3ª Feira

Sim, hoje voltei a fazer algo que não acontecia há muito. Não sei dizer se foi algo mais do que o costume, se foi aquela pequena gota que faz a água transbordar do copo, se foi uma espécie de statement para o resto do ano. Mas parei uma aula, após ser sucessivamente interrompido por m€rdinh@s sortidas enquanto procurava iniciar um raciocínio sobre o que estava projectado – de forma muito moderna – na tela e que teria a seguir muitas coisas animadas e interactivas. Após um curto, sonoro e expressivo “desabafo” acerca do sentido da vida escolar (foi pouco tempo, garanto), achei por bem que os últimos 30 minutos fossem deixados aos alunos para que fizessem o que bem entendessem, naquela base da liberdade para descobrirem sozinhos o conhecimento e desenvolverem competências. Pareceram algo aturdidos com tamanha liberdade pedagógica. Estranhamente, ou não, foram os 30 minutos mais silenciosos (quiçá por estupefacção) até ao momento do ano lectivo. Até aos 10, ainda pensaram que seria daquelas vezes em que, depois de resmungar, um tipo recomeça pela enésima vez a explicar porque o humanismo e o antropocentrismo estão na base da civilização moderna (era uma aula sobre o Renascimento, tinha a seguir coisas giras do Leonardo e não só, mas nada com interesse para a vida futura dos alunos claro, em especial se gostarem da ignorância como métrica vivencial); aos 20 minutos já tinham percebido pelo sorriso irónico que desta vez era mesmo a sério. Ao fim da meia hora, saíram cabisbaixos, parecendo ter percebido que para os professores as aulas também podem ser uma “seca” e que fácil é um tipo não se chatear e passá-los a todos, pois nem carece de justificação ou verificação. E ainda eram 10 da manhã. O resto do dia correu com uma leveza tal, que quase me senti premiado como o pior professor do ano pelo comité dos directores-pipis.

Onde andam as arianas, os rodrigues e os costas quando ocasionalmente precisamos deles para nos ensinarem como fazer “mais” e/ou “melhor”, estabelecer um “compromisso de aprendizagem” ou um “contrato educativo”?

Haddock

(sim, sou mesmo professor dos que dão aulas, como respondi ao Ricardo Costa que de tanto ver quem não dá aulas há décadas a discutir Educação, até estava admirado; e assumo os meus estados d’alma sem confettis e perlimpimpims)

 

9 thoughts on “3ª Feira

  1. Eheheh,
    Se o Sr .director que bebe águas santas ( Água Santa só há uma a do Alardo e mais nenhuma ) filmava – te , bem escondidinho e … não se calaria.
    Eu entendo – te tão bem.
    E os teus alunos ainda melhor !
    E isso é que importa .

      1. Z. Magalhães, mais vale tarde do que nunca! Fazer pensar para trás, ensinar a pensar para trás, é uma forma de activar neurónios e de activar conhecimentos, conteúdos, coisas arrumadas em prateleiras … nunca usadas. Assim sendo, um bom professor, vem sempre a tempo.

  2. “Onde andam as arianas, os rodrigues e os costas …”
    – onde sempre andaram: nos gabinetezinhos, nas escolas superiores da educação, a pertencerem a comissões inúteis, a elaborarem estudos pseudocientíficos (só lhes falta a parte científica), a darem umas aulitas tradicionais no superior…
    Factualmente tudo isto é muito antigo e os portugueses conhecem-no bem …e mais uma vez:”Olhem para o que digo e não para o que faço”

    1. O Zarolho diz ( bem… ele é meio destravado da língua…) que as escolas s. de educação deviam ser fechadas… (pasme-se…) com urgência!
      Ele lá saberá porquê!

  3. De acordo com doutrina, o problema estava no método de ensino. E depois há malta discente que fica chateada pela aprendizagem ser centrada em si, que chatice, aprender pela descoberta, quando o prof não diz onde está e não dá já feito…
    Pois é, o imenso mundo do lúdico e entretenimento, que vagueia no bolso de cada adolescente, tem mais força que aquelas coisas da cultura e do conhecimento, que só presta se for lúdico e entretém…

  4. Cada ano que passa, e já lá vão 20, é pior. Esses profetas da evangelização da educação nunca conseguiram ensinar alguma coisa, pois não vivem a REALIDADE DA EDUCAÇÃO que, a cada mandato governamental, vai sendo assassinada. Somos nós que temos a árdua missão de credibilizar o que, há muito, não tem crédito. Revi-me.

  5. Adorei! Depois de um dia negro de escola precisava mesmo deste momento de ironia fina! Fiquei bem disposto. Obrigado Paulo pela inteligência acutilante. Já há pouco disto por aí. É que são tão pobres de espírito que nem percebem! É aflitivo. O nível está cada vez mais baixo.

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