Em Defesa da História e da Memória Histórica – Jorge Santos

…e outras opiniões pessoais!

Este modesto artigo, visa abrir debates em torno do seu título, em função do tempo disponível de cada um, das prioridades e do (in)cómodo para os pensadores que realmente queiram reequacionar certezas efémeras ou ver só a ponta do iceberg.

Tenho para mim a ideia clara que quando nascemos, não somos uma folha em branco. Transportarmos genes, grupos sanguíneos, cores de olhos, cabelos e padrões de comportamento… herdados dos nossos pais, avós, bisavós, etc. Como disse o Sr. Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, “Não há portugueses puros” em termos étnicos.

Tenho também a ideia metafórica que a (nossa) História acompanha-nos sempre, tal como a nossa sombra, quer quando caminhamos em direção ao sol, ou quando caminhamos em sentido oposto. Nunca nos abandona!

Tem havido um certo alheamento, desvalorização e relativização da História e do saber científico que mentes brilhantes produziram, quando no seu labor exaustivo e hercúleo, folhearam milhares de páginas, investiram anos ou várias décadas de estudo, entrevistando centenas ou milhares de protagonistas e testemunhas oculares, cruzando declarações, afirmações, com fotografias, filmes e marcadas deixadas na pele, nos ossos, sangue e no cérebro. A imagem vale por mil palavras (nos tribunais é ouro e na medicina ajuda a diagnosticar e prognosticar males e terapêuticas). Podiam citar-se inúmeros exemplos e noutras ciências ou áreas do saber. Na História (des)monta e (des)constrói narrativas e opiniões mal fundamentadas ou enviesadas. Para o historiador rigoroso, objetivo, neutral, independente, ouve todos (da esquerda, do centro, da direita), apura tudo, consulta as fontes primárias, o tal “documento é monumento” como Jacques Le Golff dizia. Uma vez tocadas e lidas as “fontes”, o historiador submete-as ao crivo do método científico-histórico e publica o seu trabalho, com centenas ou milhares de documentos probatórios do que pretende defender e… contra factos e números, não há argumentos. Milhares de provas seriamente reunidas e corretamente identificadas e referenciadas, não podem ser levianamente questionadas! É essa a grande vantagem e contributo da História e do Saber Histórico, alavancada pelo enorme contributo da Escola dos Annales, quando indelevelmente apela a uma abordagem nova inter ou multidisciplinar da História. A Psicologia, a Sociologia, a Economia, a Antropologia, a Ciência Política, a Demografia, a Religião, a Neurociência, a Neuroimagem, as TIC, cada uma destas áreas, veio auxiliar e reforçar o valor da História.

Reparem ilustres leitoras e leitores, que desde a zona do Crescente Fértil, os berços da nossa civilização ocidental, com matrizes identitárias judaico-cristãs e greco-romanas (e levemente islâmicas), a essência do Homem, pouco mudou. Em termos de avanços tecnológicos, sabemos daqui a pouco mais de Marte e dos exoplanetas do que do nosso “próximo”. O sábio José Saramago, disse em 1998: “Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante”.

Muito antes deles, outros vultos maiores do pensamento mundial escreveram no papel e na pedra, o que passo a citar:

“A vida começa verdadeiramente com a memória”. (Milton Hatoum)

“Se queres prever o futuro, estuda o passado.” (Confúcio)

“A história é émula do tempo, repositório dos factos, testemunha do passado, exemplo do presente, advertência do futuro”. (Miguel Cervantes)

“Um povo que não conhece a sua história está condenado a repeti-la”.  (Edmund Burke)

“Eu conquistei a Europa pela espada, os que vierem depois de mim, conquistarão pelo espírito.” (Napoleão)

– “Nunca se mente tanto como antes das eleições, durante uma guerra e depois de uma caçada”. (Bismark)

“História é passado e presente; um e outro inseparáveis.” (Fernand Braudel)

“Se você não conhece a História, não conhece nada. Você é uma folha que não sabe que é parte de uma árvore.” (Michael Crichton)

Hoje, dia em que escrevo este modesto artigo, o Instituto Sueco V-Dem, na Universidade de Gotemburgo, denúncia que a “Democracia global retrocedeu para níveis de há 30 anos e denuncia uma aceleração das tendências autocráticas”. Deveras preocupante!

