E É Isto…

Já se percebeu que o “Perfil do Docente à Entrada da Carreira Horizontal no Ensino Público” (ou privado amigo) deve ser assim: muita animação inconsequente com agitação de mãos e braços para chamar a atenção, pouco peso de saberes académicos ultrapassados que só atrapalham a comunicação e esforçam as mentes, disponibilidade para ir a programas de grande audiência em que se tenta acertar o preço do detergente multiusos, uma filiação expressa nos ideais do MEM (mesmo que não se saiba explicá-los para além da caricatura que faria corar de vergonha os fundadores), uma adesão acrítica a qualquer recomendação da tutela, mesmo que contraditória em relação à última e à seguinte, um “dispositivo” tecnológico (ou mesmo  dois) para ir em busca de qualquer tema com base no algoritmo do google (que o do bing deixa um bocado a desejar), um entusiasmo sem limites pelas “plataformas” e “ferramentas” do “novo paradigma”.

É isto que se procura.

Para facilitar, no próximo ano lectivo, talvez pela primeira vez de forma explícita, muit@s professor@s serão activamente empurrad@s para baixas médicas, mal digam que têm qualquer factor de risco ou familiares nessa situação. Pelo que se percebeu, a ideia é afastar o maior número de docentes com receio de contágio para a situação de atestado, enquanto se promete vagamente pela enésima vez, que poderá existir um regime antecipado de reformas que apenas levará um mínimo de 50% do rendimento liquido.

Parece que é esta a abordagem “humanista” da Educação, defendida por gente de conversa mole, em que as imprecisões ou formulações vagas são cuidadosamente programadas e e em que o “não há alternativa” recupera um chavão dos tempos da troika. São estas pessoas que precisam de uma classe docente ainda mais esvaziada de um saber profissional próprio que exceda umas teorias pedagógicas sabidas em tópicos, porque ler em extensão cansa, mesmo com um kindle. São pessoas que criticam a formação de professores depois de estarem décadas a formar professores ou afirmam ser necessário mudar a formação contínua depois de anos e anos a fazer parte da sua estrutura e a ganhar bastante com isso. Pregam a tolerância, mas não perdem tempo a vitimizar-se perante qualquer crítica e a, pela sombra, lançar suspeitas terríveis sobre quem desalinhe do diktat situacionista.

Nada disto é novo e talvez seja isso que enjoa ou enoja mais.

Claro que o tal ensino privado que se demoniza por estar no top dos rankings agradece, aplaude discretamente e factura de forma abundante junto de todos aqueles que percebem que a promoção das professorasisas (mesmo sendo do privado) ou dos professoresdopreçocerto (por pessoalmente simpáticos que sejam e muito pressionados pelas suas direcções) são óptimos para o seu negócio.

Pessimista? Catastrofista?

Nem por isso. Apenas consciente de que há muita gente cheia de bons princípios da boca para fora e imensa caridade impingida aos outros que são os piores para combater a desigualdade e acabam, na sua acção coitadinhista, por manter o status quo ou ainda agravar mais os vícios do sistema.

Magoo

(perguntem-lhes onde os seus filhos estudam ou que cursos seguiram… se foram para vias profissionais… etc, etc… perceberão logo que, na essência, o mundo que existe é aquele que querem que continue a existir, fingindo que elevar a base equivale a aproximá-la do topo…)

17 thoughts on “E É Isto…

  1. Paulo

    O “Perfil do Docente à Entrada na Carreira Horizontal ” pode ser um deserto de “saberes académicos”. Acredito . Mas não vê que as suas cândidas mentes estão a ser “estrategicamente” poupadas nas eses&companhia por forma a, mais tarde, terem espaço mental suficiente para acomodarem o pedante léxico do eduquês?

    E não venha com coisas, Paulo : em vez de citarem um banal Eça , tem muita mais pinta rapar do 54 e 55 e esgrimir umas “acomodações significativas” ou “não significativas” , um sonante “perfil de funcionalidade”, umas “magnitudes” (calma, não é um sismo), umas planificações com um “verbo operativo ” a condizer , uma “retirada de constrangimentos” . Sei lá ! Vejam o menú pseudo-intelectual do 54 e 55. Isso sim! Isso é que dá status ! Manifestação de “sapiência”, mesmo sem saberem o que dizem, que deverá – se possível – ser acompanhada por uns trejeitos importados do programa do Goucha.

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  2. Maria. Eu também sou professora e tenho 52 anos a caminho dos 53, lá para Outubro… os professores / professoras são na sua maioria bovinos, 99% em cada quintal, desculpe quis dizer escola

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  3. spot on Paulo. O pior dos caminhos foi escolhido e só mais tarde a populaça vai perceber que o cozinheiro vizir lhe cuspiu no bacalhau mas só depois de digerido.
    Enquanto alguém que agora voltou a dar “umas aulas” como prof convidado na mesmas uni de onde provêm o viziralho, fico estarrecido com os eduqueses e eduquesas. A nobreza só deve ser “respeitada” na hora de passar na guilhotina

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    1. Duvido que 2 dias de discussão sejam suficientes. Eu levei anos a discutir, experimentar, fazer, enganar-me, reflectir, tentar de novo,… e ainda estou a aprender.
      Ser do MEM não é para frangos de aviário.
      Respeitem os verdadeiros.

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  4. Excelente publicação, Paulo.

    Já agora, completamente off-topic, ou talvez não:

    Já alguém viu refletido, no recibo de vencimento deste mês, a respectiva mudança de escalão, como resultado da aplicação da tranche da recuperção do tempo de serviço?

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    1. Só deve receber quando a plataforma do ministério estiver aberta e a sua escola puder actualizar a sua situação. Já o ano passado foi assim. Progredi em Junho de 2019 com o faseamento e só em Janeiro de 2020 recebi o aumento com retroactivos. Agora é assim: ninguém recebe assim que progride….

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  5. E sobre o trabalho desenvolvido pelas Escolas Superiores de Educação, nada a dizer?
    Tenho um testemunho muito próximo, que andou por lá durante dois anos. Como era da área das humanidades, gostava de ler e sabia escrever, passou o tempo a ser redigir e rever os trabalhos, que eram quase sempre em grupo. Havia colegas que davam vários erros na mesma frase e não sabiam articular um texto, mas os professores não davam por isso. Hoje, devem estar a ensinar meninos a ler e a escrever.
    Por outro lado, ia à espera de rever e aprender a ensinar matemática, o que não aconteceu.
    O que aconteceu algumas vezes foi passar aulas, em grupo, a fazer traduções para o doutoramento do professor da cadeira…

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  6. Republicou isto em Primeiro Ciclo and commented:
    Para facilitar, no próximo ano lectivo, talvez pela primeira vez de forma explícita, muit@s professor@s serão activamente empurrad@s para baixas médicas, mal digam que têm qualquer factor de risco ou familiares nessa situação. Pelo que se percebeu, a ideia é afastar o maior número de docentes com receio de contágio para a situação de atestado, enquanto se promete vagamente pela enésima vez, que poderá existir um regime antecipado de reformas que apenas levará um mínimo de 50% do rendimento liquido.

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  7. Os professores querem-se estúpidos, para serem facilmente governáveis. Esta é a ideologia socialista que começou com a MLR e que agora colhe os seus frutos com as professoras Isas dos preços certos. Conseguiram os seus intentos. Quem quiser educação a sério vai ter de a pagar, para gáudio de (alguns) privados.

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  8. Muito bom este pouco mais que uma opinião.
    Esperem o que espera aos optimistas de espírito leve e consciência limpa pelo fazer o que se pode com o que tem…

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