Sobre O E@D

As respostas completas (longas) para esta peça do Educare.

.Qual o futuro do ensino à distância? Justifica-se ou não se justifica? Poderá integrar um modelo de ensino daqui por diante, num modelo misto? 

Neste momento não é possível fazer uma previsão fundamentada, excepto para o Ensino Superior, no qual se percebe que o ensino à distância se tem vindo a afirmar como uma modalidade complementar ou mesmo alternativa ao ensino presencial. E justifica-se como elemento de um ensino de tipo misto, pois permite desenvolver actividades diversificadas com um maior número de alunos, que nem sempre é possível realizar no modelo presencial.

No Ensino Secundário e, em especial, no Ensino Básico parece-me que só será um recurso em situações de emergência ou como ferramenta auxiliar do ensino presencial. E isso será assim em especial para os primeiros ciclos de escolaridade, nos quais é necessário um trabalho prévio de preparação dos alunos para este tipo de ensino, assim como de formação dos próprios encarregados de educação para o apoio a esta modalidade.

Embora muitos digam que este é o futuro da Educação, considero que mesmo no caso do Ensino Secundário a generalização do ensino à distância como ferramenta complementar terá de passar por um período de transição, marcado pela generalização dos meios digitais de trabalho nas salas de aula, o que está muito longe de estar garantido, por falta de meios técnicos suficientes. Não podemos confundir o eventual sucesso de projectos já em desenvolvimento com a possibilidade de os alargar, a breve prazo, a todo o sistema público de ensino.

No caso do Ensino Básico e dos primeiros anos de escolaridade, penso ser insubstituível o ensino presencial, pela dimensão humana e de empatia que a relação pedagógica deve envolver nos anos iniciais de formação dos alunos. Nesse caso, o ensino à distância servirá principalmente como um espaço virtual para a realização, entrega e avaliação de algumas tarefas.

.Uma coisa é a questão técnica, outra é a vertente pedagógica do ensino à distância. Quais as fragilidades e potencialidades deste regime de ensino

A seu favor, um modelo de ensino à distância bem estruturado tem a sua flexibilidade (em termos de tempo e métodos de trabalho) e capacidade de envolver um número elevado de alunos. Como acontece já com os MOOC em contexto de formação profissional, de aprendizagem ao longo da vida ou mesmo de cursos de especialização de nível superior. A flexibilidade de potenciais abordagens (síncronas e assíncronas) e a diversidade de temáticas e materiais que podem ficar disponíveis, por um tempo longo ou mesmo indeterminado, são pontos positivos claros. No caso de alunos mais velhos, a metodologia “self-paced”, em que os alunos são em parte responsáveis pela regulação do modo como desenvolvem as aprendizagens, é uma outra vantagem.

Os principais problemas, para além do já referido elemento humano que fica limitado pelo distanciamento que reduz muito a capacidade de professores e alunos desenvolverem uma relação mais individualizada, passam por questões como a falta de fiabilidade da avaliação desenvolvida, porque as possibilidades de fraude são evidentes, ou como o equívoco de considerar que o ensino à distância é uma mera réplica do ensino presencial em termos de gestão do tempo ou de abordagens pedagógicas. O ensino à distância não pode limitar-se a ser uma transmissão de vídeos com professores a explicar as matérias como se estivessem numa aula, porque assim a interacção como os alunos ainda é menor. E muito menos pode corresponder a uma sessão de “sessões síncronas” como se fossem aulas convencionais. Há que pensar de um modo diferente, mais exigente numa fase inicial de planificação do trabalho, de produção de materiais de apoio e de concepção de ferramentas fiáveis de avaliação.

Até ao momento, infelizmente, aquilo a que temos assistido em muitos casos é, por muito que se anuncie como um “novo paradigma”, a uma réplica à distância, com menor qualidade, do ensino de tipo mais tradicional. Uma aula presencial tem um potencial interactivo maior do que assistir a um vídeo ou mesmo a responder a um questionário online. E o mesmo se passa com a “diferenciação” pedagógica. Em termos pessoais, considero que em sala de aula, curiosamente, é mais rápida a possibilidade de adaptação do trabalho a fazer com os alunos que apresentam dificuldades, O feedback contextualizado, para além do certo/errado, é mais rápido no ensino presencial. Mesmo os fóruns de debate que surgem em cursos online só funcionam de modo eficaz quando têm vários responsáveis a responder às dúvidas e a aconselhar formas alternativas de abordar os problemas e ultrapassar as dificuldades verificadas.

.O que nos tem ensinado a experiência do ensino à distância até agora? Funciona ou não funciona? As escolas estão preparadas? Os alunos estão preparados? Os pais estão preparados? 

O ensino à distância no final do ano lectivo de 2019-20 acabou por ser reconhecido como um “remendo” ou um “remedeio”. Serviu para que a maioria dos alunos tivessem “qualquer coisa” que os mantivesse ligados às escolas e às aprendizagens. Mas percebeu-se depressa que o entusiasmo com os meios digitais implica muito mais do que ligar um computador e este à net para se ter um verdadeiro modelo alternativo de ensino. Na primeira vaga da pandemia, “funcionou” no sentido de que existiu, mas ficou muito longe de funcionar de forma satisfatória.

Os alunos do ensino não-superior, e como já referi os do Ensino Básico por maioria de razão, precisam de muito mais do que uma disciplina semestral (ou mesmo anual) de T.I.C. com uma carga horária muito reduzida, para conseguirem desenvolver uma consolidar uma lioteracia digital que ultrapasse a de utilizadores de recursos lúdicos ou de regras muito básicas de uso seguro de redes sociais. Necessita de uma abordagem transversal ao currículo. E que esse trabalho se desenvolva em articulação com as famílias dos alunos, caso contrário não conseguirá ter um verdadeiro sucesso.

.A comunidade escolar tem condições para que este ensino funcione? Fala-se de um aumento de desigualdades, de desequilíbrio de oportunidades. 

Neste momento, ainda não há condições para a generalização deste modelo. Não porque crie necessariamente novas desigualdades, mas porque acentua as que já existem e as tornam mais evidentes. Seja de tipo material, como a falta de acesso a equipamentos ou acesso em condições precárias, seja ao nível do capital cultural das famílias, porque muitos alunos não têm no seu contexto familiar quem esteja em condições de os apoiar.

Nas escolas, há também um evidente desequilíbrio de meios, com escolas muito bem equipadas (com apoio de autarquias ou através de parcerias com empresas do meio digital ou editorial) e outras sem terem sequer condições de segurança para terem salas equipadas com os equipamentos indispensáveis para que todos os alunos possam aceder a um modelo de ensino de base digital. Não chega ter 1 ou 2 salas equipadas, mas muito mais do que isso. Já hoje se verifica que entre colégios privados ditos “de topo” (com elevadas propinas e meios financeiros avultados) e a generalidade das escolas públicas existe uma clara diferença de oportunidades.

Há um investimento muito avultado a fazer, não apenas na aquisição de equipamentos, mas muito em particular na sua manutenção e actualização, pois rapidamente ficam obsoletos ou, no mínimo, pouco competitivos. É um investimento que não fica para uma década sequer, exigindo meios financeiros permanentes. Não é o mesmo que comprar mesas, cadeiras e armários.

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