RTP3, C. 21.30

Uns minutos para comentar uma sondagem da Católica sobre o E@D. Como quando digo que espero não me perder no caminho, quando vou fisicamente ao estúdio, agora espero que a ligação por Skype não me falhe, que isto tem andado agreste mesmo com fibra óptica. E o material já está como o dono. Degenerescente.

TV

O “Novo Paradigma”?

As coisas fazem sentido, na sua lógica própria. Do governante de +proximidade que acha que para ensinar basta estar cara a cara e ter um “dispositivo” à directora pedagógica exemplar que dá aulas de leitura sem gostar de ler. As coisas encaixam. O “professor” passou a ser uma designação com um conteúdo funcional muito diferente do que foi e não é o do “transbordamento” de funções.No século XXI é o do total esvaziamento de um saber próprio ou, sequer, de um  interesse especial pelo que se ensina. É um simulacro que clica para que o google ensine. Que tudo venha enroupado pela ideologia-MEM é apenas um detalhe operacional que nem chega a ser paradoxal, porque o que interessa é o Poder. A Educação é um mero pretexto para o acesso. Nem que seja ao círculo exterior.

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Um Fino Verniz E Nada Mais

Ganhou notoriedade por ser a primeira professora a aparecer na “nova Telescola” e aproveitou a oportunidade para elaborar alguns depoimentos e prosas acerca do seu amor pelo ensino e tal. Adepta do MEM, directora pedagógica de um “colégio” do concelho onde lecciono, apresenta uma atitude muito positiva acerca do ensino, o que lhe mereceu uma página inteira de vacuidades no JL/Educação desta semana, que degluti com o proveito  do algodão liofilizado numa salada de frutas.

Agora teve direito a entrevista no Expresso e…

Diz-se professora de Português ou algo assim – ou diz que dá aulas – mas não gosta de ler. Gosta de ter livros na sua “pequena biblioteca”. Está no seu direito. Eu gosto de ler e de investigar em História e dou aulas da disciplina, mas sou um “modelo antigo”. Não sou formado em Línguas, mas adoro ler e não apenas ter livros. Tenho muitos, ao ponto actual do desespero para os mudar e arrumar de forma mais funcional, mas tenho uma mentalidade oitocentista, nada progressista tipo-MEM.

Eu acho que a colega directora pedagógica está bem, porque tem uma carreira de sucesso, com a chancela da escolha pela tutela, nomeadamente pelo nosso vizir da Educação que, talvez pela formação académica, perceba melhor esta forma inovadora de abordar o ensino daquilo de que não se gosta. É o predomínio da técnica sobre a substância, tão típica do século XXI. Desagrada-me um pouco aquele ar meio mal disfarçado de alguma superioridade pedagógico-táctica em quem vai tentar ler um livro, nem especialmente extenso ou complexo, durante todo o Verão. Ela vai tentar ler; é uma ousada desbravadora de territórios e arrisca-se a muito. Se calhar, até é mesmo o livro físico, que terá de agarrar e esfolhar com riscos evidentes para o seu bem estar físico. O que vale é que tem pouco mais de 150 páginas. E há passagens que até lhe poderão perturbar a sensibilidade. Não sei se repetirá. Eu, se fosse a ela, nem Paulo Coelho leria. Mas compraria uns livros dos tops e colocaria na estante da sala.

Eu acho que gente arcaica como eu, que gosta mesmo de ler e de aprender mais do que umas pinceladas mal amanhadas de teorias de complexidade nível 1 ou 2 (numa escala de 10) que depois se debitam como se fosse a apresentação de um trabalho de uma licenciatura em ensino do tempo em que ela andava no 1º ciclo (ou de quando eu andava na Primária, que foi muito antes), é que estamos errados. A vida seria muito mais fácil e pipilante se abraçássemos sem preconceitos o vazio como convicção, se nos limitássemos a replicar o que se ouviu (porque ler chateia) e se não tivéssemos a pretensão de avançar para algo diferente, em vez de envernizar o que está velho e bichado.

Já me tinham passado à frente umas personalidades deste tipo – lembro-me em especial do ar abismado daquele director que nem percebia a relevância de um par de filósofos para a Educação – mas penso que nunca com esta combinação de inconsciência e pretensão.

A sério, leiam a entrevista no Expresso e o depoimento no JL/Educação (onde se fica a saber que até está numa pós-graduação na Católica…) e terão o retrato dos professores “jovens” (atenção… não são todos os professores “jovens”, mas sim aqueles que têm o carimbo de qualidade da 5 de Outubro) que se pretende que venham a erguer uma “Educação para o século XXI”.

