“Crónica Dos Domingos Felizes” – 2

Publico a segunda crónica dominical do professor João Tiago Eumesmo Feliz dos Santos que eu arriscaria classificar como ligeiramente longa.

Gostaria de começar esta crónica por me congratular com o impacto da colaboração da passada semana que já despertou consciências e deu coragem a outras pessoas para assumirem sem receio a sua adesão às novas políticas educativas em desenvolvimento no nosso país. Refiro-me, por exemplo, ao contributo da colega Maria da Felicidade Santos, com a qual partilho o apelido mas não o laço familiar. É deste tipo de rede de contactos, afinidades e ouso mesmo dizer de afetos que se pode fazer uma comunidade educativa global à escala nacional que consiga impulsionar ainda mais esta mudança de paradigma que há muito esperamos.

Também apreciei muito as intervenções do senhor diretor que esteve na 6ª feira à noite no programa da Sic Notícias e que demonstrou de forma clara e cabal como o trabalho do professor deve ser reconfigurado, bem como a noção desajustada que temos de sala de aula como sendo ainda um local e um tempo de transmissão de conhecimentos espartilhados e não de construção de saberes integrais, motivados pela natural curiosidade dos alunos que devem ser a força motriz das atividades a desenvolver, tendo o docente o papel de facilitador de aprendizagens significativas para a vida futura do aluno ou aluna, não sendo de maneira alguma útil uma dispersão de conteúdos sem uma adequação às necessidades do quotidiano. Gostei em especial da analogia entre a sala de aula e um paralelopípedo e a forma como se devem basear no concreto as noções transmitidas.

A única falha que aponto ao seu raciocínio foi a falta, certamente por carência de tempo e devido às inoportunas interrupções que sofreu enquanto tentava de forma magistral apresentar conceitos que nem sempre são facilmente perceptíveis por quem se anquilosou em conceções ultrapassadas de uma pedagogia formal e diretiva, foi a falta, ia eu escrevendo, de uma abordagem do método holístico que devemos adotar para considerar o aluno como um indivíduo único e integral, assim como o próprio processo de considerar – vou afastar-me de terminologias em acelerado desuso nas escolas mais inovadoras como “avaliar” ou “classificar” – o progresso das suas aprendizagens significativas.

A conceção holística do indivíduo-aluno ensina-nos que não o podemos encarar de forma parcial ou atomizada mas sim como um sujeito total aprendente, sendo missão única e maior do professor respeitar essa individualidade nas suas inclinações e pontos focais de interesse, de modo a que mais do que centrar-se num processo de ensinagem se preocupe com o desenvolvimento pessoal pleno do ser que se encontra perante si nas particularidades que fazem dele um todo singular, não lhe impondo constrangimentos externos ou espartilhos artificiais como os decorrentes do currículo tradicional, segmentado em saberes disciplinares desarticulados.

O trabalho colaborativo de projeto deve desenvolver-se em diversos planos, desde a simbiose que naturalmente se estabelece no “espaço-sala” (na falta de um conceito mais ajustado) entre as crianças e jovens ansiosas por expressarem a sua criatividade natural e a cooperação essencial entre os docentes que constituem o chamado Conselho de Turma, neste caso no sentido da combinação transversal dos seus saberes de origem, numa recombinação original e apelativa, assim como na definição de estratégias de monitorização dos progressos feitos pelos alunos e de registo das competências desenvolvidas de acordo com o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, referencial nuclear para o trabalho pedagógico do século XXI.

A abordagem holística implica ainda que qualquer “avaliação” seja sempre formativa e nunca classificativa, valorizando o todo e nunca as partes, pelo que se devem evitar sistemas selectivos ou hierarquizadores do desempenho dos indivíduos, pois todos deram certamente o seu melhor, pelo que se deve limitar o Conselho de Turma a emitir um parecer qualitativo no final de cada reunião mensal a transmitir aos encarregados de educação, mas sempre numa perspectiva de positividade e estímulo. Esse parecer deve ser coordenado pelo professor titular da turma ou diretor de turma, como já é feito nas escolas com estratégias dialógicas permanentes como a que a senhora diretora do meu agrupamento fez adotar em Conselho Pedagógico e transmitiu em formação obrigatória semanal  a todo o pessoal docente desde o início do ano letivo, estando prevista uma sessão final para a pausa do natal com a presença muito esperada do senhor secretário de Estado ou, se ele não estiver disponível, de outra personalidade que ele considere por bem designar. Pessoalmente, como já afirmei anteriormente, gostaria muito que pudesse ser a doutora Ariana, pois queria me autografasse o seu livro, ou então aquela senhora doutora de que me escapa agora o nome e que percebe muito de inclusão e que costuma fazer excelentes conferências.

