Da Teoria Ao “Saber Fazer”

Um dos conteúdos que mais me agrada no programa de Português do 2º ciclo é, como seria de esperar, a banda desenhada. Gosto de abordar a teoria da coisa, de explicar a sua originalidade e variantes. Como começar de esquemas simples e os ir complexificando, além dos tios patinhas ou mesmo dos agora populares manga. Uso o Stripgenerator para eles começarem a treinar com um leque de objectos e figuras pré-definidas (a queixa habitual é “não sei desenhar”) e depois forneço-lhes pranchas com diversos formatos, dando-lhes alguns temas para eles desenvolverem e irem-me entregando à medida que terminem, sem um prazo definido. Há sempre um pouco de tudo. Há sempre quem arrisque, sem medo que o professor lhes destrua a criatividade. Se quiserem, podem construir os seus formatos.

E é por aqui que eu muitas vezes entro em choque com as concepções da criatividade nascida do nada. Neste caso, a “competência”, o “saber fazer” vem depois do conhecimento dos elementos básicos das técnicas. Claro que poderia brotar qualquer coisa da folha branca e eu até teria menos “trabalho”, pois em vez de explicar os formatos das vinhetas, das tiras, dos balões, das onomatopeias, bastaria ser o “facilitador” da rabisquice. Mas parece que até o Picasso, o Mondrian ou o Pollock aprenderam a desenhar antes de revolucionarem a arte contemporânea.

5 thoughts on “Da Teoria Ao “Saber Fazer”

  1. Plenamente de acordo! Quem bota discursos sobre estas balelas das flexibilidades, cidadanias e afins o que mais faz são “rabiscos” e finge que faz. Mais vale parecer do que ser. Estou farto desta cambada de fingidores, arrivistas e oportunistas.

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  2. Parabéns! É essa a função da escola, é preciso aprender primeiro, para criar depois.

    O desenvolvimento humano depende de uma interação, profunda e complexa, entre genes e memes [R. Dawkins – https://pt.wikipedia.org/wiki/Meme%5D, razão pela qual critica, com contundência, os sistemas educativos que abandonam o rigor e a exigência a favor de uma cultura (?) leve e superficial.

    Nem os anarquistas puseram em questão a autoridade do conhecimento e a dos adultos sobre os mais jovens! Nenhum home ignorante pode ser livre!

    Como escreve Javier Urra: «A diferença entre um adulto e uma criança é que o adulto antecipa, prevê, e isso não nos é dado pelo Google, nem pela informação [que distingue de conhecimento], nem por um verniz. (…)
    Será bom passar aos nosso alunos, aos nossos filhos, que a capacidade de informação atual de um “tablet” ou de um computador é muito superior à de qualquer pessoa, mas que, no entanto, a forma de elaborar essa informação, de encaixá-la em sentimentos pessoais e sociais, é algo que só compete ao ser humano, que como qualquer espécie terá de a transmitir à geração seguinte. (…)
    De outra forma, um tosco pode ter informação, mas continuará a ser um tosco.” [“Deixe-o Crescer”, p. 42]

    Não entendo, depois do que a ciência nos tem dito sobre o cérebro, o poder de sedução da pedagogia não diretiva! Só pode ser maldade ou ignorância!

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