Há Sempre Uma Primeira Vez

As minhas férias começam oficialmente, salvo erro, amanhã. Mas hoje já é dia de “férias”, até porque entreguei ontem o resultado de um compromisso contratual extra-escolar e sinto-me assim como que liberto de obrigações.

Em muitos anos, apesar das contrariedades e da falta de vontade nascida de tudo o que temos aguentado ao longo destes últimos 12-15 anos, sempre disse e escrevi que saberiam onde me encontrar a 1 de Setembro: na minha escola, a preparar o novo ano lectivo com as minhas turmas.

Pela primeira vez, assumo, sem hipocrisias ou discursos enjoativos de tão politicamente correctos, que não me apetece minimamente voltar a 1 de Setembro ou, na pior das hipóteses, arrancar com um novo ano ali a meio de Setembro, para fingirmos que está a tudo “normal”.

Pela primeira vez, a acumulação de sacanices a várias escalas é capaz de ter conseguido ultrapassar o que é aceitável em quem tenta levar isto a sério e que, por mais críticas que se façam, faz o melhor que sabe e lhe deixam no seu trabalho com os alunos.

E não não hesito na expressão “sacanice a várias escalas” nem não terei problemas nenhuns em justificar, demonstrando, o que afirmo nesta ou aquela instância, mais superior ou inferior.

Liberto da continuidade de trabalho com qualquer turma, não sinto nenhuma razão para fingir que tenho uma motivação especial para iniciar um ano que, por vários motivos e algumas indecências, se apresenta como o que deve cristalizar o poder de uma mediocridade mal envernizada e com as cabeças rapadas por dentro.

Só posso desejar que Agosto corra bem e que me atenue aquele ânimo que nunca perdi de confrontar, de modo explícito, a falta de dignidade e os abusos de poder disfarçados com a legitimidade mal amanhada de quem pensa ter atingido estatuto de inimputabilidade. E que se lixe quem enfiar o barrete porque, a bem dizer, se calhar serve-lhe mesmo à medida.

E eu nunca gostei de virar a cara a uma guerra que ache justa, tenha ou não grandes probabilidades de a ganhar.Alcatrao

(mas que fique bem claro que qualquer tentativa de “empurrão” acaba com a aplicação da 3ª lei de Newton…)

 

12 thoughts on “Há Sempre Uma Primeira Vez

  1. Ano após ano, Paulo Guinote escreve de forma profundamente informada, corajosa e independente, sobre temas onde grassam a ignorância (instalada e encartada), má fé e o oportunismo.
    Conquistou o seu lugar, com mérito próprio, numa comunicação social empobrecida, tantas vezes hostil, e sempre pronta a amplificar a voz do dono do momento. Que o faça a expensas do seu tempo livre é de uma generosidade que (me) é imperioso enaltecer.

    Muito obrigado.

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  2. Paulo, como te entendo… Desejo-te o melhor! Mesmo. Muitas vezes te agradeço, mas todas as vezes são poucas. Desejo-te um merecido descanso e desejo que regresses, pois pessoas como tu são raras e preciosas de mais para se perderem. A Educação fica, cada vez, mais pobre! Tudo de bom.

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  3. Know the feeling! Atingi esse ponto há um par de anos e foi mesmo “o poder de uma mediocridade mal envernizada” que se tornou insuportável! Felizmente consegui mudar e posso assegurar que as mudanças fazem-nos muito bem. Que tudo corra como merece e, entretanto, bom descanso.

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  4. Acompanho-o há anos. Todos os dias aqui venho e noto em si , de ano para ano e , em especial, neste reinado dos Costas, uma impaciência, um rosnar mais alto e a vontade de ir embora. Seremos da mesma geração, tenho quase a certeza, e estou tão farta de refilar e tem mesmo de ser, cada vez mais!, que infelizmente o cansaço, o esmorecimento e o desalento estão a prevalecer. Por mim, dessem-me reforma antecipada justa (são 33 de serviço como mais outros ,poucos anos em outros empregos que não de professora, e dá 38 anos a trabalhar desde os 18), aos 40 e eu ia embora. A vida é cada vez mais do que isto, e não sei em que estado chegaremos aos 66 e seis meses que, nessa altura já serão, et pour cause, 68 ou do que se lembrarem. Sabe, faz-me companhia , faz-me ver que não estou a exagera na raiva de alguns dias, e faz-me ver que já poucos são os que sabem escrever, reflectir, argumentar, ter opiniões fundamentadas e outros saberes. Obrigada.

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  5. «Liberto da continuidade de trabalho com qualquer turma, não sinto nenhuma razão para fingir que tenho uma motivação especial para iniciar um ano que, por vários motivos e algumas indecências, se apresenta como o que deve cristalizar o poder de uma mediocridade mal envernizada e com as cabeças rapadas por dentro.»

    Este parágrafo a minha circunstância atual. Obrigado.

    Já agora: Não terei a cabeça rapada por dentro, mas estou careca por fora e sinto-me cada vez mais seco.

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