A Polémica Em Torno Da Disciplina De Cidadania E Desenvolvimento

(texto para levar pancada de muita gente, mas que é mais a sério do que pode parecer aos apressados do politicamente correcto e seus adversários…)

Não tenho escrito sobre o assunto, porque acho que, em termos técnicos e “científicos”, a polémica se tem caracterizado pelo que se pode classificar como “parvoíce” com uma fortíssima base ideológica.

Em dois pontos eu esclareço a minha posição acerca da coisa em si:

  1. Sou favorável à abordagem na escola, de modo efectivamente transversal e principalmente através dos exemplos da prática da vida quotidiana, de alguns dos temas mais polémicos que despertam a fúria a alguns encarregados de educação e a alguns jarretas políticos.
  2. Acho que esses temas não devem ser leccionados de forma doutrinária e com uma avaliação formal numa disciplina equivalente à Matemática, História ou Inglês, mas sim de uma forma que fuja ao tradicionalismo da opção encontrada.

Dito isto… parece que fico naquela terra de ninguém que poucos aprovam, porque acho que a disciplina é um acrescento curricular sem grande sentido, nascida de uma espécie de capricho de quem pode decidir estas coisas e desenhar o currículo à medida do seu politicamente correcto, mas não me choca que se abordem na escola pública temas como a tolerância, a diversidade religiosa ou mesmo a identidade de género, em especial a partir do 2º ou 3º ciclo, discordando das teses da “lavagem ao cérebro”, porque, tirando algumas criaturas dogmáticas que até podem escrever na comunicação social, mas raramente dão aulas, a generalidade dos professores que lecciona a disciplina desde que foi inventada (como eu) optam por uma abordagem sensata dos temas. A menos que seja aquela partir da Educação Financeira, que me faz rir mesmo muito.

Mas esta terra de ninguém é onde está essa maioria dos docentes que leccionam a disciplina e que ficam calados perante um conflito que não existiu no tempo próprio e apenas surgiu porque um governante decidiu meter a colher onde não devia, tomando uma decisão que, não sendo formalmente peixe nem carne, deu origem a que se criasse uma espécie de situação de “delito de opinião” e um encarregado de educação se apresentasse como “mártir” do politicamente correcto, quando o que esteve em causa foi o chumbo administrativo de dois alunos com uma fundamentação que nunca vi usada para qualquer outra disciplina.

A realidade conhecida por pais e professores é que, como ou sem “objecção de consciência” há alunos que faltam que se fartam a disciplinas de que não gostam e, no fim, se tiverem as “positivas” necessárias para transitarem no Ensino Básico, não ficam retidos, porque o enquadramento legal é que essa é uma situação de excepção. Um aluno “chumba” a uma disciplina (ou duas) e passa sem problemas. Pode ser História, pode ser Inglês, até pode ser a sacrossanta Matemática e ninguém recorre e mete governantes à mistura, com despachos ambíguos que dão cobertura a tudo e o seu contrário.

O que significa que a disputa em presença surge de forma tardia e pelos piores motivos, envolvendo gente que nunca se dignou discutir o assunto até atingir um elemento da “sua” clique ideológica ou provocar manifestos contra a “sua” disciplina. E agora surgem por aí as mais inflamadas posições, raras vezes com fundamentação que quem lecciona a disciplina como eu reconhece como vagamente ajustada ao que se passa nas aulas.

A aprendizagem da Cidadania é um imperativo? Sim, claro, e faz mesmo muita falta desde tenra idade.

A Cidadania tem uma definição unívoca e doutrinária? Não deveria, porque isso quase é uma contradição nos seus termos.

A polémica em decurso é mesmo sobre “Cidadania e Desenvolvimento”? Não, de forma alguma, é quase em exclusivo sobre um ou dois dos seus conteúdos programáticos mais “fracturantes”.

