Subscrevo a 98%

Apenas acho que se pode discutir com a Ciência, desde que seja com argumentos válidos e que a hipocrisia raramente é de “inocentes”. Por cá, a hipocrisia é dos culpados. E dos estúpidos (e cada dia que passa fico mais convencido que a pandemia atinge os neurónios, mesmo a quem não contagia oficialmente). E não me venham com a retórica choninhas do “ahhh… evitemos o pensamento binário” ou do “o tribalismo faz muito mal…”. Estou mais do que farto de tretas politicamente correctas e conversas da treta acerca dos “afectos”.

O primeiro-ministro achou por bem não contrariar as emoções dos portugueses e decidiu dar bar aberto à época das festas, acrescentamos a isso a eloquência de um senhor que reduziu o Natal a uma troca de compotas no vão das escadas, e com o Presidente da República a assumir que ia ter no seu Natal uma equipa inteira de futebol americano (eu sei que desdisse, mas o que fica dito não perde a força) e temos todos os condimentos para o “milagre português”.

E quando entregamos o destino ao que “Deus quiser” e desejamos com muita força que corra bem, sentimos muita alegria no ar. Alegria esta que nos está a faltar à alma como pão para a boca. Mas a ironia desta doença, as características do seu contágio e a robustez da ciência que temos nas mãos são infinitamente mais fortes do que o que “Deus quiser” e o “desejar com muita força” juntos. Com a ciência não se discute. Mas nós quisemos discutir, conversar, trocar opiniões, gargalhadas e outras palhaçadas à volta de mesas de dez, 20, 30 e por aí fora, em almoços, almocinhos, jantaradas e trocas de compotas, a ver se o vírus respeitava o Natal e já agora a Passagem de Ano, fechando os olhos apenas a uma semanita ou duas.

Adivinhe-se o que aconteceu? O vírus não acredita em Deus, nem leu as cartas ao Pai Natal, até porque mesmo na Suécia a comunicação antifestas covid foi bem mais dura. E “estranhamente” os números subiram a pique e vão continuar a subir, o que quer dizer que mais mortes vão ser choradas que não precisavam de o ser. Mais sobrecarga nos serviços de saúde que estão a rebentar, e mais tempo até que a economia endireite com todos os dramas sociais que isso acarreta.

E depois dizem-me: “Ai, isso não é nada humanitário estar a acusar as pessoas e pô-las umas contra as outras!…” Pois, eu encaixo todas as críticas e ainda encaixo insultos e ameaças, mas sigo firme na minha humilde opinião. Ser humanitário, ser humanista é pensar no bem comum, é ter a coragem de assumir comportamentos que a mim também me deixam triste, mas vivo a pensar que a minha vida não vale mais do que as outras. E não sendo eu um crente na divindade de Jesus Cristo, diria que a celebração da sua vida não deveria ter sido marcada pelo egoísmo dos que se sentem mais sábios que a ciência, porque se houve mensagem que eu retive da sua passagem por esta vida, foi a empatia, a compaixão, a projecção do outro em mim. E não há nada mais bonito do que isso.

Ainda há dúvidas que são estes comportamentos que atiram milhares de doentes para os hospitais? “Ó pá, mas tu és um pessimista! Não deixas ninguém viver!” Não é verdade. Eu também vivi a passagem de ano com muita gente. E muito boa gente, uma unidade de Cuidados Intensivos cheia de doentes covid e não-covid, e com as filas para testes novamente cheias de pessoas com sintomas à proporção dos almoços e jantarezinhos que todos fizeram, mas ninguém sabe quem fez. “Eu portei-me bem”, “Eu fiz um teste”, “Eu só estive com os meus amigos depois do Natal”, “A minha avozinha queria estar com os netos.”, “Eu estou sempre com as mesmas pessoas”… Que, por sua vez, também estão sempre com as mesmas pessoas, e como tal, não foi ninguém. É a hipocrisia dos inocentes.

3 thoughts on “Subscrevo a 98%

  1. Caro PG,
    O que dizer…?

    “A ciência realmente só tem alcançado tornar mais intensa e forte uma certeza: – a velha certeza socrática da nossa irreparável ignorância.
    De cada vez sabemos mais – que não sabemos nada.”

    Eça de Queirós

    Obrigado pela atenção e os devidos respeitos,
    AF.

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  2. Como eu concordo! Tive que estar em contacto com a realidade hospitalar nestes dias, tendo perdido o meu pai. Os hospitais estão lotados, estive uma semana sem saber notícias do meu pai, internado às 3h de dia 24. O único contacto que tive do hospital foi a darem a notícia da sua morte.
    Estava tudo cheio de doentes. Uma coisa terrível.
    Vemos na TV e parece que tudo está ótimo. As pessoas não estão a perceber bem o que estamos a viver. Vai começar um 2° período em que as coisas vão ser bem mais complicadas. Quem se rala?

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