Três Meses Para Abrirem Os Olhos?

Estive a ver a peça na RTP1 sobre o que tem sido este ensino à distância desde meados de Março. Uma peça bem construída, com testemunhos interessantes do lado dos alunos e famílias. Sem alguns dos habituais “cromos da bola” a debitar prognósticos. Não sei se opção (acertada) editorial, se há quem ainda tenha um restinho de vergonha na cara quanto ao que andou a dizer e escrever durante a maior parte deste tempo. Parece que houve muita gente a “abrir os olhos”, mas isso não me espanta, pois sou dos que há anos se farta de dizer que a Educação é governada, não por sonhadores, mas por sonâmbulos. Ou funâmbulos. Ou as duas coisas.

(claro que me apetecia uma adjectivação mais contundente, mas não adianta, há cabeças bem piores que pedra dura…)

Tudo o que agora se constata, era perfeitamente previsível para quem conheça a realidade da maior parte das populações escolares do país. Claro que era necessário fazer qualquer coisa e claro que se deveria apresentar as coisas de uma forma relativamente positiva. Mas houve claro delírios demagógicos e muita asneira a sair como se fossem pérolas dadas a nós, povo comum e cépticos. Por estes dias, já quase toda a gente fala em “remendo” para caracterizar o que se tem vivido.

Agora anunciam-se 400 milhões de euros para a “Escola Digital”, o que equivale a obras em 25 escolas da Parque Escolar nos tempos áureos. Parece muito dinheiro? Não é. Não chega nem para tapar os pés frios, quanto mais chegar ao tronco e à cabeça. Se nem chega para 6 meses de prejuízos de um banco bom, acham que chega para perto de milhão e meio de alunos, professores e pessoal não docente das escolas?

O ME respondeu por escrito com aquela vacuidade típica dos comunicados rotineiros. O ministro Tiago não sabe, a secretária é amadora nisto e o secretário João sabe quando ficar na sombra. Fala.-se em diversos cenários, conforme a “situação epidemiológica”. Claro. Nem poderia ser de outra forma. Mas será que alguns dos cenários tem pés e cabeça? Mesmo se arrancar tudo em presencial e assim continuar em ritmo de “recuperação das aprendizagens”? Claro que andará, mas muito devagarinho e às apalpadelas.

No meio de tudo isto, termos ainda a cereja de perceber que, afinal, a “flexibilidade” só desajudou. Falta essa “abertura de olhos”, mas é complicada por é filha de pais extremosos. E o que dizer da “inclusão” em termos de pandemia? Nada menos do que um desastre, sendo que os progenitores do 54 não conseguiram, em três meses, dar um contributo público capaz sobre o tema e muito menos apresentar um plano de acção consequente para minorar as dificuldades dos mais necessitados de apoio de proximidade. Neste caso, tenho muitas dúvidas que exista a humildade de reconhecer a necessidade de “abrir os olhos”.

A pandemia teve muitas consequências. Uma delas foi perceber-se (quem o quer, claro) que a retórica dos últimos anos, em termos de Educação, não aguenta um abanão a sério. O castelo de cartas desmorona-se em semanas.

O próximo ano é uma incógnita e só pode ser encarado com uma mente aberta perante a realidade e os seus “problemas”. Porque em Educação, as “soluções” só o são se resolverem os problemas reais dos envolvidos. Não servem para nada quando são construídas no vazio. Ou para satisfazer vaidades.

sheldon-throwspapers

(só foi pena não terem incluído um naco do Preço Certo de sábado… foi, realmente, um programa de antologia… para quando com outros tele-profissionais?)

 

11 thoughts on “Três Meses Para Abrirem Os Olhos?

  1. Paulo, não vi o programa. Quando puder vou fazê-lo.
    Nestes três meses podemos dizer que «a montanha pariu um rato». Na nossa escola anda tudo esgotado. Muitos dos entusiastas iniciais, finalmente, reconhecem que se caiu em exageros tais, que ninguém aguenta. Grelhas e planos para tudo e para nada! Não foi por falta de aviso, mas o entusiasmo de alguns (que andam a monitorizar os trabalho infernal dos outros), a falta de coragem de muitos e apenas uma minoria a reclamar, culminou numa saturação tal, que já ninguém aguenta. Anseio o dia 26. Venha ele!

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  2. A “inclusão” correu da melhor maneira possível, dados os condicionalismos, e se não correu melhor foi por culpa dos professores.
    Vi gente, com responsabilidades, a dizer as maiores barbaridades sobre o assunto e a querer mais grelhas, e mais acompanhamento, e mais horas (não pagas) e mais tudo e alguma coisa. A coisa apenas não chegou a extremos porque esbarraram com a realidade de os miúdos já estarem ocupados ao máximo.

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    1. Ora, Paulo, muito distraído anda o colega: para esses alunos, o Exmo. Sr. Presidente Marcelo, que também é professor (não zeco) deu uma teleaula de Cidadania, o que permitiu colmatar carências, inclusivamente as suas.

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  3. Estive a ver o programa, agora. Quanto aos testemunhos de alunos, professores e pais são comoventes. Claro, que tudo deseja o presencial! Ver aulas no tlm! ? Estar com irmãos 1, 2, ou 5 à volta? Como? Quanto ao comentário /reflexão que se seguiu revoltou -me. Tudo tão fresco, tão leve, tão prafrentex, que só quem está sentado (a)em gabinete é capaz de dizer aquelas coisas giras e sorrir, sorrir,enquanto os intervenientes, inclusive o jornalista, se contorcem todos e desabafam “estamos todos cansados “! ! ! Ponham os pés na terra!

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  4. O mais difícil de aceitar é a incapacidade da tutela, tal como bem refere, de tirar as devidas ilações sobre os fracassados documentos que, supostamente, iriam abrir as portas do século XXI!
    A flexibilidade mostrou-se inflexível; a inclusão uma exclusão!

    Não estou nada otimista relativamente ao próximo ano letivo, com ou sem pandemia, falta o golpe de asa e, sobretudo, uma boa dose de ceticismo crítico! Há demasiadas verdades na educação e, claro, todas se tornam falsas a partir do momento em que nos contentamos com elas!

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