Quem se tem pronunciado sobre a questão tem motivações de natureza cívica ou pedagógica? De modo algum, limitam-se a (re)agir de acordo com a sua agenda política e os seus credos religiosos e ou ideológicos.

Pessoalmente, tenho reservas em relação à criação de disciplinas do tipo doutrinário, com conteúdos ajustados aos interesses e crenças deste um aquele grupo dominante na governação da Educação. Mas acho que a Escola é um local para a formação dos futuros cidadãos, em especial quanto a valores como a Democracia e a Tolerância. Que devem ser transmitidos em especial a partir do exemplo e da sua vivência quotidiana.

O que me incomoda mesmo é que as Escolas tenham deixado de ser, nessa vivência quotidiana, espaços de Democracia e Tolerância e que acerca disso quase ninguém se indigne. Dos dois lados desta polémica repleta de hipocrisias.

 

 

13 thoughts on “A Polémica Em Torno Da Disciplina De Cidadania E Desenvolvimento

  1. Ai ,ai … lá se conseguem mais umas horas / mais uns horários para alguns cromos.
    Falta muito ” bom senso ” !
    Situações que podem / devem ser abordadas por qualquer professor ( quando ocorrer um problema ).
    E sim , só tem sentido uma Escola que defenda a Democracia / Tolerância entre todos na sua vivência quotidiana .
    Fartote de hipocrisias.
    Fartote !!!!

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  2. Concordo, genericamente, consigo.

    Por exemplo, a ‘Farsa de Inês Pereira’ (paralelamente a outra tipologia textual) presta-se lindamente para falar da igualdade de género, da violência doméstica, do abuso/violência sexual, etc., etc., etc. É só um exemplo de como é possível abordar nas diferentes disciplinas muitos dos assuntos inscritos na CD, sem andar a massacrar os alunos com mais uma disciplina, e articulando os conteúdos daquelas com a atualidade.

    Mas posso estar a ver isto mal e a pensar e dizer disparates.

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    1. Discordo da análise muito superficial que ela faz do programa de História.
      Concordo com a hipocrisia de alguns “objectores de consciência”.

      Discordo, em resumo, que ela ache que tem de escrever sobre um assunto do qual só parece perceber a parte política.
      Concordo que tem direito à opinião dela.

