2ª Feira – Dia 4

Tem estado quase toda a gente entretida a discutir a ascensão da “extrema-direita” naqueles moldes muito provincianos que é habitual entre os politólogos (oficiais ou de redes sociais) cá do burgo. Salvo raras excepções, parecem muito preocupados com a “reconfiguração da Direita” e o que poderá fazer o PSD, se der a mão ao Chega para chegar ao poder. A esse respeito, apenas duas notas, que não me apetece entrar muito neste tipo de debate de faróis nos mínimos. Em primeiro lugar, um raro elogio a Rui Rio que ontem foi quase o único a apontar para a geografia do voto em André Ventura e a sua implantação nos bastiões que em tempos foram do PCP e que tradicionalmente votam mais à esquerda; ele tem razão, o voto em Ventura é mais um voto de protesto do que um voto ideológico. E isto conduz-nos à segunda nota que é o de o Bloco e o PCP se terem deixado “normalizar” tanto na geringonça que correm o risco de canalizar o tradicional voto de protesto “contra o sistema”, pois eles próprios aceitaram participar nesse sistema que tanto criticavam, não lhe trazendo especiais modificações; daqui decorre que uma das possibilidades de combater o Chega é exactamente “normalizá-lo”, porque a atracção pelo poder é imensa em Ventura e, chegando à mesa dos “grandes”, deixará cair muito do que agora ergue como bandeiras, para ter uma parcela das benesses e honrarias. E depois de se ver de que massa é mesmo feito (de um oportunismo sem verdadeira substância), o eleitorado de protesto irá abandoná-lo, em busca de outro partido anti-sistema. Desde o PRD que as coisas são assim, mais ao centro, à esquerda ou à direita.

9 thoughts on “2ª Feira – Dia 4

    1. Ema,
      Os judeus não disseram o mesmo de Hitler.
      Quem decidiu ser “neutral” na disputa entre os sociais-democratas e os nacionais-socialistas foi quem…?
      Uma pista… foram aqueles que em muitas situações consideraram que o mais perigoso era o inimigo mais próximo.

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  1. Hesito entre o teor do post e o comentário da Ema…
    A favor do teor do post a experiência na Holanda e na Itália, a favor de receio da Ema os anos 20 do século passado. Na verdade é esta a nossa única vantagem: muitos de nós têm ideia do sucedido nos anos 20 e 30 do século XX.

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    1. Sofia, este artigo foi rápido, não foi?
      É este o tipo de artigos com pouco lastro sobre a realidade, com muito lastro na opinião publicada e com mais lastro ainda nalgum sentimento de revolta entre todos aqueles portugueses que, já idos os tempos de programas meritórios como os do sempre pouco recordado Michel Giacometti, gostariam hoje de ser mais do que figurantes que fazem o papel de povo em documentários sobre o país turístico e em novelas da TVI.
      Eis que a narrativa da esquerda publicada já se apressa a ficar estabelecida. Que mal tem que se baseie na comparação simples e simplista de quadros de resultados eleitorais. E que mal tem que estes resultados sejam de legislativas e de presidenciais?
      Quanto aos informantes a jornalista arranjou 3:
      1.- O comunista Caeiros de Castro que parece esquecer-se que a revolta dos camponeses da sua vila assentava, há décadas atrás, nos mesmos problemas de humilhação, desemprego e dificuldades em sobreviver que os deserdados de agora sentem.
      2.- A bibliotecária de Moura que perguntou aos patrões se estavam disponíveis para empregar ciganos e não questionou a sua resposta.
      3.- O comendador de Ferreira que reconhece que paga mal aos seus trabalhadores, mas que se esquece de referir o ritmo de trabalho frenético durante horas esquecidas sob um ‘calor ananases’ (Os ananases, tal como as uvas sem grainhas, também se plantam em estufas, só que no Açores…).
      E então é isto: com uma direita dos interesses que mal os trata, quem precisará de uma esquerda que assim os defende?

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