O Miguelito Continua A Ler Pouco E Mal

O escriba-mor do reino balsemânico parece que anda a reclamar para si a enorme qualidade de ter sido um dos primeiros – e certamente o primeiro entre este país de idiotas – a alertar para os perigos das redes sociais em termos políticos e de “canalhice humana”. Ora bem… sobre “canalhice humana” muito haveria a escrever, mas não gostaria de entrar pelo mesmo nível de argumentação.

Foquemo-nos apenas em dois pontos.

1) O “populismo” ou o que agora passa por isso precedeu em muito o aparecimento das redes sociais, embora não tanto dos meios de comunicação de massas. Em cada momento, os líderes carismáticos populistas lançaram mão dos meios ao seu dispor para comunicarem com sucesso com o seu eleitorado potencial. Mussolini não precisou do Twitter e o Hitler talvez fosse pouco hábil se tivesse acesso ao WhatsApp. Penso mesmo que Salazar (ditador, mas apenas populista q.b.) teria igual nojo ao que MST sente em relação ao Facebook. E o que dizer de outros populistas já mais nossos contemporâneos? O pai Le Pen tornou-se “popular” antes do velhinho Hi5 e chegou à segunda volta das presidenciais em França ainda o Instagram vinha quase a uma década de distância. Quando o Berlusconi chegou a primeiro-ministro de Itália a Internet ainda era uma palavra globalmente desconhecida. Jorg Haider assustou muito antes de haver Snapchat e os irmãos Kaczyński chegaram ao estrelato político antes do You Tube ser criado. E no Brasil, antes de Bolsonaro tivemos Collor de Melo. À esquerda, o populista Hugo Chávez chegou ao poder ainda no século XX. Todos eles usaram meios de comunicação de massas para se promoverem, chegarem ao eleitorado e transmitirem a sua mensagem. Não precisaram de redes sociais. O “populismo” é uma forma e um conteúdo que se aproveita dos “meios” disponíveis em cada momento. Anteontem, microfones, rádio, cartazes e filmes; ontem, a televisão; hoje, redes sociais; amanhã… o que existir. Sobre a ascensão e raízes menos superficiais dos nacionalismos populistas fica aqui uma sugestão que já fiz há uns tempos e que até parece já ter tradução nacional. Evita algumas leituras/análises que vão para lá do simplismo e entram de forma decisiva pelo simplório.

(quanto a boatos e coisas falsas… ainda me lembro de algumas… sobre os professores… e quanto receberiam por classificar exames… e não foi em redes sociais…)

2) Trump não é um produto das redes sociais. É um produto de uma insatisfação socialmente localizável com a forma de governação actual de algumas democracias liberais “avançadas” e com a evolução da sociedade americana no sentido de uma maior diversidade étnica. Trump era mal educado muito antes de existirem redes sociais. Aconselho a audição de intervenções dele na rádio ao longo dos tempos, em especial quando provocado pelo Howard Stern (este é um dos casos), como este explica. A sua misoginia ou sexismo, a sua forma de estar abrutalhada, o seu culto do sucesso a qualquer custo precedem em muito as suas tuítadas. Se permitiu amplificá-las? Sim, mas não mudou a sua substância ou, sequer, o seu carácter apelativo para uma massa do eleitorado que ele mobilizou especialmente com a sua própria presença. Mesmo por estes dias, insiste em retomar comícios presenciais e em recusar debates virtuais, apesar de transmissíveis ou multiplicáveis nas redes sociais. E se é verdade que existem claras provas da influência das redes sociais em campanhas contra os seus adversários políticos, dificilmente ele teria sucesso se não conseguisse estabelecer uma relação “pessoal” com a sua base de apoio, claramente menos sofisticada em alguns dos seus núcleos duros (brancos, de meia idade ou mais, do interior dos E.U.A., com menos formação académica e profissões com alguma qualificação, mas ameaçadas pelos efeitos da globalização) em termos digitais do que o eleitorado de outros candidatos. E em relação ao uso das redes sociais, um dos precursores nas campanhas presidenciais (Howard Dean, que também falava em “recuperar a América para os americanos comuns”) caiu em desgraça exactamente quando elas amplificarem o seu famoso “grito” em 2004. Portanto… as redes sociais têm lados muito maus, mas não são as primeiras responsáveis pelas derivas populistas e o seu sucesso.

Há muito tempo que o escriba-mor do universo mediático balsemânico (excepto quando a TVI lhe acenou com mais dinheirinho) se informa pouco sobre o que escreve e gosta de confirmar as suas próprias “profecias”, ignorando quem demonstrou o contrário. Que, em dado momento, escreva umas coisas que soam bem e parecem certas é como os relógios parados que acertam na hora duas vezes por dia.

In sum, to understand the link between social media and the recent rise of populism we need a global, comparative approach that carefully scrutinises claims about the effects of new media technologies on political change. Future thinking and action on social media and populism must consider a larger set of factors and cultural contexts than those normally considered, while carefully checking reports about the direct impact of social media analytics, filter bubbles or fake news on populist successes.

18 thoughts on “O Miguelito Continua A Ler Pouco E Mal

  1. Paulo posso ter gostado do teu artigo e apontar-lhe um erro de magna gravidade? Aí vai:
    O teu texto está excelente. É acutilante, é sensato e está suportado em factos.