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      1. Boa noite
        se há hipocrisia ou não nos tais objectores de consciência isso é um problema dessas pessoas. Afinal de contas todos nós somos hipócritas de alguma forma em alguma coisa, e os governos ainda mais hipócritas são. E a Joana Mortágua a falar de direitos humanos é mesmo para rir sobretudo quando defende ideologias políticas que enfim,,,
        A questão é que a escola está a tornar-se numa espécie de saco de gatos. Um empresário acha que se deve dar empreendedorismo, um jornalista que se deve educar para os media, um defensor dos animais para o bem estar animal, um vegetariano para a educação alimentar baseada em vegetais, e por aí fora…
        Quando é que a escola volta a ser um sitio normal responsável pela transmissão dos saberes e das grandes realizações da civilização? Esta é a melhor cidadania que pode haver. Quando é que o director de turma deixa de ser bombardeado por burocracia e tem tempo para tratar da sua direcção de turma com os próprios alunos? Isto sim é cidadania.
        Quando a escola se torna responsável por tudo e por nada estamos a dizer que os pais afinal de contas não se devem preocupar pela educação dos seus filhos e portanto nós é que temos que ser professores, pais, psicólogos, funcionários de secretaria e qualquer dia responsáveis pela limpeza das escolas. Há melhor forma de cidadania que incutir nos alunos a responsabilidade pelo estudo, pela assiduidade, pela progressão, pela disciplina e etc.?
        Cidadania e Desenvolvimento é mais uma coisa para preencher horários incompletos, mais uma coisa para preencher os horários já de si insuportáveis das alunos que estão na escola desde as 8h até às 6h, chegando a casa já cansados e exaustos e sem tempo nem vontade para estudar.
        A obrigatoriedade ou não dessa disciplina não é uma luta entre conservadores e progressistas mas entre quem considera que é soberano de si mesmo e da sua liberdade e quem ache que a liberdade é uma concessão do estado. Aprendam a ser livres já que em Portugal as pessoas tem medo de ser livres. Eduquem os vossos filhos e arranjem tempo para eles, pois esse é verdadeiramente o problema do insucesso escolar, isto é, a ausência de tempo e de diálogo entre pais e filhos.
        Aquele pai que se insurgiu contra a prepotência de um secretário de estado não só cometeu um acto de liberdade como também de libertação. Tem seis filhos e todos com excelentes notas. Além disso ainda estudam música e frequentam por opção Educação Visual. Acham por acaso que este pai é negligente? Se ele tem teias de aranha na cabeça como já vi escrito isso é um problema dele. Cada um que viva a sua vida em paz e deixe os outros viver a deles. Parece que o povo português adora a estatização a sociedade. Até gosta de se deitar com o Estado sendo este meio caminho andado para a impotência. O estado adora cidadãos impotentes.
        Dantes a aprendizagem fazia- se na escola mas também na vida com os amigos. Havia coisas que nem aos nossos pais contávamos. Agora nem tempo para brincar se tem e ainda querem massacrar mais as cabeças com não sei quantas mais disciplinas. Ainda por cima Cidadania e Desenvolvimento é uma inutilidade. Por acaso não se dão as tais alterações climáticas na disciplina de Geografia? ou a igualdade das mulheres quando se dá o movimento sufragista em História? e por aí fora.
        A escola não pode absorver a vida por inteiro e não podemos achar que a escola tem que ser uma espécie de bulldozer que serve para aplanar o caminho aos alunos de modo a que não venham a ter qualquer obstáculo. A vida não é assim. E ainda bem.Num dia caímos e no outro levantamo-nos. E que cada um cresça em liberdade e se possível na companhia dos pais e restante família. Assumam o papel de educadores dos vossos filhos.
        Cumprimentos

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  3. Concordo consigo. Deveria ser transversal, fazendo parte, de acordo com cada tema, do/s programa/s da/s respetiva/s disciplina/s. Não seria, portanto, necessário ser uma disciplina que, inevitavelmente, retira tempo curricular de outras.

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  4. A avaliar pelos resumos biobliográficos dos autores deste programa, cidadania e igualdade de género são uma e a mesma coisa.
    Não leciono esta maravilhosa (também nunca usei calções verdes e camisa caqui…) mas a apreciar alguns documentos de trabalho que circulam por aí, confesso que às vezes me apetecia muito ser uma mosquinha para assistir a uma aula destas dada a ciganitos, a muçulmanos, a evangélicos…

    Tudo doido.

    Por outro lado (e muito politicamente incorreto da minha parte…), omal já está feito e já deixámos que muita gente fosse portuguesa sem gostar do nosso País, nem dos portugueses, nem da nossa História, nem da nossa cultura.
    Assim, se se assume que o nosso país é multicultural, façamos como muitos outros e ensine-se ao menos o primado da Lei na relação entre as pessoas… Já não seria nada pouco.

