Sábado

Chegámos ao Carnaval, mais ou menos estropiados, por dentro ou por fora. Claro que há quem tenha chegado plen@ de energia e alguma evidente flatulência ao nível do ego superior. Mas em relação ao pessoal comum, aquele com quem falo, troco mails, convivo, por muito bicho de mato que seja, adensa-se aquele manto de receio acerca do que pode ou não ser dito, escrito, assumido em público. O descongelamento acordou bactérias e vírus adormecidos. Há quem desperte para a realidade que estava parada e, vendo-a em movimento, se espante. Mas ela sempre foi assim, há uma dúzia de anos que ficou assim gravada em pedra legislativa que nos anos seguintes foi sendo acrescentada, só que, por causa do imobilismo global, tudo parecia não acontecer. A “não inscrição” de José Gil que cito muitas vezes foi uma espécie de realidade alternativa. Parece que ninguém quis perceber que mais do que estarem parados na progressão, ela tinha sido transformada em outra coisa. Acabaram formalmente os “titulares” no dealbar no segundo congelamento, mas ficou todo o resto, com um sistema de quotas que, no limite, ainda reduz mais o horizonte de progressão de 80-90% dos docentes. Isso já era notório em finais de 2009, permitindo-me a ousadia da auto-citação, como se fosse uma espécie de formador em flexibilidade a ir buscar os escritos de outros tempos. A diferença é que nessa altura eu ainda pensava ser possível eliminar as quotas, pelo menos nos seus aspectos mais gravosos, algo que não aconteceu.

Essa reivindicação não sei se é entendida pelo homem comum. Os professores não têm todos as mesmas possibilidades de ascender na carreira?

Não, porque o sistema criado pelo Ministério não o permite, justamente devido às quotas. Claro que nem todos os professores conseguem chegar ao topo [dos escalões], mas todos devem ter esse direito. O mesmo se passa com os alunos: nem todos tiram positiva, mas todos devem ter hipótese de lá chegar nas mesmas condições.

Com as normas anteriores do Ministério, o topo de carreira era também o topo salarial. Isso era errado?

Sim, profundamente errado. O efeito prático que teve foi a divisão dos professores entre titulares e os outros, em que uns mandavam nos outros.

E por que é que isso é errado?

Porque quem ganha mais e está há mais tempo na carreira não é, obrigatoriamente, mais competente.

A manutenção de um sistema draconiano de quotas, a par de um sistema de avaliação do desempenho que foi tratado de forma muito diversa ao longo d’A Idade do Gelo, fez com que, agora, ainda com as questões relacionadas com reposicionamentos de quem entrou na carreira por via extraordinária (justa ou injusta, não o estou a discutir), provocou um doloroso fim da hibernação e a consciência de que esse tempo serviu para que se cristalizassem poderes e práticas nem sempre muito transparentes e muito menos sensíveis a um espírito de democracia e tolerância. Pelo que, agora, estamos quase no ponto de partida em relação a um clima em que já nem é necessária a intimidação explícita (que existe e não em pequena escala), para que as pessoas se encolham com receio das consequências. Outrora, receava-se a distribuição de turmas e o horário (ou não) do ano seguinte. Agora receia-se mais do que isso. Não se escrevem mails, muito menos nas plataformas institucionais cuja amplitude na gestão se desconhece, e muito menos se fala alto, sem ser longe dos auriculares dos poderes.

(e ainda há quem diga… “eu leio o que escreves todos os dias, mas não posso fazer que gosto porque “xyz” também é teu/tua amig@ e depois vê… e vai contar a “kyz” e pode dar chatices…”)

Vive-se em algumas escolas/agrupamentos – sem exagero – um clima de terror branco, que pode ser do tipo “português suave”, mas não deixa de o ser, da escala central (para a qual é quase inútil recorrer dos desmandos quotidianos) à local. E daqui a muito pouco tempo quem se quiser queixar, que se dirija à Câmara Municipal, porque é onde ficaram as competências descentralizadas.

Exagero?

Olhem que não, olhem que não… porque eu não olho apenas para o meu umbigo* (por proeminente que seja…).

medo

(* piada que também direito a fazer…)

2 thoughts on “Sábado

  1. Bom final de sábado !
    Retrato muito fiel. Grande Paulo !
    Devagar , devagarinho conseguiram / programaram tudo o que queriam.
    E a instalação desse clima de ” terror branco ” acontece e continuará a acontecer
    Tristeza !

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  2. De acordo com o que afirma sobre a avaliação, a estrutura da carreira e a história conturbada destas coisas. Há, contudo, um ponto em que não posso deixar de manifestar discordância.
    O Paulo estabelece uma relação entre o que referi atrás e o clima de terror “português suave” que se vive nas escolas. Ora, parece-me que é possível, se houver pachorra, dar-lhe uma volta por dentro. Os representantes dos docentes nos conselhos gerais ainda são eleitos a partir de listas livremente constituídas, por exemplo.
    O problema é que não há um pescoço comum e também já não há pachorra.

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