– No passado e no presente cometemos erros. Expulsamos os judeus! Não estabelecemos relações ainda mais estreitas, sólidas e verdadeiramente irmãs, com o Brasil, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Santo Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Goa, Macau, Timor, etc. Muito já foi feito, mas ainda está muito por fazer!

Ainda não soubemos captar o contributo dos povos acima mencionados, assim como não soubemos estabelecer parcerias ou colaborações mais estreitas com a Rússia (já que alguns europeus não tem tratado bem os russos e descurados os grandes cientistas, escritores, matemáticos e artistas nascidos na Rússia, Ucrânia, e noutras repúblicas da ex-URSS). Nós queremos trabalhar com eles, em prol da ciência, da tecnologia e por um mundo mais “sustentável”! Queremos trabalhar com a Índia, o Iraque, o Irão, a Arábia, o Dubai, os Emirados Árabes Unidos, com a Austrália, com a Suíça, o Canadá, o Japão (fomos os primeiros europeus a chegar a esse país pelo qual nutrimos enorme estima), a China (ligações desde o século XVI) e manter as ligações umbilicais à União Europeia e à Inglaterra. A propósito, fiquei muito triste com a saída do Reino Unido da União Europeia. Espero que um dia, regresse novamente à União Europeia. Não concebo uma União Europeia sem o Reino Unido!

Com os Estados Unidos, a nossa ligação é fidagal, coronária e cerebral, pois fomos o 1º país do mundo a reconhecer a Independência dos EUA.

É meu desejo deixar uma certa distopia em que vivemos e direcionamo-nos para uma utopia tipo norueguesa!

Distinções simbólicas:

– Diamante azul: para o Papa Francisco, pela viagem ao Iraque, pelas palavras e pelas ações praticadas;

– Rubi vermelho: pela ação marcante do Engenheiro António Guterres, enquanto Secretário-Geral da ONU, num mandato cheio de espinhos e entraves. Revelou uma coragem inexcedível. Orgulho-me de si!

– Esmeralda: para a jornalista da TVI24, Catarina Canelas pelo seu Excelente e Maravilhoso Documentário: “Plástico: o Novo Continente”, entronca na perfeição nas afirmações de Pitágoras (570 a.C. – 490 a.C.) quando disse: “Enquanto o homem continuar a ser destruidor impiedoso dos seres animados dos planos inferiores, não conhecerá a saúde nem a paz. Enquanto os homens massacrarem os animais, eles se matarão uns aos outros. Aquele que semeia a morte e o sofrimento não pode colher a alegria e o amor.” Ainda alguém duvida da importância da História?

Jorge Santos

P.S. Espero que nos novos manuais de História venham um suplemento, com 5 ou 6 páginas, dedicados às epidemias e pandemias que assolam a Humanidade há mais de 2 500 anos. E já agora, mais outras tantas páginas, dedicadas à História da Vacinação, aos entraves, obstáculos naturais, aos Inventores e as pessoas negacionistas. Este é um filme que  já tem séculos. Não basta explicar ou retratar a crise do século XIV e a chegada da Peste Negra à Europa. Nós, os professores de História, queremos ligar e articular melhor o presente ao passado e vice-versa, para tornar a História o mais realista possível. Afinal, os médicos, os investigadores, cientistas e inventores, passam pelas nossas aulas na adolescência e talvez comecem a acreditar mais no valor incomensurável da História.

 Desculpem a não referência a países, a quem muito devemos (ex: França, Alemanha, Luxemburgo e tantos outros)! Ficará para outra oportunidade. O meu país quer contribuir com toda a gente que luta pela valorização do conhecimento, fonte de luz, do progresso, em direção a mundo mais justo, humano, solidário e mais sustentável (ecológico). A nossa “espécie” do homo sapiens sapiens, ou homo digitalis, não pode querer caminhar para a 6ª extinção em massa, ou quer?

Jorge Santos

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