A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte II

Como já tinha antevisto em anterior oportunidade, há autores que têm merecido uma abusiva reverência e, por isso, têm beneficiado de um lugar cativo no cânone nacional de um modo que só pode ofender qualquer verdadeira sensibilidade. E não há que temer denunciá-los, pois é necessário expurgarmos todos estes péssimos exemplos de preconceito e intolerância em relação à alteridade nas suas mais variadas manifestações.

Vamos a isso, a bem de uma Cultura Nova, sem laivos de uma nostalgia tradicionalista, com o seu travo amargo e salazarento.

  • Luís de Camões – exemplo clamoroso de um autor que concentra os dois pólos maiores do preconceito. A sua Lírica é uma demonstração extensa de estereótipos de género, objetificação da Mulher, misoginia e machismo, mesmo que com a cobertura muito superficial de um romantismo cínico. Já a sua épica, simbolizada pel’Os Lusíadas, é um monumento no pior dos sentidos, concentrando o que de pior temos de nacionalismo, imperialismo, supremacismo, racismo, xenofobia, intolerância religiosa, eurocentrismo e militarismo, não esquecendo a lascívia voyeurista e a pornografia explícita e, de novo, o machismo e a objetificação da Mulher no triste e decadente episódio da Ilha dos Amores, a que o autor, sem pudor, dedica parte significativa dos Cantos IX e X.
  • Fernão Mendes Pinto – um mentiroso e fantasista assumido. O tom rocambolesco da sua narrativa não esconde o seu eurocentrismo, xenofobia e racismo latente, assim como o seu oportunismo religioso.
  • Francisco Manuel de Melo – criminoso condenado, aventureiro sem fidelidades constantes, marialva nos amores é um exemplo acabado do aristocrata privilegiado que vive de estratagemas que ultrapassam com frequências as fronteiras da legalidade. A sua Carta de Guia de Casados reproduz estereótipos de género numa lógica binária e as suas Epanáforas são um exemplo de nacionalismo, militarismo e apologia do colonialismo.
  • Diogo Paiva de Andrada – outro ideólogo da binaridade e estereotipia de género, misoginia e machismo. Basta abrir, ao acaso, o seu Casamento Perfeito para se encontrarem passagens mais do que explícitas da sua atitude tradicionalista; vejam-se os capítulos XII (“Que não seja a mulher mais rica que seu marido”), XIV (“O parecer do rosto, que os homens devem escolher nas mulheres com que se casam”) ou do XXI ao XXV, nos quais se faz a apologia das mulheres devotas, virtuosas, caladas e sofridas e dedicadas às tarefas domésticas.
  • Padre António Vieira – a sua hipocrisia já começou a ser desmascarada e não era sem tempo. É um caso maior de proselitismo religioso, de intolerância, apologia do colonialismo e esclavagismo, racismo e moralismo decadentista. Nem merece maior perda de tempo, pois há quem já tenha feita a denúncia deste colonialista e racista com toda a propriedade. A teoria de que seria mestiço não passa de uma narrativa mistificadora, na tentativa de o desculpabilizar por todo o mal que espalhou em torno do Atlântico.
  • Francisco Xavier de Oliveira (Cavaleiro de Oliveira) – figura menor das Letras, mas nem por isso menos insidiosa no seu machismo, misoginia e objetificação da mulher, até porque a sua prática esteve de acordo com as teses expostas na sua vergonhosas Cartas, indevidamente apresentadas como “familiares”. Leia-se a seguinte passagem da sua carta ao Conde Claravino Basso: “Respeitem-se as mulheres como quinta-essência das obras da natureza; reputem-se mais brilhantes que os astros; creia-se que à vista dos seus olhos perdem os raios de sol o esplendor; levantem-se altares aos seus merecimentos, perante os quais se prostrem e se sacrifiquem todos os dias tropas de amantes e bandos de adoradores que esperam do menor dos seus agrados a sentença dos destinos. Tudo isto não é capaz de desfazer a ideia da imperfeição do sexo. Execrável e inadmissível.
  • Ribeiro Sanches – o título da sua obra mais conhecida deixa-nos logo de sobreaviso pela desnecessária referência à “mocidade”. Não é, portanto, mera coincidência que se encontre adiante nestas Cartas o elogio a Sócrates, conhecido pelas suas preferências afectivas (deixemo-las assim) problemáticas, bem como múltiplas referências a “mocidade” e “meninos”, mesmo que a coberto de denúncias aparentes de injustiças e desigualdades. A mensagem subliminar e libidinosa é absolutamente inegável. Pedofilia latente.
  • Luís António Verney – intolerância cultural, moralismo histórico e tradicionalismo pedagógico-didático, que se expressam desde a proclamação de ser seu o Verdadeiro Método de Estudar. Como tem sido demonstrado, a Educação deve ser diferenciada, individualizada, multi, inter, trans e pan-cultural, baseada numa inter-personalidade relacional, a partir do qual se construam em liberdade os contextos educativos, numa perspectiva que deve ser inclusiva e crítica dos saberes tradicionais e e uma concepção estanque dos saberes. Por isso, capítulos sobre a importância do ensino da Matemática ou da História não fazem sentido e podem mesmo ter uma influência trágica na Educação Afirmações como “o facciosismo nasce do não-saber” são por demais perigosas, pois está já firmemente estabelecido que é o culto do Saber que nos limita um olhar plural sobre a realidade, que devemos absorver de forma integrada, holística, numa simbiose Pessoa-Natureza que recuse o estereótipo discursivo da “Humanidade” que remete o Humano para “homem”, quando este não é mais do que um segmento passageiro do espectro maior de um fluxo de identidades pletóricas.

