Uma Questão De Perspectiva (E Estratégia)

Compreendo quem tenha uma forma diferente de encarar a discussão em torno do reinício das aulas presenciais para todos os níveis de ensino. Mas considero um erro estratégico centrar a discussão em questões relacionadas com os professores e o seu papel no eventual sucesso (ou não) desta “reabertura”. Não é que as questões sejam de importância menor, longe disso, mas colocá-las no centro do debate tornam, mais uma vez, a classe docente como um alvo fácil de muita opinião publicada e de todos aqueles que seguem a “narrativa” do poder de que “tudo está a ser feito” para que todos estejamos em segurança. Ficamos como uma espécie de sitting ducks à espera de levar mais uma saraivada de impropérios que, no seus melhores momentos, nos fazem passar por “egoístas”. Sim, há problemas graves, a começar pela forma como a lei é retorcida a gosto de governantes ocasionais que mandam os outros para diante, mas depois só comparecem em modo “virtual”. Sim, a situação dos colegas “de risco” é crucial e acreditem que não a desconheço, muito pelo contrário. Mas se há algo que deveríamos ter aprendido ao longo dos últimos 15 anos é que colocar-nos no centro de uma discussão deste tipo equivale a oferecer, em bandeira prateada, o “bode expiatório” ideal para os poderes centrais e locais se desculparem se alguma coisa descarrilar.

Assim como colocar o “envelhecimento da classe docente” em quase todos os debates, sem explicar que a culpa do “envelhecimento” resulta de políticas, com rostos conhecidos, parece dar a entender que somos nós que envelhecemos de propósito para lixar as coisas. Parece ridículo? Pois… mas o discurso sobre os “velhos” que pouco ou nada fazem parte tanta vez de “dentro”, como se houvesse por aí muitos peter pans.

Desculpem-me se, há já algum tempo, considero mais útil uma abordagem que exponha menos o flanco, o peito e tudo o mais às balas. Sou também encarregado de educação e os meus receios são tantos ou mais nessa qualidade como os de professor ou marido de professora e deveríamos saber usar isso em termos de comunicação pública. Demonstrar que é falso o discurso do “tudo está a ser feito” porque é efectivamente falso e explicar porquê.

Eu sei que é tentador, do ponto de vista de algumas organizações, apresentar um número gordo de professores que irão colocar baixa (eu até acho que serão mais…), só que isso soa a ameaça e o ricochete, no actual contexto, pode ser muito negativo. A experiência demonstra que a fala grossa de alguns não tem servido de grande coisa e em vários momentos ficaram a clamar depois do barrete enfiado até aos pés.

Quando o representante das “famílias” alinha, de forma nem sempre muito hábil, no discurso do poder que lhe dá a mão, é nossa missão como professores explicar tudo o que está mal. Não apenas connosco. Com clareza, objectividade, exemplos. E transmitir que o discurso “positivo” de hoje (como em Março) não passa de uma encenação que pouco tempo depois se revela não ter fundamentação. E que pode ser de uma enorme irresponsabilidade.

Se deve ser travado um combate pelo respeito dos direitos laborais dos professores em situação de maior vulnerabilidade nesta pandemia? Claro que sim, desde logo junto do Provedor, expondo a dualidade de critérios existente aos docentes (não poderiam em tele-trabalho os professores assegurar muitas das tarefas relacionadas com a preparação da passagem ao ensino misto ou não-presencial?) e nos Tribunais, sempre que se possa demonstrar o desrespeito flagrante pelas regras da D.G.S.

4 thoughts on “Uma Questão De Perspectiva (E Estratégia)

  1. Percebi o teu raciocínio e, dadas as circunstancias verificadas, penso que tiveste razão em falar como falaste. Lamento que os nossos sindicatos se sujeitem mais a estratégias político partidárias do que à defesa dos seus associados (compreensivelmente, cada vez em menor número…).
    Se é certo que o sindicalismo a la STOP é arriscado, também é certo que me parece que é franca a sua vontade de lutar pelos interesses dos professores.

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    1. É um espaço que lhes resta, mas é estreito. Porque, infelizmente, começo a ver muita gente acomodada com uma ou duas subidas de escalão, esquecendo-se de tudo o mais que foi tirado.
      Há muita gente muito contentinha com o regresso e não é por causa dos alunos.
      Um tema a desenvolver noutro dia. Sobre certos vazios existenciais de quem, fora dos lugarzinhos da hierarquia local, não tem vida própria.

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