O ‘360’ De Ontem

Está aqui.

Houve algum tempo para falar, mas é impossível, em 10-15 minutos de tempo útil por participante falar de tudo de forma desenvolvida. Em especial, quando não se vai com cassete e se tenta falar/responder ao que é questionado em vez de despejar chavões. Do que ficou por “picar” só gostaria de destacar a parte em que Nuno Crato sublinha que entre 2006 e 2015 se terão desenvolvido políticas que levaram à melhoria dos resultados dos alunos portugueses (a tal obsessão pelo PISA). Duas notas:

  • Os progressos são anteriores a 2006 e os de 2009 já foram analisados, com bastante reserva, em estudos sobre a amostra usada.
  • Em 2007, 2009 ou mesmo 2011, Nuno Crato não se declarava adepto das políticas desenvolvidas pelos governos de então. Eu lembro-me.

Que Fique Claro…

… que estou consciente de que há imensa gente a dar o seu melhor na preparação das escolas para o regresso na próxima semana. Tant@s colegas que merecem todos os elogios pela dedicação, preocupação e trabalho inestimável.

Mas há dois reparos que gostaria de fazer, um no cravo, outro na ferradura.

  • Em alguns casos, as condições e circunstâncias impedem que o melhor seja suficiente para ultrapassar os problemas como eu, como professor, já experimentei na pele, O meu melhor não chegou. E segui em frente, porque a vida profissional é mesmo assim. Nem sempre conseguimos. E há que lidar com isso e aprender. Esta situação de pandemia é um desafio inédito e há que ter essa consciência e a humildade de perceber que nem sempre se acerta, por muito que se queira.
  • Em outros casos, espero que em menor quantidade pelo país, o melhor não chega porque, infelizmente, nem em situações normais daria, por falta de consciência das próprias limitações. Este é o tipo de situação que sempre procurei evitar, não me metendo em algo para que não tivesse a necessária capacidade. Só que nem toda a gente pensa assim e não raro há quem se sinta a salvação única personificada. E seja incapaz de admitir o erro por manifesta falta de humildade.

Uma Questão De Perspectiva (E Estratégia)

Compreendo quem tenha uma forma diferente de encarar a discussão em torno do reinício das aulas presenciais para todos os níveis de ensino. Mas considero um erro estratégico centrar a discussão em questões relacionadas com os professores e o seu papel no eventual sucesso (ou não) desta “reabertura”. Não é que as questões sejam de importância menor, longe disso, mas colocá-las no centro do debate tornam, mais uma vez, a classe docente como um alvo fácil de muita opinião publicada e de todos aqueles que seguem a “narrativa” do poder de que “tudo está a ser feito” para que todos estejamos em segurança. Ficamos como uma espécie de sitting ducks à espera de levar mais uma saraivada de impropérios que, no seus melhores momentos, nos fazem passar por “egoístas”. Sim, há problemas graves, a começar pela forma como a lei é retorcida a gosto de governantes ocasionais que mandam os outros para diante, mas depois só comparecem em modo “virtual”. Sim, a situação dos colegas “de risco” é crucial e acreditem que não a desconheço, muito pelo contrário. Mas se há algo que deveríamos ter aprendido ao longo dos últimos 15 anos é que colocar-nos no centro de uma discussão deste tipo equivale a oferecer, em bandeira prateada, o “bode expiatório” ideal para os poderes centrais e locais se desculparem se alguma coisa descarrilar.

Assim como colocar o “envelhecimento da classe docente” em quase todos os debates, sem explicar que a culpa do “envelhecimento” resulta de políticas, com rostos conhecidos, parece dar a entender que somos nós que envelhecemos de propósito para lixar as coisas. Parece ridículo? Pois… mas o discurso sobre os “velhos” que pouco ou nada fazem parte tanta vez de “dentro”, como se houvesse por aí muitos peter pans.

Desculpem-me se, há já algum tempo, considero mais útil uma abordagem que exponha menos o flanco, o peito e tudo o mais às balas. Sou também encarregado de educação e os meus receios são tantos ou mais nessa qualidade como os de professor ou marido de professora e deveríamos saber usar isso em termos de comunicação pública. Demonstrar que é falso o discurso do “tudo está a ser feito” porque é efectivamente falso e explicar porquê.

Eu sei que é tentador, do ponto de vista de algumas organizações, apresentar um número gordo de professores que irão colocar baixa (eu até acho que serão mais…), só que isso soa a ameaça e o ricochete, no actual contexto, pode ser muito negativo. A experiência demonstra que a fala grossa de alguns não tem servido de grande coisa e em vários momentos ficaram a clamar depois do barrete enfiado até aos pés.

Quando o representante das “famílias” alinha, de forma nem sempre muito hábil, no discurso do poder que lhe dá a mão, é nossa missão como professores explicar tudo o que está mal. Não apenas connosco. Com clareza, objectividade, exemplos. E transmitir que o discurso “positivo” de hoje (como em Março) não passa de uma encenação que pouco tempo depois se revela não ter fundamentação. E que pode ser de uma enorme irresponsabilidade.

Se deve ser travado um combate pelo respeito dos direitos laborais dos professores em situação de maior vulnerabilidade nesta pandemia? Claro que sim, desde logo junto do Provedor, expondo a dualidade de critérios existente aos docentes (não poderiam em tele-trabalho os professores assegurar muitas das tarefas relacionadas com a preparação da passagem ao ensino misto ou não-presencial?) e nos Tribunais, sempre que se possa demonstrar o desrespeito flagrante pelas regras da D.G.S.