Em breve, parte III dedicada a alguns dos vultos mais lastimáveis das Letras portuguesas de Oitocentos, um século muito marcado por figuras indevidamente exaltadas como canónicas, desde o intolerante Herculano ao cínico Ortigão, não esquecendo o depravado Eça e o perverso Camilo.

14 opiniões sobre “A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte II

  1. Não diria melhor…andei quatro anos pela Nova a complementar estudos e escolhi autores que sofreram o aperto da Inquisição…e, agora, pasme-se perante este mundo!

    Como nunca mais tenho idade para reforma (vá, eu digo aposentação)…acabem-me com o Programa de Português! Também pouco importa: já me acabaram com a Língua (AO90) e com a Gramática (Terminologia)…

    Porra pá! (pronto: porreiro, pá!).

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  2. Tudo isto por causa duma noticiazita do Público…
    Acalmem-se por favor, os media são máquinas que vivem do clickbait e da tagarelice que conseguem provocar. E neste caso, e noutros idênticos, parece que trabalharam bem.

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      1. E note-se que os epítetos dedicados ao Eça, seguem-se às denúncias do Padre António Vieira, à prevista demolição de brasões na Praça do Império, ao apelo à destruição do Padrão dos Descobrimentos, etc, etc.

        Tomara ser apenas uma “noticiazita”.

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      2. E estás a trabalhar bem 😉 mas este e outros casos comos os que referes abaixo seriam anedóticos e inócuos se os media não os amplificassem para provocar falatório e pôr toda a gente a opinar. Daqui a uns dias sai outra coisa e o paleio vai continuar.

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  3. O Eça, para além de cínico, era um miserável machista misógino. Um sacana. É queimar os canhenhos todo que o animal escrevinhou.

    Paulo, fartei-me de rir com isto. Parabéns!

    Permite-me este desabafo:

    Descobri que aquela rapariguita da cerimónia de ‘entronização’ do Biden com a cuidada ajuda da sua entourage exigiu que o seu livro fosse traduzido para o catalão por alguém que fosse mulher, ativista e, de preferência, negra.

    Isto está a ir muito para lá do Index da Inquisição Espanhola. Apesar de tudo, o Index era feito com base nas palavras escritas.
    Os Torquemadas do século XXI prometem deixar fortes marcas… Estes imbecis vão para além das palavras: estes cretinos censuram pessoas com base na cor da sua pele, na sua atividade cidadã e no seu género!
    Arriscamo-nos a andar uns passos fortes em frente na área do totalitarismo. É bom que nos possamos rir e é essencial que estejamos atentos e…

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