Em termos pessoais, já fiz a proposta que, quando esta formação terminar, se siga uma outra em Coaching e Mentoring para Docentes, se possível com uma componente em Meditação e Mindfulness. Porque há muita gente tensa em meu redor e a negatividade que transmitem é muito tóxica e baixa a produtividade do trabalho da grande família que todos devemos ser.

Alonguei-me mais uma vez, mas estas são problemáticas que me entusiasmam e poderia estar aqui horas a escrever. Fica muita coisa para próximas crónicas, não temam pela falta de assuntos.

João Tiago dos Santos

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13 thoughts on ““Crónica Dos Domingos Felizes” – 2

  1. Não há nada como começar um domingo a ler uma boa narrativa :)… gostei especialmente da referência à “formal magistral” (ou “not”, como diriam os alunos…)

  2. Isto está demasiadamente bom.
    Temo que alguém na 5 de outubro (ou lá o que é…) não perceba a ironia da coisa, adopte, com citação e tudo, algumas das propostas apresentadas e se congratule e passe a citar os entusiasmos expressos.

    Já vivi, há anos atrás, isto tudo e banzo com o facto de haver ainda alguns colegas mais entusiasmados…
    Estarão sinceramente entusiasmados ou a vida é que é difícil cum’ó camandru?

  3. Excelente crónica, um bálsamo para os professores do século XXI, imbuídos da missão de fazer desabrochar espontaneamente o saber fazer, com competências globais e holísticas, integradoras da visão humanista do Homem do futuro: competente, flexível, solidário… Bravo, bravo!

  4. Espantoso !!!!
    Um tratado mesmo.
    Grande Paulo !!!
    O “inovador “diretor (do paleio estragado e já com barbas brancas ) ao ler irá miar , ladrar, ganir, zurrar, etc.
    Aposto no gozo que vais proporcionar a todos os desgraçados dos nossos colegas , que tiveram o azar de lá ir parar. Eu próprio fartei – me de rir e gozar o prato.
    Parabéns, Paulo.

    Nota final : há que fazer uma dieta ! Ou foi a camisa que encolheu ?

  5. Quando um dia os historiadores da educação estudarem estes anos negros por que passamos e se cruzarem com textos como estes concluirão que um grupo de docentes ainda tentou resistir à calamidade. Obrigado, Paulo, por aligeirares o desgaste do nosso presente e tornares menos fastidioso o trabalho dos teus sucessores da investigação académica.

  6. Será que ainda virão a existir historiadores da educação? Pelo andar da carruagem, como só se formarão em função das necessidades, só teremos empregados de mesa e de quartos. Nada que com uma flexibilidade não se atinja.

  7. Parabéns. Se conseguir transportar este “registo” para uma próxima sessão televisiva pode ser que tenha um impacto reconfigurador, admitindo que isso é possível, nos “reconfiguradores” de serviço.

  8. Não te pões a pau e estes textos vão constituir o preâmbulo do DL 69/2019, (aquele que vai substituir o 54, o 55, o da autonomia e avaliação e os outros todos… de forma integrada, harmoniosa e holística quanto baste, claro!).

  9. Eu gostaria mesmo, sem ironia, que os meus alunos fossem “crianças e jovens ansiosas por expressarem a sua criatividade natural”. Uma grande parte dos meus alunos não manifesta qualquer curiosidade pelos conteúdos nem vontade de fazer nada.
    Estas crónicas divinalmente positivas fazem-me rir, por um lado e deixam-me apreensiva, por outro, já que me sinto completamente incapaz de atingir o paraíso apresentado.
    Venham as crónicas “negativas” do Paulo Guinote para me fazerem sentir uma pessoa real e normal!

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