Ter Ou Não Ter Medo, É Essa A Questão?

Não me parece que o “medo” do vírus seja o medo que mais tolhe a sociedade neste momento, a sério que não. Por estranho que pareça, acho que o maior medo é o dos governantes (e alguns outros políticos) de ficarem expostos às consequências dos seus erros de avaliação, entre o cálculo político e aquilo que deve ser feito, independentemente de ganhos/perdas nas eleições. Há quem chute para o lado (Rui Rio a querer “deslocalizar” o Tribunal Constitucional é daquelas questões típicas de quem está para além de Plutão) e há quem venda o “medo” da paragem da economia.

E se querem que vos diga . em especial aos teorizadores do “medo do vírus” – que o discurso do “medo da economia parar” tem sido uma narrativa bem mais poderosa e espalhada de forma deliberada. Aliás, o grande problema é o efeito dessa narrativa nas pessoas (e até o notei nos alunos, no fim do ano lectivo passado) que passam a ter mais medo (bem real) de perderem o emprego, rendimentos, a sua estabilidade profissional e financeira do que medo de serem contagiados, em especial quando se sentem num grupo de baixo risco. E passam a esquecer que não é só o “eu” que está em causa.

Não me sinto particularmente receoso de contrair o vírus. Mas receio ser agente da sua transmissão, mesmo se não frequento lares de idosos, onde os seus efeitos da covid-19 são mais devastadores. Mas percebo que há quem não pense assim.

“É pá, em seis meses morreram menos de 2000 pessoas, quase tudo velhos, é assim tão grave?” é o subtexto inicial que desagua no discurso do “medo da economia parar”. O “risco” de morrerem mais umas centenas de velhotes é considerado aceitável perante as imposições da economia que não pode parar.

Claro, os “especialistas” dirão que sem a economia funcionar todos ficaremos sem emprego e tudo irá à falência e esse é um fortíssimo “discurso de medo”, mas o curioso é que há tanto nas ciências ocultas da economia que não passa de uma representação estatística da realidade. Mas é com esse discurso que se diz que 1) todos temos de ir trabalhar; 2) as escolas não podem fechar para todos irem trabalhar; 3) o risco de transmissão entre crianças e jovens é muito baixo; 4) o “risco” de morbilidade é baixo para a maioria da população, mesmo contagiada.

E eu acho que é verdade… que há efectivamente um “discurso do medo” em torno do SARS-CoV-2, mas é o “medo da economia parar” apoiado em algumas falácias e muita “ciência” económica. O meu carro quando pára, pára, não pára 10% ou mesmo 15%. Nesse caso, desacelera e nem sempre é por más razões. Pode ser para evitar um acidente.

A analogia pode não ser a melhor, mas penso que dá para perceber que o discurso do medo mais actuante há longas semanas é o do medo económico, o do medo do desemprego, da perda de direitos laborais. Um medo que se afirma só ser possível combater indo trabalhar, deixando os filhos na escola e cruzando os dedos com os avós nos lares. Indo trabalhar, nem sempre com as condições adequadas de segurança e a informação completa sobre o que pode acontecer depois, especialmente em ambientes onde passou a dominar a crença do “tudo vai acabar bem”, eu vou escapar.

Sim, existe um fortíssimo “discurso do medo”. Que não tolhe os movimentos, mas qualquer contestação, que é apresentada como “irrealista”. E não é em primeiro lugar contra os críticos do uso da máscara, porque esses também apostam no medo desse mesmo uso, das suas consequências sanitárias, sociais e políticas.  

A estes discursos do medo juntam outros “medos” mais ou menos artificiais em torno do “estado mental” das crianças ou adultos que usem a máscara durante muito tempo. Esquecendo-se que em muitas partes do mundo o seu uso já é obrigatório por causa da poluição atmosférica.

