Pelo Jornal De Letras

Ao contrário de quem agora passou de utópico a realista, eu assumo em cada momento as minhas posições. No “dia antes” sem esperar por ver de onde sopra o vento. É o defeito de se ter as convicções acima das conveniências. E nestas matérias, por acaso, até me parece ter estado certo quando, desde cedo, alertei para as falhas em decurso, contra a certas ausências, lá está… à espera de verem para onde as coisas caíam. Parece que agora chamam “realismo” a mero calculismo ou oportunismo. A ver se acertam no dia seguinte.

Escrevo em mais um dia dramático, numa já longa sucessão de outros dias assim, em que se batem recordes de mortes causadas pela covid-19 e de novos contágios. Depois de cerca de uma semana com uma média superior a 150 óbitos, passou-se para o patamar superior aos 200. Para quem ainda relativiza estes números ou insiste em compará-los com o de outras doenças, em particular as que não são infecto-contagiosas, gostaria de sublinhar que, em termos proporcionais, mais 220 mortes diárias em Portugal equivalem a mais de 7000 nos Estados Unidos da América ou de 4500 no Brasil, os dois maiores países ocidentais governados durante o ano de 2020 por negacionistas da pandemia.

Para se ter uma noção em termos de História, na época contemporânea, Portugal não atravessou nenhuma guerra com efeitos tão mortíferos. Na Grande Guerra, perderam a vida cerca de 2100 soldados portugueses em França e um pouco acima de 5600 nos vários territórios africanos, num total inferior a 8000 baixas (João Moreira Tavares, “Mortos Feridos e Desaparecidos” in Portugal na 1.ª Guerra Mundial – Uma História Militar Concisa. Lisboa: 2018, p. 783). Durante os treze anos da Guerra Colonial, o número de baixas ficou aquém das 8500, incluindo cerca de 2500 soldados de recrutamento local (Resenha Histórico-Militar das Campanhas de África -1961-1974. Lisboa, 1988, pp. 264-266). O único momento em que o país sofreu um choque fisiológico mais violento foi o de outra vaga pandémica, a chamada “gripe espanhola” ou “pneumónica” que dizimou dezenas de milhar de portugueses entre 1918 e 1919.

Atendendo a toda a evolução dos hábitos de higiene sanitária, da medicina, dos conhecimentos acerca da prevenção e tratamento de doenças epidémicas, os 10000 óbitos que se devem ter sido ultrapassados quando este texto for impresso são um total impressionante. As vacinas anunciam-se prontas e já em uso, mas o processo de vacinação será longo e moroso, ao ponto de, antes de estar terminado, ser necessária uma segunda campanha, por ser o prazo da imunização contra o vírus apenas de alguns meses. O nosso presente é de uma singularidade dramática extrema, porque a escala dos efeitos desta 2ª vaga corresponde às piores expectativas daqueles que, ainda há poucos meses, eram acusados de pessimismo e de só encontrarem “problemas”, onde outros viam alegres e imaginários desconfinamentos e mesmo “oportunidades”, com destaque para a área da Educação.

Claro que todo este contexto teve naturais repercussões na Educação, não só na transformação do quotidiano escolar (e não apenas nas fases não-presenciais), mas em especial no modo como testou a solidez de algumas concepções e teses muito divulgadas desde finais do século XX e apresentadas como fundamentais para se compreender a “Educação do século XXI”. Teses que acabaram por ter um choque com a realidade que fez com que muita da sua argumentação visse a sua solidez desfazer-se em pleno ar, como escreveria Marshall Berman acerca de outras narrativas com o seu quê de mítico.

Em menos de um ano, várias foram as lições que se aprenderam, nem sempre de forma pacífica, acerca do que é essencial e do que é acessório. Do que é estruturante e do que é circunstancial. Do que permanece, apesar dos ataques e críticas, e do que tem a volatilidade das modas. Vou aqui singularizar um punhado dessas lições, nascidas ou reforçadas pela pandemia, na perspectiva de quem já foi demasiadas vezes adjectivado como conservador ou mesmo arcaico:

  1. O elemento humano continua insubstituível na relação pedagógica e é indispensável para um eficaz processo de ensino e aprendizagem. Todos os aparatos tecnológicos com que nos têm procurado seduzir, como se fossem a solução para uma “Educação do Futuro”, não passam de ferramentas, extensões que podem tornar mais fácil e rico o trabalho d@s professor@s, mas que ainda estão longe de os substituir em operações que tentem ir para além da transmissão automática, mesmo que algo interactiva, de informações. A empatia que envolve e torna única a relação entre professor e aluno não tem ainda qualquer recurso digital que o possa substituir. A Inteligência Artificial tem um longo caminho a percorrer a esse nível. Há quem agora já reconheça isso com tanta veemência que quase esquecemos que há pouco mais de um ano afirmava o contrário.
  2. O ensino que tantos têm chamado, de forma pejorativa, “tradicional”, porque assente num modelo presencial, em sala de aula e em que a transmissão do Conhecimento tem um papel central, ainda é o que garante a realização de aprendizagens mais significativas e duradouras para os alunos. Foi notório que o período do ensino remoto, salvo notáveis excepções, significou um empobrecimento educacional e uma menor inscrição cognitiva das aprendizagens, mesmo quando as condições disponíveis foram as adequadas a esse contexto. O isolamento instala-se ao fim de algum tempo e não é o simples contacto visual num ecrã que o consegue minorar. A presença física do professor, com toda a sua linguagem não-verbal, perde-se quase por completo. A capacidade de identificar nos alunos menos participativos os sinais da necessidade de um reforço da atenção torna-se um exercício muito difícil. Assim como a eventual atracção pelo novo meio de comunicação e acesso à informação perde, gradualmente, o seu apelo. O acompanhamento individual e personalizado é muito mais limitado quando há uma mediação tecnológica.
  3. As novas gerações podem estar seduzidas pelos suportes digitais e aparentarem um domínio avançado das novas tecnologias, mas a verdade é que lhes falta uma literacia digital básica que permita um uso crítico e selectivo da enorme massa de informação que está ao seu dispor. Além de que, sem uma formação sólida em alguns dos saberes fundamentais, é ilusória qualquer pretensão de ancorar quaisquer “novos saberes”. O deslizamento digital sobre o ecrã não cria uma relação forte com os conteúdos visionados de forma apressada e em permanente busca de “novidade”. A “inovação” é o domínio do fugaz. E na Educação isso não é compatível com aprendizagens consolidadas e passíveis de uma utilização adequada em novas situações, A relação com o tempo no modelo analógico é muito mais favorável ao estabelecimento de relações significativas entre os conhecimentos. A mão que escreve sobre o papel algo que foi pensado implica operações intelectuais muito diferentes da que se limita a seleccionar um naco de texto visto num site de acesso rápido, a copiá-lo e colá-lo.
  4. A desigualdade não se combate com proclamações, decretos ou cosméticas legislativas demagógicas destinadas a produzir um “sucesso” sem verdadeira verificação externa. Conceitos como “inclusão” revelaram toda a sua superficialidade perante a evidência concreta da enorme (e crescente) desigualdade de condições e oportunidades que marcam grande parte da população. O mito da Educação como “elevador social” ficou bem patente, quando os alunos ficaram mais dependentes dos seus ambientes familiares, sem a protecção niveladora que a escola e sala de aula acabam por permitir. Mas, por muito que as escolas se esforcem por menorizar as enormes diferenças entre as circunstâncias específicas dos alunos, é impossível uma verdadeira “justiça educativa”, sem que fora dos portões se assegurem condições de justiça social e económica às famílias. A Educação não consegue fazer todo esse trabalho, mesmo se tantas vezes leva muito do seu tempo e esforço a tentar resolver aquilo que não deveria ser sua responsabilidade. A pandemia revelou até que ponto a nossa sociedade continua dual, com assimetrias enormes e uma parte significativa da população em condições muito precárias.
  5. O discurso, repetitivo, herdado de uma tradição ideológica muito marcada em temos históricos, que proclamou uma e tanta outra vez a necessidade de transformar a “escola do século XIX”, habitada por “professores do século XX”, de forma a “adaptá-la ao século XXI” ficou na situação incómoda de ter de reconhecer (ou disfarçar, assobiando para o lado) que sem esse modelo de escola e esses professores, não há alternativas verdadeiramente credíveis ou funcionais. Que a propaganda a “salas de futuro” não passa de uma operação de cosmética; que a “flexibilidade” falhou quando deveria ter dado resultados; que a “autonomia” é um chavão e pouco mais. Mais importante, que muitas “evidências” repetidas anos a fio, não são para levar a sério, como aquela da crítica aos exames como via de acesso à Universidade. Perante a “oportunidade” de “mudar o paradigma”, ninguém mexeu em nada, ficando tudo como antes.

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