Já sei… eu não deveria ser assim tão crítico da colega (que até directora pedagógica e tudo, de um colégio de sucesso e tudo) e ser tolerante com as suas opções. Eu sei. Eu podia ser diferente mas, se o fosse, não seria a mesma coisa e para que serviria lerem-me. Para papagaios, há outros.

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(imagem sacada no mural da Isabel Cluny)

Breves Lições Dos “Bate-Papo”

  • Em primeiro lugar, fica claro quem é verdadeiramente o califa do ministério, mesmo que ostente apenas o título de vizir. É ele que sabe, é ele que comunica e explica, é ele que está em proximidade. Todos sabem(os) isso há muito, mas é sempre bom que se perceba com clareza.
  • Há director@s que precisam de uma mão que os guie em todos os caminhos, por forma a tudo poderem fazer de acordo com as regras, o figurino e a sebenta oficial. Ninguém quer correr riscos e verdadeiramente “inovar”, não vá o raio da inovação não ser a certa e certificada pelo vizir e seus fiéis.
  • Qualquer “oportunidade” que pudesse existir para que pudessem repensar-se alguns aspectos do “paradigma” foi ignorada por completo no que à preparação do próximo ano lectivo diz respeito.
    • O calendário é como os antigos mas mais extenso, apesar de terem levado anos a dizer que os alunos estão muito tempo na escola;
    • As turmas ficam como estavam, fazendo-se apenas uns retoques nos horários, mesmo se há por aí quem proclame há c’anos que o importante é centrar tudo no aluno, individualizar e diferenciar. Mas, mesmo com perigo de contágios, fica tudo na mesma e só como excepção será diferente. Porque todos cabem nas salas, sempre que possível ou não.
    • Quanto à avaliação e assiduidade, fica tudo como estava, em especial se os níveis singulares de sucesso deste ano se puderem replicar pois – é natural – quem vai querer explicar, daqui a um ano, que “cara a cara” (sendo possível) os alunos terão menos sucesso do que à distância tiveram este ano?
    • As provas externas já têm data marcada, incluindo as do Secundário, por muito que se diga que deve ser – lá está – “repensado” o acesso ao Ensino Superior. Que não deve ser feito com pressas? Certo, mas nem sequer está na “agenda” deste mandato.
    • Há uma enorme consideração da tutela pelos professores em termos retóricos mas, caso digam que têm este ou aquele risco, mesmo que o regime evolua para misto ou não-presencial, se não estão em condições de se meter com centenas de alunos na escola, metam atestado e pronto. Não interessa se depois não quem os substitua e a petizada fique com intervalos de 90 ou 100 minutos.

Em suma… esqueçam todas aquelas tretas que andam por aí os cortesãos a espalhar sobre a necessidade de se repensar o “modelo” herdado do século XIX, de reconfigurar o paradigma educativo, adaptando- ao século XXI, que já vai bem avançado. Há quem defenda isso com convicção e fé, porque é como com qualquer fundamentalista religioso agarrado às barbas do filho de Deus, do profeta ou do primeiro Buda (que não sei se tinha barbas), que não consegue sair da sua “caixa” enquanto critica os outros por não saírem da deles.

Mas também há quem ande a espalhar o Verbo apenas porque lhes facilita a vidinha, financia formações e dá lugar de destaque na Corte da Situação. E o “54” e o “55” têm dado muito que comer e beber. No fundo, o que querem é chegar ao fim do mandato e apresentar um sucesso inaudito que irão atribuir às suas políticas, mesmo que isso tenha sido conseguido à custa de uma emergência em que a larga maioria dos professores decidiu que os alunos não tinham culpa das circunstâncias e passaram muitos em conformidade, desde que tivessem dado alguma prova de vida a partir de meados de Março.

janus

Logo Agora Que Se Conhece A Acusação Do Caso BES Em Detalhe…

… é que o grande cronista do reino se vai de férias e nos deixa sem a sua análise perspicaz na sua espessa página em que tanto gosta de zurzir em quem não cavou um buraco superior a 10 mil milhões de euros?

Ao menos a eminência júdica tem mais coragem, e defende sem embaraço a mão que embalou tanto berço.

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(já sei, por motivos “ético-familiares” nenhum  familiar dos dalton pode falar sobre os aparentados, excepti o impoluto ricciardinho)