Do outro lado, apontam-se os “traumas” de quem não possam sair de dia todos os dias e socializar. E eu lembro-me do que era crescer em tempos durante os quais havia um ou dois canais de televisão, net nem imaginá-la e sair de casa para passear era evento semanal ou mensal para a maioria das famílias. Será por isso, que agora temos por aí tanta gente traumatizada por ficar uns meses com “socialização limitada”? Que raio de “resiliência” tem quem não aguenta uns meses de mobilidade e sociabilidade presencial reduzida?

Repito-me… o “discurso do medo” está aí e em força, Mas não é o “medo do vírus” e, curiosamente, acho que muitos “negacionistas” estão a ler a situação toda pelo lado errado. A máscara e o distanciamento não são estratégias de “medo”, mas, ao contrário, de transmissão de uma sensação de segurança. Para que todos possam manter a economia a funcionar.

A questão sanitária tornou-se subsidiária da económica e política. O medo dos políticos serem descobertos na sua pequenez calculista, motiva o discurso do medo económico que se sobrepõe ao medo de qualquer contágio pelo vírus. E esse discurso vai-se entranhando e cada vez se nota mais nas reacções quotidianas das pessoas.

O número de óbitos por covid-19 passou a ser relativizado tanto pelos que acham que não é verdadeiro, como pelos que acham que é um sacrifício aceitável perante as “consequências devastadoras da paragem da economia”. Para mais, até parece que quase só morrem os velhos, não é?

 

17 thoughts on “Ter Ou Não Ter Medo, É Essa A Questão?

  1. Pois mas…

    Ninguém sabe que maleitas tem dentro de si. Posso pensar que sou saudável e ter uma imunodeficiência qualquer. Seja novo ou velho.
    E o que é ser velho? Há velhos de 90 anos que nem sentiram o vírus passar por eles. É uma incerteza que só quando acontece aos nossos é que a sentimos verdadeiramente.

    Quanto ás escolas já percebi uma coisa. Só irão fechar numa situação. Quando os funcionários operacionais ficarem infetados. Alunos e Professores não fecham escolas.

    Por último só quero dizer que me dá raiva as encenações que o ME obriga as escolas a fazer em termos de higiene e segurança no trabalho. O importante não é feito. Ventilação, máscaras eficazes e desdobramento de turmas.

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  2. Do que tenho medo (para além do vírus), é da economia, que é capitalista, capitalista, capitalista, capitalista. É a economia capitalista que está por detrás da crise ambiental global e da pandemia que enfrentamos (leia-se e ouça-se o que diz o David Attenborough, por exemplo). O editorial da Ana Sá Lopes de ontem, no Público, que bem epitomiza a ideologia político-económica dominante em torno do vírus, mimetiza a argumentação dos políticos americanos em favor da aposta no petróleo, apesar da crise climática: nos dois casos, subalterniza-se a importância de todos os factores que não sejam os da “economia”. Não se diz que essa economia é a que serve os interesses de uma minoria (os milionários e restantes detentores do grande capital) e que o que é obliterado é o que serve o interesse de todos: um ambiente sustentável e condições de segurança sanitária, que possibilitam, também, um desenvolvimento económico saudável em termos globais e regionais. Se há o risco da perda de empregos com o que se chama estupidamente de “fecho da economia”, é porque é assim que as coisas se passam no capitalismo. Numa sociedade capitalista como a nossa em que ainda existe, se bem que cada vez mais erodido, estado social, o Estado é o único agente que suporta as consequências sociais dos despedimentos. E não pode empregar (e como numa crise como esta seria necessário empregar gente em massa!), embora possa apoiar empresas, mesmo que continuem a dar lucros, para não falar nas injecções se capital na banca. Os velhos podem morrer. O capitalismo é que não.