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  5. Serei o único a achar que toda esta ridícula polémica sobre a disciplina de CD se está a tornar uma autêntica ópera bufa (ou telenovela mexicana…), dada a maneira como, tanto os PRÓS como os CONTRAS, discutem acesamente esta disciplina (como se dela dependesse o futuro da Humanidade)?
    Na minha modesta opinião, ninguém sai bem neste “retrato”. E por uma razão simples: no meio de toda esta palhaçada onde é que fica aquela coisa abstrata (que costuma ser muita falada nos programas da manhã, naquela parte final dedicada aos crimes nefandos) que se chama “O SUPERIOR INTERESSE DA CRIANÇA”?
    Os pais dos dois garotos de Famalicão pensaram no “superior interesse da criança” quando fizeram esta birra, sabendo que os filhos corriam o risco de reprovar?
    O SE Costa pensou no “superior interesse da criança” quando “exarou” aquele despacho (ou coisa que o valha) que, ao fim e ao cabo, tanto podia querer dizer uma coisa como o seu contrário? Ainda por cima sabendo todos nós a maneira como tantos alunos transitam em certas escolas – mesmo que faltem a todas a disciplinas, se recusem a cumprir as medidas de recuperação e integração e se comportem de maneira mais execranda – ao “abrigo” daquele artigo no Estatuto do Aluno que refere que a retenção é uma situação extraordinária e que deve ser muito bem ponderada.
    Eu não consigo entender a razão de tamanho terror perante questões como a sexualidade, igualdade de género, violência no namoro e orientação sexual. Até parece que, para alguns (100, pelo menos…), só por mencionar estes temas toda a gente se tornará subitamente doida, desavergonhada e depravada e desatará a participar compulsivamente em orgias, parafilias, filmes pornográficos e o catano (esta do catano não tem segundo sentido).
    A meu ver é preferível que uma criança esteja devidamente informada sobre certas realidades (com as quais, mais cedo ou mais tarde, terá de contactar) do que ser mantida numa espécie de casulo protetor que não terá qualquer utilidade prática e até poderá ser contraproducente. A não ser que a razão para o suposto terror que, por exemplo, a menção da orientação sexual e violência doméstica inspiram esteja mais relacionada com o facto de o nº de “alvos legítimos” para certas “sacanices” se estar a tornar cada vez mais reduzido…
    Mas contudo, a meu ver, o SE Costa e aquelas luminárias do ME são os mais culpados, pois – conhecendo perfeitamente a mentalidade (supostamente) “tolerante” do país em que vivem – resolveram introduzir os tais temas fraturantes da sexualidade, igualdade de género, orientação sexual e mais não sei quê, assim sem mais nem ontem e – pior ainda – sem diretivas claras (como já é costume, deixando os conselhos de turma e diretores de escolas com a batata quente nas mãos), só para poderem “deixar a sua marca histórica” e darem uma de modernos e europeístas da CEE.

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    1. Exactamente, concordo parcialmente consigo. Mas o Estado não pode achar que os pais são incompetentes para educar os seus próprios filhos. E afinal que competência têm os professores? Um professor de História tem de ser licenciado em História, o de Biologia em Biologia, e por aí fora. E o que dá Cidadania e Desenvolvimento? Hoje em dia considera-se que todos sabem de tudo.
      Além do mais a questão não se resume apenas à parte da sexualidade. Mas também está lá o bem estar animal, empreendedorismo, o multi-culturalismo, etc. Ou seja tudo o que é do Politicamente Correcto.
      Há coisas bem mais graves a acontecer: violência nas escolas entre alunos e alunos para com os professores, etc. Mas desses temas o ministério não quer tratar. Quanto ao tal pai ele tem o direito que lhe assiste de ser pai e ponto final. Se eu concordo ou não com ele isso é outra questão. Mas ele está a exercer o seu direito. E ao que parece os filhos até são excelentes alunos e bastante activos na participação nas aulas. E estudam música.
      Quanto à questão da sexualidade as pessoas que sigam aquilo que a mãe natureza lhes proporcionou. A humanidade já tem milhares de anos e não precisou de intelectualizar tanto. Parece que estamos a querer fabricar uma espécie de “cidadão ideal”. Enfim
      Desculpe a minha intromissão

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  6. O Paulo já noutro post se tinha referido a esta prática:
    “há alunos que faltam que se fartam a disciplinas de que não gostam e, no fim, se tiverem as “positivas” necessárias para transitarem no Ensino Básico, não ficam retidos, porque o enquadramento legal é que essa é uma situação de excepção. ” – o estatuto do aluno não é aplicado? E por decisão do DT/CT ou da Direção? Sou só eu a achar isto estranho???

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