O Texto Para O JL/Educação Deste Mês

Nem eu consegui achar ainda a edição em papel, pelo que o deixo já aqui. É bom lembrar que estes textos são escritos, em regra, cerca de uma semana antes da publicação.

Eu, Encarregado de Educação

Ao longo dos anos, fui percebendo que todas as pessoas podem falar e escrever sobre Educação sem grandes receios de fundamentação das suas opiniões, a menos que sejam professores. Qualquer empresário, jornalista, escritor, economista, jurista, político, desportista, local ou nacional, qualquer curioso desta arte ou daquele ofício, tem espaço para se expressar sobre o “Estado da Educação e essa sua expressão é recebida com atenção e como sendo um “contributo” positivo para a “discussão”, seja ela qual for, exista ou não, tenha sequer alguma actualidade ou não passe de um pensamento passageiro ou antigo que se julgue por bem partilhar.

Um grande número dessas opiniões não tem qualquer tipo de base empírica para além de uma convicção pessoal ou limita-se a expressar a posição de um determinado interesse particular, individual ou de grupo. Em regra, são opiniões críticas que afirmam que a “Educação está em crise”, que “a Educação necessita de mudar de paradigma”, “a Educação precisa de uma mudança de mentalidades”, lugares-comuns tão recorrentes quanto entediantes, com um vazio de conteúdo evidente, ao que nas últimas décadas se veio acrescentar o de “precisamos de uma Educação para o século XXI”. Qualquer pesquisa num motor de busca encontra uma quantidade assinalável de artigos deste tipo ou passagens em entrevistas com um conteúdo similar.

Curiosamente, apesar de alguns ganhos nos anos mais recentes em termos de visibilidade mediática, se forem professores em exercício a apresentar a sua opinião sobre o tal estado da Educação, em particular se forem de natureza crítica, tal perspectiva é de forma sistemática encarada com sobranceria e rapidamente arrumada na prateleira dos “interesses corporativos”. Ser professor e ter uma posição sobre as políticas educativas é motivo de desvalorização e rápida catalogação negativa, ao contrário do que passa com outras profissões com qualificação superior. Ninguém pensa retirar credibilidade a um médico, advogado, arquitecto ou mesmo um futebolista para falar da sua actividade, mas se for um professor a tentar fazer o mesmo, a menos que seja para elogiar as políticas do momento como as melhores e mais inovadoras de sempre, surgem de imediato os olhares desconfiados, os sobrolhos franzidos e as insinuações nem sequer subtis acerca de uma espécie de agenda conspirativa da classe docente para arruinar as finanças do país e colocar em causa o futuro das gerações de crianças e jovens das próximas décadas.

Entre as opiniões sobre Educação que o poder político e alguma comunicação social mais apreciam, está a dos encarregados de educação, das “famílias”, porque são as que representarão da forma mais pura, cristalina e alegadamente desinteressada, os “interesses dos alunos”. Porque são eles (os alunos) que são o “centro da Educação” e o motivo pelo qual todos os sistemas de ensino foram erguidos e se mantêm em funcionamento. E eu até concordo, como parece natural. Sem alunos para aprender, o ensino não existe. Pelo menos em termos formais. Aquilo de que discordo é que se apresentem, com tanta frequência, os “interesses” dos professores como contrários aos dos alunos ou mesmo como se aqueles limitassem os destes. Como se os professores fossem uns egoístas, preocupados apenas com os seus “privilégios” e materialidades, descurando, nas suas posições e críticas, o que é melhor de igual forma para os alunos e para o sistema de ensino no seu todo.

Esta maneira de apresentar as coisas esquece que professoras e professores também são mães e pais, “famílias”, portanto, desconhecendo estudos que demonstrem uma qualquer fertilidade diminuída entre a classe docente que a desqualifique como portadora de opiniões que visem a defesa dos seus filhos enquanto alunos. Não sei se por causa do discurso sobre o envelhecimento da classe docente se passou a considerar que professoras e professores entraram, na sua larga maioria, numa espécie de limbo indefinido em termos familiares, que lhes retirou qualquer capacidade parental.

Contudo, há professores que, como cá por casa, também são encarregados de educação de crianças ou jovens em idade escolar e que, por isso mesmo, têm opiniões sobre as políticas em implementação ou sobre as mais recentes medidas mais recentes relacionadas com a situação de pandemia e nomeadamente com o retorno a actividades presenciais. Opiniões e questões que, por serem de encarregados de educação, devem beneficiar da atenção devida a quaisquer outras.