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      1. Capitalismos, há muitos. Mas têm um denominador comum, o primado do lucro, que relega todos os outros valores colectivos para milésimo plano. O comunismo e o anarquismo também são plurais, e nenhumas das formas teóricas ou históricas que se reclaramaram desses nomes nos obriga a reduzir o comunismo ou anarquismo a essas formas. O capitalismo é uma construção histórica multiforme, assim como foi o feudalismo, por exemplo. Pouco me atraem os regimes que se auto-intitularam socialistas ou comunistas. Os seus erros resultam de um desvio do espírito que os devia alimentar: a justiça social e o respeito (não apenas proclamatório ou formal, como acontece nas democracias ditas liberais) pelas liberdades individuais num modelo que assume o homem como ser intimamente relacional, e não como um mónada. Somos sujeitos da história: nem estamos condenados aos males do presente (que hipotecam qualquer futuro) sob o pretexto de que qualquer alternativa repetiria os males das experiências do passado. De qualquer modo, e talvez assim consiga encontrar um patamar de entendimento, todos os passos progressistas devem ser defendidos e dados; todos os passos que significam retrocessos devem ser denunciados e evitados. (O problema é que o capitalismo não deixa dar qualquer passo em frente. Se tentassemos nacionalizar a banca, a UE caía-nos em cima. Se tentássemos investir a sério na escola pública e no SNS, a UE caía-nos em cima. Etc.)

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      2. Para Pretor
        Capitalismos, há muitos. Mas têm um denominador comum, o primado do lucro, que relega todos os outros valores colectivos para milésimo plano. O comunismo e o anarquismo também são plurais, e nenhumas das formas teóricas ou históricas que se reclaramaram desses nomes nos obriga a reduzir o comunismo ou anarquismo a essas formas. O capitalismo é uma construção histórica multiforme, assim como foi o feudalismo, por exemplo. Pouco me atraem os regimes que se auto-intitularam socialistas ou comunistas. Os seus erros resultam de um desvio do espírito que os devia alimentar: a justiça social e o respeito (não apenas proclamatório ou formal, como acontece nas democracias ditas liberais) pelas liberdades individuais num modelo que assume o homem como ser intimamente relacional, e não como um mónada. Somos sujeitos da história: nem estamos condenados aos males do presente (que hipotecam qualquer futuro) sob o pretexto de que qualquer alternativa repetiria os males das experiências do passado. De qualquer modo, e talvez assim consiga encontrar um patamar de entendimento, todos os passos progressistas devem ser defendidos e dados; todos os passos que significam retrocessos devem ser denunciados e evitados. (O problema é que o capitalismo não deixa dar qualquer passo em frente. Se tentassemos nacionalizar a banca, a UE caía-nos em cima. Se tentássemos investir a sério na escola pública e no SNS, a UE caía-nos em cima. Etc.)

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  3. Eu prefiro o gel ao não gel.
    Prefiro dispensadores à entrada das salas, do que distribuídos em vários pontos da escola, à espera que tudo acabe bem.
    Confesso não conhecer estudos que me tranquilizem sobre qualquer das teses transitórias sobre o tema.
    Na dúvida, regresso às regras dos tempos da “grupe espanhola”.

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  4. Aquando do confinamento, muitas pessoas saiam várias vezes por dia de casa para dar uma voltinha com o cãozinho…. nunca vi tanta gente com canídeos na rua. Acabou se o confinamento e nunca vi mais cães na rua( coitados estarão em confinamento).
    A economia segundo está gente é o mais importante e estão se nas tintas para as mortes, porque, lá no fundo , deixarão de pagar as reformas dos velhinhos…
    O gel distribuído por várias áreas da escola será para inglês ver…a criançada quer lá saber do gel…se ao menos fosse gelado….agora, com diz e bem o Guinote até as donas psi. Vem com as teorias do mal que as máscaras fazem a psique…oh que camandro…

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  5. O que é preciso, como em tudo na vida, ainda que nem sempre fácil, é equilíbrio. Nem pavor do vírus, nem subjugação à economia. Não vale tudo… Seja em nome da higiene pública, seja por interesses políticos, seja a contar cifrões… Bom senso!

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