Demagogia Sonsa Em Três Frases

Afirma o SE Costa a abrir o boletim Noesis deste mês:

Um sistema de saúde deve ter como objetivo a prevenção de todas as doenças.
Um sistema de segurança deve ter como objetivo a erradicação de todos os crimes.
Será assim tão estranho que um sistema educativo tenha como objetivo a erradicação do insucesso?

Não, não é estranho, embora eu pensasse que o objectivo central seria a constante melhoria da aprendizagem dos alunos o que podemos definir como “sucesso”, mas não necessariamente como ausência de retenções.

Mas o que é mais demagógico é que:

  • No sistema de saúde não se culpam os enfermeiros e médicos se os doentes não curarem as doenças por não cumprirem as prescrições ou se voltarem a ficar doentes devido a comportamentos inadequados. E a maior parte dos doentes nas urgências são de condição socio-económica mais desfavorecida.
  • No sistema de segurança – embora exista momentos em que há quem entre nesse caminho – não se culpam os polícias pela reincidência de actos criminosos ou se os proíbe de prender quem os pratica (bem… aqui até há quem ache que…). E a maior parte dos criminosos presos são de condição socio-económica mais desfavorecida.
  • Já agora, no sistema de justiça acusam-se os juízes pela reincidência de réus condenados e aconselha-se que os crimes fiquem por punir (não falo, claro, daqueles que nasceram para serem arquivados), em especial os daqueles que são de condição socio-económica mais desfavorecida.

No caso da Educação, os primeiros suspeitos pelo insucesso são os professores, em especial os não-pipis ou aqueles que não amocham perante a cartilha da desresponsabilização da sociedade envolvente pelo combate às desigualdades ou dos alunos pelo seu desempenho ou da demagogia sonsa do SE Costa.

Porque é disso que se trata: de pura e sonsa demagogia que promete o mais fácil e populista, como se quem insiste em apontar falhas à prática fossem apenas pessoas sem princípios, sensibilidade ou sem o maior respeito pelos alunos que fazem o melhor que sabem e conseguem. Pelo contrário, é o respeito pelos alunos e por não os mistificar com um sucesso de pacotilha, fabricado em laboratório, que faz com que ainda há quem resista a estas investidas a transbordar de infernais boas intenções.

Que pena o SE Costa não aplicar toda a beleza dos seus princípios de justiça social e a sua subtileza retórica na crítica ao modelo de legislação laboral que afasta as famílias dos seus educandos, de um modelo de proto-desenvolvimento económico que mantém Portugal com um dos maiores níveis de pobreza e desigualdade social da UE ou da regra do trabalho precário com baixos salários como factor de “competitividade”.

Quanto anos de governo e a esse nível só desabafos assim como que se fossem em privado para centeno não ouvir. Não chega e revela falta de coragem política.

Porque a Escola e a Educação podem muito, mas não podem tudo. E é tudo o que lhes é pedido por alguns. Que, como uma certa antecessora, apostam tudo na conquista da “opinião pública”.

JCosta1

O Expresso De Sexta Quase À Meia Noite

Onde se podem tirar dúvidas sobre o que foi dito efectivamente. E onde, como disse quando recebi o inesperado convite, iria estar quase sempre numa proporção de 1 para 3. Mas antes isso do que todos a empurrar para o lado da demagogia.

Do ME ninguém aceitou ir, deixando de forma pouco corajosa para a presidente do CNE o ónus de defender o que outros assumem apenas pela metade; já a recusa do ex-presidente do CNE, David Justino, se compreende à luz do que ele defende e do que foi a intervenção do líder do seu partido no Parlamento. Ou foram só mesmo questões de agenda, claro.

Redução dos chumbos escolares

ExpMeiaNoite

A Minha “Imaginação Sociológica” – 2

Dou continuidade, com atraso, aos meus seminais (pré?) conceitos que alguém considerou serem de “imaginação sociológica”, embora pareçam ter gostado da ideia e já reclamem, de forma equivalente, práticas imaginativas em outras áreas. Talvez o mais provocatório e inovador seja o de “Corte Inclusiva“, pois corresponde a um fenómeno que é mais recente e entrou na nossa realidade quotidiana já depois da elaboração dos grandes manuais de sociologia do século XX e ainda nos faltam referenciais dignos desse nome no século XXI.

