Isto É Mesmo Gozar Com Que Trabalha

ISTO É MESMO GOZAR COM QUEM TRABALHA!

RAP dixit. E bem! Mas isto não é somente o talk-show que nos faz rir aos domingos à noite.

Ele há Escolas que se julgam ainda na Idade Média. Porquê? Porque acham que o seu quintal é um feudo, e como tal, ninguém mais lá manda a não ser os seus donos. E as suas intelligenzias acham-se acima das leis.

Faz lembrar aqueles tempos socrático-rodriguistas, em que, numa deriva afetivo-socialista, nasce o conceito de escola inclusiva – politicamente corretíssimo! – mas que, paulatinamente, vai dando lugar a todo o tipo de abusos e oportunismos.

Lembra-nos os famosos EFA’s em que, em turmas de trinta alunos, alguns (muito) adultos, faziam o favor de ir à escola mostrar-se à razão de uma vez por mês, dizer de que país tinham vindo e para que é que precisavam do diploma de Dupla Certificação. E sem fazer rigorosamente nada, esperavam a dita aprovação para “dar como concluído” o curso Secundário e irem às suas vidas.

Mas atenção, como Sócrates & Rodrigues tinham 12.000 diplomas para distribuir para cumprir as metas europeias do sucesso escolar à força, os professores eram encostados à parede para compactuar com esta fraude. Senão, abria-se-lhes um inquérito, ora pois! Se alguém quisesse fazer um trabalho sério, ao inferno com ele!

Por causa de EFAs e CEFs desta natureza, e cuja intenção inicial era uma nobre ideia de recuperação educativa das franjas mais desfavorecidas da sociedade, oriundas de bairros mais ou menos marginais ou de PALOPS, muitos professores mudaram de escola, por não suportarem a pressão do faz-de-conta-sem-vergonha em que aquele ensino rapidamente se tornou.

Nesta fase, à sombra dos desaires familiares e anímicos dos nossos adolescentes, alguns que se acharam de férias, a partir daquela fatídica sexta-feira 13 em que lhes anunciaram o fecho das Escolas por tempo indeterminado por conta do COVID-19, vimos de novo surgir uma cassette dos bem-pensantes sobre a falta de equidade, que, na prática, lança alguns dos meninos para a total impunidade e desresponsabilização.

Inúmeros professores por este país fora andaram a fazer formações, às vezes até pagas, sem descanso na Páscoa, a construir recursos, a inventar novas estratégias para cativar as já tão facilmente dispersas mentes dos jovens, com a última palavra em tecnologias digitais, para cativar suas excelências, que, por natureza, vivem agarradas a tudo quanto é gadget e para quem “viver nas nuvens” é, não só literal, como indispensável.

Para garantir que as aprendizagens se continuariam a realizar de forma a não quebrar o vínculo com a escolaridade e manter o elo com os textos, livros, imagens, vídeos, power-points, filmes e tudo aquilo que pudesse cativar o seu apelo pelas novidades, muitos professores prescindiram de muitas noites e fins-de-semana, ficando a trabalhar incansavelmente, durante três meses consecutivos, para que os seus alunos aprendessem, sem olhar a meios, nem a gastos pessoais, nem a esforços.

Muitos já passaram a meia-idade e estão cansados. Mas sem o lamentar, fá-lo-iam de certeza de novo, pois nestas coisas, é a consciência profissional que os reconcilia com o travesseiro à noite.

O que nada faria prever é que agora levaram com a menina dos 5 olhos nas mãos, ao verem as suas notas votadas em Conselhos de Turmas cheios de tias e tios, inteligentes e conscienciosos, com um discurso do coitadismo-sindicalista, “ah e tal, a falta de equidade que o sistema pôs a nu…” Então, bora lá nivelar pelas benesses do 2º período! Como é que é???

Entendamo-nos no seguinte: alguém duvidava da falta de equidade nas nossas escolas? Mesmo no regime normal e sem pandemias, temos lado-a-lado nas nossas turmas o menino-filhinho do Sôtor-Juíz, que se dá ao luxo de ter 3 telemóveis de 700 Euros cada, (um para os pais, outro para a namorada e outro para os amigos dos chats) e o miúdo do bairro de lata, que até foi para aquela Escola porque a mãe é mulher-a-dias daquela senhora que a autorizou a dar a sua morada para ele lá entrar.

Todos sabemos disto. Ou não sabemos? Isto é novidade para alguém? Isto não apareceu com o COVID!

