Cândido De Figueiredo Em 1892

“É difícil verificar-se hoje a quem pertenceu a iniciativa daquela construção, realmente notável. As relações e monografias coevas falam vagamente de um construtor nacional, Pais, como sendo o primeiro que forneceu um plano exequível para a famosa ponte. Parece no entanto averiguado que os portugueses não acreditaram jamais que santos de casa fizessem milagres, e que aceitaram o primeiro ou segundo plano que apareceu firmado por um ou mais nomes estrangeiros.

Timbravam de patriotas os portugueses, mas tinham uma adoração fetichista por tudo que lhes viesse de fora, desde os toireiros e cantores de opereta até aos trajes de gala e aos planos de construções nacionais. Nacionais, digo eu, por se realizarem dentro da nação; mas foram de ordinário estrangeiros os construtores das obras, de que mais se envaidecia o país.

A velha e grande ponte fizeram-na pois estrangeiros, que por muitos anos lhe auferiram os melhores lucros.

Não devo porém ocultar-te que os governos nem sempre negaram o seu apoio aos grandes melhoramentos materiais.

Mas tal apoio não era, nem podia ser vulgar, porque exigia rara coragem e disposição para o sacrifício e para os golpes da calúnia. Ministro que aparecesse, com ânimo para grandes empreendimentos; que tivesse a coragem de cortar fundo nos abusos que o rodeavam; que zelasse a sério os rendimentos do Estado, fiscalizando as receitas, embaraçando as falsificações industriais, e despertando os devedores remissos, acendia desde logo a eloquência do rancor, e açulava as matilhas, que constituíam a guarda de honra dos corrilhos de seita.

Como natural consequência destes processos, para que um ministro passasse por exemplar, fashionable, aplaudido de gregos e troianos, devia ter uns laivos de filosofia budista, e não incomodar a consciência nem a legislação sobre as necessidades do Estado e o dever dos estadistas. E assim, os ministros mais prudentes eram os que nada faziam, arriscando-se apenas a fazer tolice, quando um director de semana, uma favorita, ou um contínuo, lhes aproveitavam a habitual sonolência, para lhes introduzirem arteiramente na pasta uma ilegalidade, ou uma espoliação, sob-color de decreto.”

Lisboa no Ano Três Mil, Carta III

4 thoughts on “Cândido De Figueiredo Em 1892

  1. Foi assim e continua igual .
    Até me lembrei do ” corta fitas ” sempre presente em qualquer inauguração .
    O ser humano é assim na sua essência. Presente quando julga poder “tirar partido” e toca a olhar para o lado em muitas outras situações.

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