3 thoughts on “Bom Domingo

  1. Perdão Pascal

    Sexta-feira Santa a aula do “Tonecas” versara sobre as razões pelas quais Pilatos considerara mais premente deixar escapar o culpado pelo buraco da agulha do que libertar o inocente. A mensagem calou fundo nalguns traseirenses e as consequências não só não se fizeram esperar como também atrasaram o almoço.
    Está a matança do borrego obstaculizada pelo cabo da Guarda o qual, em rigoroso cumprimento de uma lei desumana — que impede os animais, nos seus derradeiros momentos, de receberem a assistência dos seus mais chegados —, obriga os bichos a trocar a dignidade do trespasse na sua casa por uma eutanásia em ambiente asseptizado. Por esta razão a tradição familiar ganhou matizes de cerimonial secreto e de conspiração para cometer crime.
    Nesta época de fim de penitência, sob a ameaça de um vírus que se transmite através do mau hábito que os asiáticos cultivam de cozinhar a carne sem os devidos temperos e de a consumir sem o aconchego de um bom tinto, decidi tomar precauções suplementares na preparação da matança. Confinou-se gentilmente um borrego à mais estrita quarentena e tomaram-se as medidas profiláticas adequadas: todas as noites, para contornar a prática abusiva a que se chamou “partilha das tarefas domésticas”, evito cuidadosamente o lava-louças e dirijo-me, garrafão à ilharga, para o curral onde durante um par de horas partilho com o borrego algumas rimas de futuras modas e outros tantos golinhos de aguardente. Nesta disciplina espiritual se aprofundam os laços entre o homem e a criação — outros diriam “o seu Deus” —, acrescentando-se diariamente certeza sobre a saúde do imolado e o refinado sabor da sua carne. Vai correr tudo bem (Andrá tutto mémé), desde que ninguém tente comer o ensopado com pauzinhos, deixando assim escorrer o caldo desinfectante para a braguilha.
    Qual não foi o meu espanto quando, dirigindo-me pela última vez ao local do meu retiro espiritual vespertino, verifico que o animal se tinha ausentado. Ausência que foi de pouca dura, dado que nas sua “Via Appia” se cruzou com o Coxa que regressava da casa da sogra com mais vinho no bucho do que gasóleo no depósito. Ziguezagueou o comerciante até à beira da estrada evitando o borrego que, atordoado, o fitava no meio da estrada. O Coxa saiu da carripana, interpelou-o com um entaramelado “Quo Vadis?!” e como não obtivesse resposta decidiu carregá-lo na carrinha e devolvê-lo à procedência.
    Hoje o almoço foi frango, um animal menos sensível à nobre arte do Cante e ao convívio com os poetas. Trinchei-o com desconfiança, dado que não houve quarentena e é sabido que as gripes se esgueiram maliciosamente para os homens a partir da aves. Depois do almoço espreitei o curral. O meu mais novo fazia festas ao borrego e com a certeza impante de um juíz de comarca sentenciava:
    — Tu não fizeste mal a ninguém. Não podes ser castigado. E preciso que continues a fazer companhia ao papá, porque a mamã não quer que ele a atrapalhe quando está a arrumar a cozinha.
    Terei o cuidado de explicar ao cura a razão pela qual este ano não recebeu o seu quinhão de borrego.

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