Como é do conhecimento geral, o documento fundador de diversas tendências relacionadas com a defesa dos direitos das crianças e jovens com problemas de aprendizagem ou (como foi possível designar até 2018) “necessidades educativas especiais” foi a Declaração de Salamanca de 1994 que, como todos os textos sagrados da Humanidade, fundou una Fé mas, em simultâneo, conduziu a diferentes teologias exegéticas que nem sempre conseguiram conviver muito bem entre si, para além de despertarem o natural ímpeto para lutarem com denodo e muito arreganho pelo acesso ao Poder para melhor conseguirem impor as suas concepções interpretativas do Verbo Inclusivo.

O que significa à luz do conceito já analisado de Círculo Interno do Poder que a “Corte Inclusiva” é uma espécie de subconjunto seu, logo que os representantes da facção inclusiva dominante num dado contexto histórico-político conseguem aceder a tal posição. Não se deve confundir em nenhum momento “Corte Inclusiva” com “Educação Inclusiva” porque enquanto esta é plural e integradora, aquela é restritiva e exclusora na sua práxis. Podemos ser crentes e praticantes da “Educação Inclusiva” mas ser proscritos pela “Corte Inclusiva”, porque o estatuto de “cortesão” depende da adesão, sem reservas, aos seus dogmas particulares sobre o que é (ou não) a “Inclusão”. Não é raro o recurso nos textos de alguns dos mais destacados cortesão inclusivos o uso de binómios como “nós/eles”, “cá/lá”, “dentro/fora” ou a associação de qualidades positivas negativas aos indivíduos conforme o seu alinhamento com a Corte e as suas interpretações dos textos, em especial normativos, que, ao longo dos tempos, traduziram as verdadeiras intenções do documento fundador.

Tomemos com base este excerto:

” – as crianças e jovens com necessidades educativas especiais devem ter acesso às escolas regulares, que a elas se devem adequar através duma pedagogia centrada na criança, capaz de ir ao encontro destas necessidades,
 – as escolas regulares, seguindo esta orientação inclusiva, constituem os meios capazes para combater as atitudes discriminatórias, criando comunidades abertas e solidárias, construindo uma sociedade inclusiva e atingindo a educação para todos; além disso, proporcionam uma educação adequada à maioria das crianças e promovem a eficiência, numa óptima relação custo-qualidade, de todo o sistema educativo.”

A parte final desta passagem – sim, a declaração de Salamanca já era “centeno” e preocupava-se certamente com a finitude dos recursos dos contribuintes mesmo quando ainda se podia fazer moeda sem as restrições do euro – tem servido para práticas menos sensíveis às preocupações pedagógicas inclusivas, propriamente ditas, do que à referida “optimização” da “relação custo-qualidade” do que se faz passar como “Educação Inclusiva”. Tem sido grande a preocupação em detectar necessidades de “formação” que em regra é aplicada quase exclusivamente por membros da tal “Corte Inclusiva” associada à produção dos normativos legais de que pretendem fornecer a única interpretação legítima, em vez de serem produzidos diplomas claros e materiais pelo ministério da Educação com indicações sobre o que deve/pode ser feito e quais as margens de “autonomia” de escolas e professores.

Se algo corre menos bem, não há que enganar… não foi falha legislativa e muito menos da formação, mas sim de quem não percebeu a infalibilidade da coisa e necessita de mais formação por parte dos cortesãos inclusivos.

O esquema de funcionamento é como se segue (e também se aplica à “flexibilidade curricular” pois, afinal, os 54’s e 55’s são gémeos):

Esquema Inclusivo

 

Resta esclarecer que ao poder político os cortesãos inclusivos são muito úteis e tanto mais quanto se sentirem “pais” do Modelo Único de Inclusão (conceito a definir em outro verbete) e ao mesmo tempo os seus apóstolos, funcionando como reforçada muralha d’aço contra a barbárie dos professores ou outras criaturas não imbuídas do verdadeiro espírito inclusivo.

2ª Feira

Numa perspectiva de Escola Inclusiva, Flexível, Inovadora e tudo isso, até que horas é admissível – se não é admissível sempre – que os alunos se espreguicem longamente de braços esticados e boca muito escancarada por se terem deitado (ou adormecido) tardíssimo por terem estado a jogar online ou em outra actividade gostosa?

É que não aprendi isso no estágio.

espreguiçar2