    Quanto ao escriba mor, pá!… Paulo, o Miguelito é só o filho daquela grande poetisa que lhe anteviu grandes dificuldades em vir a seguir as suas próprias pisadas. O rapazito, coitadinho, sublima escrevendo umas porcarias que pretende que agradem ao chefe e à rapaziada amiga. É tudo.

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    1. Raposo,
      Imagino que nem vá ler … tb não vou estar com muitos floreios.

      – E isso justifica o quê? Dei conta do ataque do escriba mor ao Ricardo Araújo Pereira e acho profundamente injusto que continue a ser disseminado repetidamente ano após ano perante milhões de pessoas dizendo as maiores idiotices.

      Foi o que pensei ao ler o que escreveu.
      E ao ler o seu nome, penso sempre que pode ser um parente distante do dito. Se for, azar nosso.

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      1. Bom dia, Margarida, li o seu comentário.
        Se percebi a sua questão, penso que o facto de o MST ser filho de quem é lhe abriu muitas portas que não teria aberto se fosse um cidadão de origens mais, por assim dizer, anónimas e humildes…
        Dito isto, e percebendo que há por essa imprensa muita gente que escrevinha com um sucesso inversamente proporcional à qualidade do que escreve, receio estar a ser injusto ou, pior ainda, a passar por invejoso… Não sou.
        Não me preocupam as diatribes do MST com o RAP. Preocupam-me as diatribes imbecis e preconceituosas do MST contra o meu trabalho, que, aliás, não conhece, e contra o trabalho dos meus colegas, de que conhecerá uma pequena fração.
        Não cuspo no meu prato, e detesto que um imbecil pretensioso o faça.
        Não sei se sou descendente do bandeirante cristão novo que limpava sarampos e tosses ao Jesuítas no Brasil. Seja como for, com ele só tenho em comum o facto de não gostar de caixinhas. Mesmo quando se trata de caixinhas com poder…

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      2. Raposo Tavares,
        MST só está onde está por ser filho da mãe e do pai que teve. Sousa Tavares foi um grande advogado, num tempo em que pouca gente estudava.
        MST quis seguir as pisadas, mad não foi bom em nada: nem na literatura, nem na advocacia, nem no jornalismo.
        Se não fosse o berço, nunca os portugueses teriam ouvido falar de MST.

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      3. Amigos Magalhães e Manuel, muito bom dia,

        Manuel, é como disse aí para cima, até é possível que, tal como outros cabotinos (eia! tantos, tantos…), o MST tivesse sucesso na Imprensa cá do sítio…

        Magalhães, até posso fazer uma caminhada, -a Fátima, por exemplo-, com a nossa colega Margarida e/ou com outr@s colegas. Mas garanto-te que não tenho nada a resolver com a Margarida: não me zanguei com ela, nem me parece que ela se tivesse zangado comigo. Abraço

        P.S.: Apreciaste a @ politicamente correta?.

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  2. Eu cá, para perceber alguma coisa, recorro, essencialmente, digamos que a duas magnas fontes: o Rosmaninho e o professor Marcelo.
    Nesta estampida de números que nos transtornam os dias, só encontro aconchego na cantilena sorridente da avó de todos nós, naqueles doces momentos em que a realidade se torna mais suportável e quase esquecemos a louça do almoço por lavar, ao ouvi-la transformar uma urgência hospitalar em ruptura num qualquer faitdivers menos urticante que uma rivalidade entre a Cristina e o Goucha. Afora esses momento de inconfessável escapismo, que mais não servem do que para me assegurar sobre o quão desvalida e senil está a administração da coisa pública nestes tempos de mudança acelerada, só me importam as racionalizações do Rosmaninho e o palreio do insomne professor.
    Revendo as últimas aulas online do mestre, percebi finalmente quão iludidos andamos quando, entregues a nós próprios, tentamos abarcar as razões que nos trouxeram até aqui. Se bem o entendi, a reabertura das escolas sem meios é de somenos importância, o uso de transportes públicos apinhados é factor negligenciável, as manifestações de fé imprevistas são compatíveis com os novos usos de higiene pública. Quanto ao repovoamento dos estádios, só a modéstia o impede de decretar já que não agrava o recolho dos futebolistas a toda a hora infectados, mas é certo que a festa do Seixal está acima de qualquer suspeita, os mergulhinhos em todos os recantos da costa algarvia não supliciam os profissionais das unidades de cuidados intensivos, a patuscada nas tascas da moda não prejudica o esforço para evitar uma escalada de confinados e não nos está vedado convidar personalidades internacionais para as obsequiar com um ou outro jurista infectado.
    Porém, ó portugueses, é da máxima urgência que comecemos desde já a pensar na maneira de se organizarem as festas natalícias, sob pena de deitarmos tudo a perder. Ou não fosse ele o locatário de Belém.
    Quanto ao Rosmaninho, acaba de me comunicar que este ano nem com testes o metem no presépio. Receia que a vaca tussa e o venham depois a acusar de ser a origem de algum surto que feche a escola.

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  3. Excelente reflexão sobre um tema que tão mal tem sido tratado. Falo naturalmente do tema das vantagens ou prejuízos da comunicação digital e não do cronista mal-disposto que a mim pouco interessa. Aliás daquela família o filho Martim é a única pessoa com interesse.

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      1. Raposo

        O “mal ” do filho (MST, e não miguelito ) é que , de vez em quando, diz umas verdades . Inclusive a respeito da classe docente. Não peço licença a ninguém para dizer que – muitas vezes – está cheio de razão.

        Se na “qualidade ” de escritor e comentador visitasse alguns professorais blogues , então …

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