avaliação positiva com os restantes colegas que transitaram de ano e frequentarem a algumas disciplinas que estiveram na base da sua retenção (Mat e Port, por exemplo) no mesmo nível de escolaridade. etc.
    Devia haver mais que uma via regular de ensino, a partir do 7.º ano, que os alunos pudessem escolher (exemplo, artes).
    Agora, que ninguém tenha dúvidas, a implementação da não retenção pelo nosso governo é somente uma medida economicista – e que é também, ideológicamente, do agrado da nossa esquerda partidária – vai destruir a ainda alguma qualidade atual do ensino público e vocacionando-o para quem não pode pagar a inscrição dos seus filhos no bom ensino privado (que não se pauta por estas tretas psicológicas e pedagógicas), e, dessa forma, aumentando o fosso social neste país como, -pior – diminuindo fortemente a sua possibilidade futura de elevação social.

  7. O Paulo teve ontem a intervenção possível. A que o deixaram ter, num contexto em que o pensamento dominante (não necessariamente maioritário) é delirante. Esteve (quase) só, contra as ideias “inovadoras” do director que tinha um discurso datado e rápida e facilmente desmontável.
    Mas o PG esteve bem, claro!
    O AHC surpreendeu-me positivamente, particularmente na parte final.
    A MEBS, além de sorrir muito, não percebi se o que disse teve alguma relevância…

  8. Paulo : espantoso o teu post !
    Traduz de forma super fiel o debate de ontem.
    Lá no fundo … o tema em questão acabou por nem ser debatido de forma consistente. Aquilo ,foi sim uma feira de demagogia e de vaidades. Mandavam ( os 3 cromos ) uns palpites ,uns números que depois concluíam não poder ser comparáveis …
    E boicotaram – te de forma intencional. Fiquei com essa impressão /certeza. Estiveste muito bem nas intervenções que te deixaram fazer.
    Nota final : as referências finais ao teu tio Avô e ao teu Pai são muito bonitas .
    Foi fechar com chave de ouro !
    Novos parabéns,Paulo !
    Que tanto mereces !

  9. “Eu sinto-me como a Alice no País das Maravilhas, com coelhinhos a pular à minha volta. Ou então, devo ser completamente louco.”
    AHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHHHAAHHAHAHAHAHAH!
    Chama-se a isto, entrar a matar!

      1. Claro que, não tendo tu tido mais que 10 ou 12 minutos para falar, muita coisa ficou por dizer. Por exemplo, gostava que os teóricos fofinhos da educação percebessem que o que conta verdadeiramente não é a retenção mas sim a ameaça de retenção. Se a ameaça não existir, o que farão os alunos que habitualmente pouco ou nada querem fazer? Eu não tenho uma resposta definitiva para isto, mas suponho que as coisas podiam complicar-se bastante… AHC usa as estatísticas da DGEEC como suporte para as conclusões que tira (e que eu até nem o ponho especialmente em causa. Como ele diz, a retenção, por si só, talvez não sirva de muito, mas, digo eu, a transição sem aprendizagem também não…). Talvez valesse a pena consultar (não sei se as há) estatísticas sobre a evolução da situação dos alunos ao longo de um ano letivo, com quantas classificações negativas começam e com quantas acabam, para se perceber melhor o tal efeito da ameaça de retenção (se bem que seja difícil separar isso do efeito do facilitismo de subir notas artificialmente só para o aluno não ficar retido…).
        Além disso, Quando o mesmo AHC referiu a muito baixa taxa de retenções em alguns países (nórdicos e de leste), seria interessante saber se existe alguma correlação entre este facto e os métodos de ensino (aida posso usar esta expressão?) utilizados no Agrupamento de Água Boa. Funcionarão as aulas na Finlândia, na Dinamarca, na Bulgária ou na Roménia de uma forma semelhante ao que acontece nesse exemplar Agrupamente, ou de uma forma tão retrógrada como na minha escola e na maioria des escolas do nosso país? Eu não conheço a realidade nesses países, portanto, arrisco-me a errar, mas estou convencido que os alunos lá também se sentam como os meus, ora a ouvir-me, ora a serem ouvidos por mim e pelo outros, ora a ouvirem-se uns aos outros ora a analizarem e refletirem sobre o que escrevo ou desenho, ora sobre o que está escrito no manual ou nas fichas, ora sobre o que vêm projetado em formato mais dinâmico ou mais estático, ora sobre o que existe na sala ou algures ali à volta… Enfim, estou convencido que as escolas deles se parecem com as nossas escolas reais e não com modelos que nos querem fazer crer que correspondem à invenção da roda…
        Parece-me que o que é relevante para as aprendizagen, para além de opções políticas e da qualidade do trabalho das escolas, são aspectos que se prendem sobretudo, mais até do que com a realidade sócio económica, com a realidade historico cultural dos povos. Nórdicos e de Leste versus Europa do sul. P0vos que, por boas ou más razões, valorizam muito o papel da escola versus povos que não o valorizam ou valorizam pouco.

  10. Parabéns pela sua prestação! Adorei quando confrontou o diretor com o atestado de menoridade que estava a passar ao corpo docente! No agrupamento dele, deve ter feito primeiro a domesticação d@s professor@s para depois, sem chicote, aplicar o seu pipp(i)!
    Não desgostei da prestação de AHC.

  11. Questiono-me, como é que um cromo como Nuno Manta vai a um encontro destes?
    Para além de ignorante, não se enxerga… para não dizer outras coisas.
    O Paulo marcou a diferença, mas é um desgaste tamanho. A propósito lembro-me sempre da Helena Damião que dizia, “contrapor argumentos de princípio e científicos a dogmas políticos e ideológicos implica sempre um grande esforço, que é proporcional à sua inutilidade”. Espero bem que não.

  12. Não percebo! Depois do fracasso da pedagogia não diretiva, que gerou mais inadaptados do que gente realizada, como é possível continuar a andar à volta destas questões novamente!

    Os professores que mais me marcaram foram os que me abriram novas janelas para o mundo, os que não me abandonaram na estreiteza dos meus desejos e vontades de criança e jovem! Claro que, por vezes resisti, era difícil, mas estou-lhes profundamente grata por me terem forçado, por me terem exigido, por me terem ajudado a superar-me e a prepara-me para as dificuldades da vida.Como dizia Pitágoras de Samos, “Educar não é dar uma carreira para viver,mas temperar a alma para as dificuldades da vida.”

    Às vezes pergunto-me se não andará por aí um génio maligno a querer, com recurso à ignorância disfarçada de liberdade, montar uma “fábrica legal de novos escravos”… É que, ainda que não podendo concordar totalmente com Victor Hugo, porque a genética e neurociências não mo permitem, reconheço que, em parte, tem razão quando defende que “Não há más ervas, nem homens maus. Só há maus cultivadores”!

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