Os Eunucos Da Linguagem

Da escrita e da falada. Por acção de depilações ortográficas ou de estupro do seu sentido e forma. Sou dos que adora o enriquecimento da língua através da imaginação, da criação, mas dos que detesta o seu empobrecimento ou abstardamento com base em ideologias que pretendem “neutralizar” o que acham ser os seus conteúdos “incorrectos”, algo que agora está muito em voga em certos nichos do belo pensamento de uma neo-esquerda intolerante na defesa da assepsia linguística. De uma novilíngua que eu não hesito em crismar como eunuquês.

E tratar a petizada, mesmo que numa perspectiva de igualdade de género, como “querides alunes” é muito estúpido e ainda mais porque quer impor a descaracterização e uniformização em vez de exaltar a diversidade. Ao contrário do que seria de esperar, recusa identidades no desejo insano de não querer estabelecer diferenças e promover igualdades forçadas. E é por aqui que eu traço uma linha muito grossa em relação a esta corrente herdeira das teses da linguagem como instrumento de dominação e que pretende fazer exactamente o que em tempos afirmou criticar: forçar os outros a aceitar uma concepção unívoca do que é aceitável na língua de que todos nós precisamos para descrever o mundo na sua pluralidade colorida. É ridículo que os defensores das cores do arco-íris pretendem representar o mundo numa linguagem de cinzentos. Ora, se há algo que me é muito caro é exactamente a defesa do direito à diferença e à sua enunciação.

Mas vou passar antes a palavra a João Barrento e a dois excertos de crónicas suas de 1993, na altura mais preocupado com os efeitos do avanço da imagem sobre a palavra.

Diz-me como falas, dir-te-ei quem és. A língua é um espelho, não apenas daquele que a usa (que julga que a usa: na verdade, muitas vezes é ela que dele se serve!), mas também do mundo, e da visão que dele se tem.

(…)

As palavras vêm perdendo o corpo, desde que o culto da imagem o vem fazendo definhar, Quase ninguém repara nesse corpo, à maior parte das pessoas nem lhes passa pela cabeça que tal coisa existe. Cada vez mais as palavras se vêem esmagadas ou abastardadas, no seu lado corpóreo e sonoro, numa certa nobreza de porte que lhes é própria, pela penetrante violência das imagens que nos submergem e transformam o verbo em verborreia sem contornos, o perfil preciso do adjectivo em mero adorno, o sopro subtil da frase num urro sem rosto. Ninguém tem pachorra para atentar bem no texto dito, para o seguir de perto, e muito menos para o ler e tentar sentir nele o peso, os cheiros, a aura da palavra ou da imagem verbal.

João Barrento, Uma seta no coração do dia, 998, pp. 99, 103)

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