Como questionar o regresso às aulas presenciais no Ensino Secundário. Ou o prolongamento do ano lectivo no Ensino Básico, em regime de ensino à distância, até ao final do mês de Junho. Ou a reabertura das creches em moldes pouco compatíveis com as melhores práticas para essa faixa etária. Todas estas decisões podem ser analisadas e criticadas de forma livre e sem receios por parte dos encarregados de educação, das “famílias” e dos seus singulares “representantes” estimados pelos governantes do sector, ao contrário do que se passa com educadores e professores, que correm rapidamente o risco de serem acusados de só quererem estar de “férias”.

Por isso, passei a sentir-me mais confortável ou protegido se escrever e me expressar como encarregado de educação preocupado com o regresso da minha educanda a aulas presenciais do 11º ano durante esta semana, do que como professor do Ensino Básico que não acha muito sentido na extensão do ano lectivo durante mais três semanas do que o calendário original ou como marido de uma professora que teve de regressar à escola na passada segunda-feira, com muitas dúvidas e poucas certezas sobre os riscos envolvidos.

JL 20Mai20

Como encarregado de educação pareço ter legitimidade acrescida para questionar porque se tem navegado à vista em diversas matérias relacionadas como o Ensino Secundário, apenas tendo como norte orientador a realização de exames que tantos criticam por limitarem a liberdade pedagógica. Porque teve a minha educanda de se inscrever nos exames que pretende fazer até aos primeiros dias de Abril, sendo que no dia 11 desse mês saíram novas indicações (decreto-lei 14-G/2020) que levaram a ter de submeter uma nova inscrição (apenas devido à mudança de duas cruzinhas de quadrado)? Porque se foram sucedendo as normas de frequência das aulas presenciais, com adendas e alterações ao diploma aprovado, em vez de se pensar tudo com calma e ponderação desde o primeiro momento? Porque foi dito que retomar as aulas depois de 4 de Maio não faria sentido, mas foi decidido retomá-las no dia 18? Porque se afirmou com tanta veemência que ninguém deve ser deixado para trás, que todos devem ter igualdade de oportunidades, que as “famílias” têm a liberdade de decidir se deixam os seus educandos regressar às aulas presenciais, mas depois se declara que se não o fizerem, as escolas não estão obrigadas a assegurar o seu acompanhamento à distância, conforme documento emanado pela DGEstE? Por fim, porque se mantêm as informações-prova para o Ensino Secundário quando tanto mudou em tão pouco tempo?

Como professor sinto-me bastante limitado na expressão de dúvidas sobre as normas de segurança a implementar neste regresso, em especial quanto à forma de gerir os espaços destinados às aulas, à forma de reorganizar as turmas, aos novos horários que a situação exige, à equidade de diversas opções. Mas como encarregado de educação sinto que tenho toda a legitimidade e poder para exigir uma clarificação das responsabilidades em caso de algo correr mal, porque os alunos não podem ficar reféns do habitual jogo de empurrar culpas entre os decisores centrais e locais.

Como encarregado de educação tenho o direito e dever de relembrar aos decisores que os riscos do regresso às aulas não se encontram necessariamente nos alunos, em regra mais resistentes ao vírus ou assintomáticos com a doença, mas sim no que a sua movimentação entre casa e escola pode acarretar em termos de transmissão de vírus para familiares em situação de risco.

Como professor, se questionar o fornecimento de material de protecção para alunos, pessoal docente e não docente tenho a certeza de que rapidamente me acusarão de ser “pouco profissional” e estar preocupado com problemas “mesquinhos” (à imagem de qualquer crítica à chamada “telescola”), mas se o fizer como pai já estou a ser responsável e a expressar preocupações legítimas.

Portanto, por uns tempos, apetece-me assumir a roupagem de encarregado de educação nas minhas reservas. E eu, encarregado de educação, tenho muitas quanto a esta pressa em voltar ao “normal” que antes tanto se criticava.

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8 thoughts on “O Texto Para O JL/Educação Deste Mês

  1. Gostei muito do texto.
    Engraçado imaginar esse vestir de camisolas “diferentes “. Como se o fossem . Como se fosse possível serem diferentes .
    Muito , muito engraçada toda esta análise.

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  2. Caro Paulo Guinote

    A CNIPE Confederação de Pais que lidero tem as mesmas reservas e preocupações.

    Atentamente

    Rui Martins  

    Citando O Meu Quintal :

    > Paulo Guinote posted: “Nem eu consegui ainda achar ainda a edição em > papel, pelo que o deixo já aqui. É bom lembrar que estes textos são > escritos, em regra, cerca de uma semana antes da publicação. Eu, > Encarregado de Educação Ao longo dos anos, fui percebendo que todas > as pess” > > >

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  3. Muito bem, Paulo! Desculpa, mas tenho andado tão «perdida» que quase nem comento os teus contributos! Este E@D tem sido um desgaste tremendo. Tens sido uma voz incansável e muito te devemos. Obrigada.
    Não sei se aguento isto até dia 26 de junho?!

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