A Impossibilidade De Um Debate (A) Sério

A “polémica” em torno da disciplina de Cidadania e Desenvolvimento alastra, mas não melhora. A razão para isso, para além do atraso com que se faz e da hipocrisia reinante (ao ponto de enviar uma versão do post do outro dia para o Público), começa a deslocar-se para duas situações expectáveis, mas que nada contribuem para qualquer esclarecimento da opinião pública.

  1. A questão passou a ser apresentada como um conflito de “Direita/Esquerda”, com este ou aquele trânsfuga. O pessoal de “Esquerda” considera que a disciplina é imprescindível ao currículo da petizada, porque divulga os “valores da Democracia” (menos a verdadeira tolerância, pelo que se vai entendendo) e quem está contra ela, está contra os valores da sociedade do século XXI; da referida Democracia e é uma espécie de cripto-fascista, um beato clerical digno da Idade Média e, no fundo, uma besta. Embora estas classificações se apliquem a alguns defensores da posição em causa, parece-me “ligeiramente” excessivo”. De forma simétrica, os críticos da disciplina, apresentam-ma como se os temas estivesse na origem do declínio da sociedade ocidental, da instituição familiar e do sagrado binómio biológico que permite a reprodução da espécie e as boas maneiras no leito, considerando que quem admite que se leccionem temas como a “identidade de género” ou a “sexualidade” são um grupo de homo-lesbo-pansexuais com tendências para a bestialidade e uns “radicais” que querem transformar transformar as criancinhas numa espécie de ratinhos de laboratório de experiências socio-sexuais que as tornarão todas homossexuais ou, pior, hetero tolerantes ao conceito de “espectro” na definição das identidades e  atitudes sexuais/de género. Como no outro caso, lá haverá gente assim (que a há), mas não me parece que isso se aplique à generalidade dos docentes da disciplina. Já agora, as linhas orientadoras para a Educação para a Cidadania, que contempla a generalidade dos temas que agora levantam celeuma, são de 2012, revistas em 2013. Que, por exemplo, Passos Coelho, não saiba que foram aprovadas no seu governo, é apenas um detalhe que não admira acontecer a quem parece ter levado o cérebro lavado em rotações máximas.
  2. O debate começa a ser monopolizado por pessoal que alia a ignorância à arrogância, mas depois larga “postas de pescada” (de um lado ou outro) como se fossem pérolas ao povo que não passam de falsidades ou verdades pela metade da metade. Um caso, que vi por manifesta inépcia quando me sentei hoje no sofá em busca do final da etapa do Tour na televisão, foi o de um dos especialistas instantâneos em tudo e ainda o seu contrário que têm assento n’O Eixo do Mal, o programa mais bronco entre os que se levam a sério na análise da actualidade. O protagonista em causa era o inefável Pedro Marques Lopes, uma espécie de gajo de direita com gostos de esquerda (como o Pedro Mexia, mas em péssimo), que começou por afirmar que se tinha ido informar sobre os conteúdos da disciplina (tadinho, só agora se lembrou disso?), que achou por bem enumerar. Claro que os enumerou de forma errada e incompleta (esqueceu-se, por exemplo, talvez de modo cirúrgico, da “Literacia Financeira” na sua listagem) e daí partiu para uma “análise” que envergonharia qualquer pessoa com um mínimo de pudor e forma de ganhar a vida que não competisse com a Clara Ferreira Alves na ignorância presumida. Mas há quem possa achar que aquilo é mesmo assim e que, como ele disse, a História está repleta de temas obrigatórios de que se pode discordar como (pasme-se!!!) a leitura dos Esteiros. Que ele disse, de forma irónica, que poderia levantar reservas porque é do tempo do neo-realismo e que pode cheirar a “comuna” e tal. E só foi interrompido em tamanho disparate, pela colega CFA, não para lhe dizer que estava errado e que os Esteiros não são de leitura obrigatório, nem em Português, mas apenas para dizer que a obra em causa até é das melhores da corrente neo-realista.

Antes que devolvesse ao exterior o peixinho grelhado do almoço, desliguei e procurei não fazer a promessa de ir de joelhos a Fátima até n’O Eixo do Mal se deixar de confundir “opinião” ou “bocas giras” com o mais absoluto disparate, servido a gosto de um elenco de ignorantes armados de uma quase infinita pesporrência, garantinda por avença balsemânica.

Assim, é impossível qualquer debate vagamente racional sobre um tema já se si complicado. Mas como é na televisão que apresentou uma montagem mal amanhada da 1ª página do New York Times como se fosse real, já não espanta.

2 thoughts on “A Impossibilidade De Um Debate (A) Sério

  1. Muito “interessante”, como dizem os políticos.

    Haverá alguma assinatura de um professor sequer? Posso apostar que não.

    Os subscritores (de um lado e de outro) não querem saber da escola. Nunca se interessaram ou interessam pela escola. Verdadeiramente, digo. Isto que vemos é só política. Vazia.

    Onde está esta gente quando há indisciplina e violência na escola?
    Onde está esta gente quando temos salas a abarrotar e alunos encaixotados numa escola mais de 12 horas seguidas?!
    Onde está esta gente quando temos pais irresponsáveis que não acompanham a educação dos filhos e não ouvem a escola, mas são os primeiros a achincalha-la?
    Onde está esta gente quando os professores são enxovalhados, roubados, espoliados na praça pública pelo próprio estado?

    Não está.

    Aparecem agora porquê? Têm estado a dormir?

    Cínicos. Hipócritas.

    Liked by 1 person

  2. Concordo plenamente. O contra-manifesto é tão inoportuno como o primeiro. Sobre esta matéria, agora, o silêncio é a melhor forma de sobreviver ao ruído.

    Olhando para trás, a necessidade de criar a disciplina não foi mais do que uma evidência de um vazio ético que se foi o instalando devagarinho. Atafulhou-se a escola de tanta coisa que tinha de dar nisto. A última é a do combate à corrupção… Talvez seja “preciso mudar para que tudo fique na mesma”…

    Para que serve afinal o parlamento? Para que serve a escola?

    Tempos complexos estes, em que o “caldo” se agita e, se não houver cuidado, qualquer dia se entorna. A quem interessará? Uns não querem isto, outros não querem aquilo e tudo parece ser pretexto para uma guerra de alecrim e manjerona, pobre de argumentos e com muito fogo de artifício. O problema é que um dia destes o povo se cansa, as condições económicas jogam a favor do caos e as redes sociais oferecem o rastilho perfeito para dar as boas-vindas a um novo António Ferro, disposto, tal como ele, a cumprir o mesmo propósito a favor de uma qualquer personagem messiânica: “Convenceremos o povo, a pouco e pouco, de que pensamos nele, de que a sua felicidade e o seu bem-estar constituem uma das nossas maiores preocupações” (Orlando Raimundo, “António Ferro: O Inventor do Salazarismo”, pp. 11-12). O perigo é que não faltam candidatos…

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.