Este Mês, No JL/Educação

Quem previu este século XXI?

Um terreno muito fértil para a produção ensaística ou meramente especulativa na área da “Ciências da Educação” desde as últimas décadas do século XX foi o da previsão e prospectiva sobre o que seria a Educação neste século XXI. Apesar das diferenças de detalhe entre as visões em competição, há que destacar dois aspectos nucleares: o primeiro, que a Educação “do futuro” seria marcada pela ascensão dos meios tecnológicos (algo que foi crescendo com a aceleração e aumento das capacidades de armazenamento e tratamento da informação pelos equipamentos digitais); o segundo, que ninguém foi capaz de antecipar uma situação como a que estamos concretamente a viver. Cada vez que leio, em volume dos últimos 30 anos, a palavra “desafio” tenho quase a certeza de poder passar adiante as páginas seguintes, pois o mais certo é ser de razoável inutilidade para os desafios que efectivamente enfrento no meu quotidiano docente.

É mais seguro recuperar leituras juvenis de ficção científica (para questões de ambientes digitais de aprendizagem o Ender’s Game/O Jogo Final de Orson Scott Card é uma boa opção), ou thrillers mais recentes de autores injustamente afastados do cânone ocidental (ocorre-me Stephen King e o seu The Stand ou mesmo o menos óbvio Under the Dome/Sob a Cúpula) para compreender melhor o comportamento humano sob pressão, em especial em situações de confinamento forçado.

Ao virar do milénio, um dos principais autores que teorizou sobre a evolução da Educação no século XXI, enquanto “idade da insegurança” foi Andy Hargreaves mas, como outros como Michael Apple, Michael Fullan, Larry Cuban ou Diane Ravitch (em Portugal, Licínio Lima e João Barroso, entre outros), as suas preocupações prendiam-se principalmente com o crescendo das ideologias economicistas, de desregulação e privatização, do sistema de ensino, das escolas e das condições de trabalho. Encarava-se com receio essa dimensão das reformas, pois a desejada “mudança” poderia trazer uma desarticulação da própria escola (cf  P. Perrenoud, Aprender a negociar a mudança em educação. Porto: Asa, 2004, p. 137). Hargreaves desconfiava especialmente de uma deriva pós-moderna que abraçava os princípios de um neoliberalismo que passava a encarar a Educação apenas como mais uma mercadoria de onde extrair lucro.

«Uma das consequências destes desenvolvimentos pós-modernos tem sido um conjunto de assaltos ao profissionalismo nas Universidade, na Medicina, no Ensino e não só. Os princípios do mercado foram abraçados de forma tão forte por muitos governos que as escolas (como muitas outras instituições públicas) foram racionalizadas, objeto de cortes, tornadas economicamente mais eficientes, menos pesadas fiscalmente e colocadas em competição umas contra as outras» (Andy Hargreaves, “Four Ages of Professionalism and Professional Learning”, Teachers and Teaching: History and Practice, Vol. 6, No. 2, 2000, p. 168).

Essa fase já passámos, entre nós marcou boa parte das últimas duas décadas e foi transversal a governos de orientação política diversa, não trazendo mais do que uma lógica de alegada “racionalidade económica” a uma realidade que deveria obedecer a outro tipo de lógica, Curiosamente, foi implementada por governantes que em muitos momentos se afirmaram seguidores das teses críticas que, na sua prática política, contrariaram de modo bem evidente. Agravando desigualdades e provocando uma fortíssima erosão dos mecanismos de coesão do sistema educativo, apesar da apresentação de indicadores de sucesso com uma evolução muito favorável (seja da queda do abandono escolar, seja de resultados nos testes PISA). O sistema evoluiu, aparentemente “melhorou”, mas a sua tessitura sofreu muito com isso à medida que o século XXI avançou e a “narrativa” se deslocou para temas como a “flexibilidade”, a “autonomia” e a “inclusão” quando muito ainda há por fazer a um nível mais básico.

