Ainda A Falta De Professores (E De Vergonha De Muita Gente)

Acho alguma “graça” a certos alarmes mediáticos. Em especial em órgãos de comunicação que, em casos notórios, deram abrigo privilegiado ao discurso anti-profe. Que eram muitos. Que ganhavam muito. Que tinham muitas regalias.

Não percebo, então, porque agora se alarmam com a falta de gente para profissão tão bem paga e com tantas regalias e uma progressão automática infinita. Será que há por aí quem agora lamente ter a descendência pelos corredores e pátios, horas a fio, sem nada que fazer? Ao menos, estão na escola, certo?

Percebo ainda menos que se alarmem ao tomarem conhecimento de gotas no mar que por aí anda de alunos sem aulas. Quando leio ou ouço falar em “milhares” gostaria que fossem mais precisos na quantificação porque, só à vista desarmada, isso consigo eu ver e bastam-me os agrupamentos, escolas e/ou concelhos do pessoal cá de casa. Turmas desde o 2º ciclo, mas em especial no 3º e também no Secundário, em que pura e simplesmente não há candidatos para vagas que quando chegam a contratação de escola já só conseguem arranjar quem foi ao acaso e nem sabe bem ao que anda. Há grupos disciplinares em que, com a aproximação dos atestados invernais, não se achará viv’alma que aceite um horário, com deslocações de centenas de quilómetros em troca de 800 euros e 250 a 300 para alojamento. Aliás, há já grupos assim como é o caso de Português, Inglês, Francês ou Geografia do 3º ciclo, porque – então não se fartaram de o dizer? – a malta das Letras não serve para nada e os cursos deveriam ser extintos. Fora muita outra coisa que muita gente fez como boa, mas foi apenas pura e simples estupidez ao nível dos recursos humanos.

Por isso, agradecia que governantes que activamente inspiraram, legislaram ou aplicaram medidas que objectivamente envelheceram a classe docente, guardassem recato e não aparecessem com palpites ou ainda me salta a tampa a sério. E com isto incluo todos os que nas últimas duas décadas se especializaram em colher os louros quando os resultados melhoram, mas metem o rabo entre as pernas quanto a assumirem as suas responsabilidades na degradação da condição docente.

E não há verniz de formações dadas pela quadrilha do costume, sobre os temas do costume, que resolva mais do que abrilhantar o currículo de umas tias shôtôras de dedo repenicado na chávena do chá ou aquela secção das redes sociais em que cada foto tem provoca mais danos à camada de ozono do que todas as vaquinhas dos Açores. Mesmo que digam que os platinados são naturais e as lacas são biológicas. Em resumo, o clube de fãs do secretário, que também inclui uns gajos com saudades de andar em calçanitos e soquete branco a vender calendários.

17 thoughts on “Ainda A Falta De Professores (E De Vergonha De Muita Gente)

  1. Uma sugestão que não vem muito a propósito do post, mas creio ser pertinente para contrariar a propaganda oficial que é passada nas tvs: os professores que leccionam em turmas com vinte ou trinta alunos, tirem fotos às salas de aulas ( com os alunos de costas para salvaguardar questões legais) e divulguem-nas nas redes sociais. É que as imagens que aparecem nos programas da tv, para a população em geral ver, mostram só e sempre alunos sentados respeitando distâncias de vários metros…

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  2. Proponho um programa de 100 milhões de euros para incentivo à fixação de jovens licenciados estrangeiros no nosso país e uma linha de crédito, a juros bonificados e um período de carência de 5 anos, de mais 100 milhões, para os que quiserem criar uma empresa que crie pelo menos 2 empregos.
    Diferença: desta vez o dinheiro não seria desviado para o bolso dos angariadores, facilitadores e consultores do costume.

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  3. “Não percebo, então, porque agora se alarmam com a falta de gente para profissão tão bem paga e com tantas regalias e uma progressão automática infinita.“ 👍👍

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  4. Muito Bom, Paulo. O pior é que se vai falando, mais ou menos, conforme as agendas do momento, mas não se vê, nada, mas nada a mudar de modo a fixar as pessoas. E os pais não protestam pelos filhos estarem com tão deficiente currículo? Há uns anos eram muito mais ativos!

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  5. “O pior é que se vai falando, mais ou menos, conforme as agendas do momento, mas não se vê, nada, mas nada a mudar ” porque vivemos a mais descarada das censuras. Qual democracia! Qual República!

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  6. “[…] vagas que quando chegam a contratação de escola já só conseguem arranjar quem foi ao acaso e nem sabe bem ao que anda.”
    Eu ando ao acaso desde 1999, mas aparentemente como nunca me profissionalizei, sou uma besta para o ‘sôs dôtores’. Tenha respeito por quem trabalha, nem todos na CE estão à altura do seu preconceito. Muitos vão trabalhar, inclusive a gramar do diretorias de turma caídas do nada (já tenho 4 no bolso, nem sei como).
    Por outro lado, adoro mostrar aos coleguinhas que apesar de não ser profissionalizado, sou profissional há 20 anos e sei o que faço. Ficam sempre todos à espera de desastres, acabam a tomar notas no caderninho, porque não lhes ensinaram brio profissional nas didáticas.

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    1. Acho que não percebeu o que escrevi, nem a quem me refiro.
      Mas pode disparatar à vontade… se não sabe do que falo, que nem tem nada que ver com profissionalizações, só posso lamentar que leia o que lhe vai na cabeça e aponte preconceitos, quando é visível que os tem.
      E deixe estar, no meu primeiro ano de contratado, levei com 2 DT em cima para a estreia, ou seja, 50% do que se gaba tanto.

      Mas repito… se não entende que me refiro a quem vai dar aulas pela 1ª vez, a “experimentar”, com quase a minha idade, é porque, realmente, ainda lhe falta muito “calo”, algo que a profissionalização não lhe dará. E eu sei, que a fiz após uma dúzia de anos no activo.

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    1. Não sei… porque a mim aborrecem as posturas de “melro” que parece cantar muito, mas percebe pouco do contexto.
      Porque ainda há dias escrevi no Público a criticar os atropelos às condições laborais dos colegas contratados e agora aparece-me aqui alguém que deve ter vindo de pára-quedas, a dar lições de anti-preconceito.
      Ando pouco paciente… até para os que. se calhar tendo andado a navegar por águas “superiores” uns anitos, acham que os “básicos” ou mesmo “secundários” lhe são “inferiores”.

      A minha base de dados ainda funciona, enquanto o velho alemão não atacar. E quanto a “peneiras”… ui que há bem pior do que aqueles que o senhor historiador militar denuncia.

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