Não sabíamos já que os alunos que trazem melhores trabalhos e fazem apresentações com mais qualidade são aqueles cujo background cultural em casa assim o propicia? Não conhecemos os alunos que nos enviam trabalhos de um MAC, editados a partir de programas avançados como o Latex, que têm uma qualidade gráfica que se distingue a léguas logo pelas imagens de capa?

Estes miúdos não vivem na Boavista nem nas Galinheiras, mas nas Torres de Lisboa ou por aí. Não choca os tios e tias que se classifiquem alunos destes com 18 ou 19 valores, antes ou depois da pandemia.

Durante este período, atípico é certo, muitos souberam aproveitar o tempo para desenvolver e aperfeiçoar competências nas áreas que mais gostavam. Todos esses merecem notas altas e aqui não ousaram discordar ao ponto de exigir votação da nota.

Mas choca os corações sensíveis das tias dos CTs que se dê 8 ou 9 a quem se baldou persistentemente, ficando “fora da rede” sempre que isso lhe dava jeito, mas não para os grupos de Whatsapp ou para manter contacto com os YouTubers da sua predileção.

Estes jovens alegavam nunca ter cobertura de rede quando era preciso, sempre em casa dos avós ou nos confins lá da terra, para efeitos de enviarem um email de 15 em 15 dias com uma tarefa atribuída, ou sequer dar resposta a um simples convite da Classroom, para o qual basta ter um endereço do gmail.

A compaixão tomou conta dos corações sensíveis, que se acharam no direito de proteger essas criancinhas desvalidas, que, coitadinhas, ficaram em situação atípica e desigual, embora com tudo o que é aplicativo instalado nos seus smartphones de última geração. Isto depois de esses anjinhos terem confessado à frente da turma, no regresso ao regime presencial, que “se acharam de férias desde Março e então deixaram andar, sem fazer nenhuma das tarefas solicitadas” confessando “preguiça e desleixo”… E assim se dá um estímulo ao oportunismo e à impunidade para os futuros adultos. Que belo exemplo!

É ajudar a crescer, isto? É criar cidadãos responsáveis? É contribuir para um percurso escolar de maior qualidade? Não, não é! E quando as atitudes excessivamente protecionistas e paternalistas vão ao arrepio das propaladas exigências de manter um padrão de excelência e prestígio da instituição, alguma coisa aqui não bate certo.

Podemos então perguntar-nos porquê e para quê andámos a ter tanto trabalho para facilitar a consolidação das aprendizagens e, em muitos casos, facultar novas aprendizagens, se depois não são passíveis de uma avaliação consequente?

Alguns Grupos Disciplinares e Departamentos que mais parecem Senhores Feudais, Schoguns da pós-pós-modernidade, resolveram, ao arrepio do Decreto-Lei nº 14-G/2020 de 13 de Abril, não dar cumprimento às avaliações sumativas e meramente repetir as classificações do 2º período.

Só podemos concluir que trabalharam para o boneco os professores que se esfalfaram a ver trabalhos e enviar as correções dos mesmos e foram desrespeitados na sua profissionalidade; e foram injustiçados os alunos que cumpriram, trabalharam e deram um feedback sistemático do seu empenhamento.

Que nos perdoem os respeitabilíssimos doutores Eduardo Sá e Daniel Sampaio, mas isto é gozar com quem trabalha, senhores! Mesmo!

Lisboa, 29 de Junho de 2020

(Docente do Ensino Secundário)

exclama

7 opiniões sobre “Isto É Mesmo Gozar Com Que Trabalha

  1. O docente que escreveu este tópico das duas uma, ou ainda é inocente novinho ou então vive debaixo de uma pedra.

    Mas alguém pensava que iria ser o contrario do que afirma!

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  2. A forma pode ser quadrada, redonda ou em estrela. O conteúdo… para nós que já passamos mais de 30 anos dentro das escolas vemos que é assim. E muito do que relata do período Pinto de Sousa ainda se vivem tal e qual assim.

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    1. Os que lá estão e mandam agora são da mesma escola, quando não são os mesmos. as mesmas manhas, oportunismos, mentiras, simulações, teatrinhos….

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  3. Ao docente anónino:
    Preocupe-se menos em rebaixar os alunos da sua escola e mais com com a injustiça classificativa a que os mesmos são sujeitos quando comparados com os alunos do colégio vizinho.

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