Os alunos que deixaram de surgir nas estatísticas do abandono ou mesmo do insucesso foram capacitados para novos ambientes de aprendizagem? As suas famílias passaram a viver em condições materialmente menos vulneráveis ou precárias? As respostas, duras, incómodas, não se compadecem com proclamações muito “positivas” ou as retóricas demagógicas que a pandemia desmentiu à saciedade. Enquanto tínhamos grupos de “especialistas” a discutir as melhores plataformas a usar no tele-ensino, tínhamos 20-25% dos alunos sem qualquer possibilidade de o acompanhar. Talvez uma proporção semelhante à do abandono há uns anos. Passaram a estar “dentro” da casa, mas numa divisão sem chão de soalho firme.

Os “desafios” que enfrentamos ao finalizar 2020, passam por questões que em pouco diferem das que enfrentaram as sociedades humanas em outras épocas, mesmo no caso da Educação. O problema do “acesso” é porventura o principal. Porque as desigualdades continuam entre aqueles que podem aceder à Educação ou não; se é verdade que agora a larga maioria pode aceder às “escolarização”, isso não significa exactamente o mesmo para todos. No século XIX e início do século XX (em Portugal até bem mais tarde), o problema era resolver o simples acesso à frequência escolar; em seguida, conseguir que todos os que acediam ao sistema fossem tratados com justiça e equidade na avaliação das suas capacidades, não deixando ninguém para trás; mais tarde, o acesso à possibilidade de prolongar os estudos e obter qualificações que permitissem um capital essencial para uma melhor inserção no mercado de trabalho.- Sempre existiram problemas de “acesso”, ou seja, de generalização, de democratização da Educação. Quase sempre medidos por indicadores quantitativos e nem sempre seduzidos por uma aferição da qualidade.

Como agora, em que o grande “desafio” é garantir que todos têm acesso a meios para desenvolver um modelo de ensino que seja obrigado a recorrer a ambientes mistos ou não-presenciais. Porque podemos ter teses muito interessantes, ferramentas fascinantes, mas se apenas as conseguimos colocar ao serviço de alguns, apenas reproduzimos um modelo de crescentes desigualdades, neste caso agravadas com o crescente digital gap ou digital divide que é possível verificar não apenas entre países ricos e pobres, mas mesmo nas sociedades mais avançadas entre os que têm tudo ou muito e os que pouco ou nada conseguem ter. Ou mesmo entre os que até têm alguma coisa, mas a quem falta a literacia essencial para explorar os recursos disponíveis. Será que uma das principais forças que Hargreaves atribuía em 2020 à deriva pós-moderna na Educação não veio apenas reforçar mecanismos de falsa inclusão? A «revolução digital e electrónica nas comunicações, levando à disponibilidade instantânea, globalizada, da informação e entretenimento» que «conquistou a geografia, comprimindo espaço e tempo» (Hargreaves, 2000, p. 167) vai além da mera “óptica do utilizador” passivo, que não tem meios de se apropriar da tecnologia como algo transformador e emancipador da sua condição? 

A realidade do período E@D (ensino a distância) nas escolas portuguesas revelou como as projecções de uma Educação no século XXI dominada pela tecnologia, pela Inteligência Artificial, por uma pseudo-flexibilidade permitida pelos meios digitais está bem longe de ser uma realidade viável. Após alguns meses de excitação imensa, seguiu-se a depressão pós-E@D. Afinal, ainda é cedo, ainda é prematuro, o “novo paradigma” está longe de o ser e o anúncio sucessivo da sua inevitabilidade tem sido claramente excessivo.

Este século XXI não tem seguido o guião que muitos traçaram. Em Portugal, sociedade que permanece muito desigual e crescentemente precarizada, os arautos de uma nova modernidade revelaram-se demasiado optimistas, para não qualificar certas proclamações de modo mais duro. Progredimos muito em termos de “indicadores”, mas continuamos a padecer daquele estado de representação da realidade que Eduardo Lourenço e José Gil tão magistralmente caracterizaram. Confundimos desejo e realidade, praticando uma variante de pensamento mágico acerca da “mudança” potencial. Há uma “construção política da Educação”, para retomar uma tese desenvolvida por Bruce Fuller e Richard Robinson (The Political Construction of Education: The State, School Expansion, and Economic Change. New Ork: Praeger, 1992)

Se há algo que a Educação em situação de emergência pandémica nos ensinou é que este século XXI ninguém previu e que vai sendo tempo de se reverem dogmas e se enfrentar a realidade tal como ela é e não como a propaganda a anuncia.

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