Sábado

Declaração de interesses: mesmo com todas as enormes imperfeições que tem, prefiro a democracia americana a um qualquer regime de tipo autocrático ou trumpizado ao serviço de uma família ou clique de tipo mafioso, mas sem ter sequer um pingo de código ético, pois até entre criminosos isso acontece.

O que me deixa em sérios problemas para lidar com duas atitudes extremadas em relação às eleições americanas.

Uma delas é a de que, se o capitalismo é um sistema iníquo e a democracia liberal apenas serve os seus interesses de dominação, então qualquer um que entre no “jogo” é igualmente cúmplice do sistema e deve ser tratado com igual desdém e recusa. Ou seja, Trump e Biden são duas faces da mesma moeda e tanto faz quem ganhar. Ou até será melhor que Trump ganhe porque levará mais rapidamente ao colapso do modelo capitalista liberal. Permito-me discordar… em primeiro lugar, porque Trump quer o capitalismo de óptima saúde nos seus aspectos mais nocivos e em segundo, porque eles até podem ser faces do mesmo cubo, mas mesmo que sejam da mesma moeda, um é a cara que nos olha e o outro é a coroa que alguém quer só para si. Biden não seria o meu candidato ideal em 2020, mas é o que se colocou na posição de impedir a permanência de Trump. Não é o ideal? Não, mas é o que há e não estamos perante dois males equivalentes. Porque mesmo que o encaremos como “mal menor”, Biden é menor a muito longa distância do mal imensamente maior que é Trump. Usando o argumento hiperbólico ad hitlerum, em 1932 não seria sido mais interessante que certos grupos anti-sistémicos tivessem votado “contra” Hitler ou procurado uma “coligação negativa” contra o NSDAP, mesmo não gostando muito do SPD de Weiss e Vogel?

A outra pode ser representada pelos falsos sonsos que, como ontem Jaime Nogueira Pinto na SICN, dão a entender que são quase neutrais na questão, que até nem gostam muito de Trump, que apenas procuram saber a “verdade”, mas depois veiculam mentiras e boatos como se fossem “questões merecedoras de investigação”, quando os principais canais americanos (incluindo a Fox News) já afirmaram que muitas das alegações de fraude por Trump, os filhos e o inefável Giuliani não passam disso mesmo, boatos e mentiras, ao ponto de terem interrompido a transmissão de uma sua comunicação pública? No caso específico de JNPinto, é muito difícil aceitar qualquer ingenuidade… o homem é capaz de fazer tremer de medo a víbora mais venenosa e aquele ar de falso carneiro que adoptou para ficar mais mainstream só engana quem não se lembrar do homem e de como vai andando por aí. Mas não é o único e faz lembrar aquela malta que se reclama “pela verdade”, mas que o que mais abominam é que se lhes apresente factos em forma de contraditório. O que Trump tem feito nos últimos dias para denegrir uma democracia americana já algo debilitada (e que ele 2016 considerou corrupta, até acabar eleito) só tem um aspecto positivo… o pessoal mais decente do Partido Republicano está a deixá-lo a gritar sozinho. Mas, por cá, ainda há muitos trumpinhos. E não está apenas no Chega, já agora.

5 opiniões sobre “Sábado

  1. Biden e Trump não são males equivalentes. Mas Biden não é um bem, convém não esquecê-lo. Dito isto, acrescento que votaria sem hesitação em Biden, caso fosse cidadão americano. Acrescento ainda que, vencendo Biden (coisa que, pelos vistos, já se confirmou), estaria nas ruas com outros concidadãos para pressionar o governo no sentido de uma agenda reformista, desde logo no sentido da defesa do Green New Deal, para o qual ele e a Kamala, como bons defensores dos interesses corporativos, se estão a cagar.

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    1. O Biden foi a solução de um mandato para afastar o Trump.
      Se o Sanders era mais entusiasmante? Sim, mas não se sabe se conseguiria mobilizar uma parte da população mais moderada porque, há que reconhecer, o Trump teve agora mais votos do que em 2016. E isso não pode ser ignorado.
      Mas também parece claro que o futuro dos Democratas está no pessoal da geração da Agenda Verde e em 2024 teremos um cenário completamente diferente dos dois lados.
      Porque o partido Republicano precisa renascer do zombie em que se transformou, ao serviço do clã Trump.

      E resta saber quantos não acabarão presos, porque o Manafort e o Stone (indultado pelo Trump) não terão sido os únicos a deixar rasto.

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