A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte IV

A segunda metade do século XIX é marcada por diversas tendências, qual delas a mais lastimável, nas Letras nacionais. As de cariz mais literário foram o naturalismo e realismo que, em boa verdade, pouco se distinguem na forma como representam uma sociedade dominada por uma burguesia proto-capitalista, típica de um país de desenvolvimento industrial tardio, e em que a maioria da população vive em condições de miséria ou extrema pobreza, com um proletariado urbano ainda em processo de formação e que é associado de forma sistemática aos piores vícios tipificados por uma ideologia hipocritamente puritana. Outras tendências são de natureza mais política e social, sejam as associadas ao nascente republicanismo, sejam as que procuram denunciar a decadência da nação portuguesa, embora todas sejam marcadas por um exacerbado nacionalismo e sinais evidentes de um profundo colonialismo racista, algo que se manifesta de forma muito clara no episódio da reacção ao Ultimato britânico. Mesmo os movimentos alegadamente “democratizantes” são marcados por um sexismo chocante, como se demonstraria ao chegarem ao poder.

Mas avancemos por partes, começando pelo triunvirato fatal do realismo/naturalismo.

Eça de Queirós – as suas principais obras são sintomas claros de uma corrupção moral avançada, pois os temas abordados são de um sensacionalismo reprovável, como seja o caso do incesto, dos amores proibidos, das relações extra-conjugais, do adultério. Lado a lado com estes sensacionalismo de cordel, apresenta-se uma concepção tradicional e binária das relações entre os sexos, de que são exemplos casais de matriz burguesa como O Jorge e a Luísa de O Primo Basílio, obra em que as figuras femininas são representadas de modo unidimensional e caricatural, das criadas Joana e Juliana a D. Felicidade de Noronha, senhora de uns cinquenta anos, solteira, que é apresentada de modo muito pejorativo como “muito nutrida, e, como sofria de dispepsia e de gases, àquela hora não se podia espartilhar e as suas formas transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabelos levemente anelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, de uma alvura baça e mole de freira; nos olhos papudos, com a pele já engelhada em redor, luzia uma pupila negra e úmida, muito móbil; e aos cantos da boca uns pêlos de buço pareciam traços leves e circunflexos de uma pena muito fina”. Já n’O Crime do Padre Amaro, primeira obra do autor, em que se aborda o tema da religião e da Fé de forma apenas destinada a chocar, salta à vista a homofobia dedicada à personagem Libaninho, assim como o desprezo dedicado a pessoas com défices físicos, dedicando o nome de Totó à jovem paralítica que surge na história. Quanto a’Os Maias, nem me vou alongar no rol de taras e manias expostas nas suas páginas, apenas realçando que, para além do latente racismo recentemente denunciado, representa o pináculo de uma representação burguesa e privilegiada da sociedade, sendo erradamente tida como crítica social o que não passa de uma apologia da depravação e de uma sexualidade que explora a ingenuidade feminina, apresentando a mulher como a tentação que desencaminha os homens da virtude. E a estátua sexista que lhe foi dedicada em Lisboa só ajuda a confirmar esta tese:

Ramalho Ortigão – amigo e cúmplice de Eça, é um outro exemplo de elitismo burguês e de uma visão do mundo distorcida n os valores essenciais. A Mulher é vista como figura decorativa e passiva perante a lascívia masculina (cf. o texto d’As Farpas de Junho de 1876 sobre as estatísticas de casamentos e divórcios, em que o sexismo e a misoginia atingem um verdadeiro paroxismo a propósito do tema do namoro, que se diz obcecar qualquer jovem rapariga: “Ella illude a vigilancia carinhosa de sua mãe; evade-se aos reparos severos de seu pae; escreve ás escondidas; levanta-se de noite para apparecer a uma janella; confia o seu segredo a um cocheiro, a um lacaio, a um moço de recados; torna seus cumplices a sua creada de quarto e os seus pequenos irmãos; inventa subterfúgios, expedientes, suppostos convites, fingidas doenças; enreda, atraiçoa, mente; vive na hypocrisia, no fingimento, na indignidade; torna-se triste, nostalgica, cretinisa-se no espasmo cerebral da idéa fixa.” Em outro texto, a objectificação da Mulher e do corpo feminino é evidente, nele se podendo ler que “a mulher feia — e quando digo feia não somente me refiro à mulher de nariz torpe e de boca vilã, mas igualmente à mulher mal vestida e mal penteada —, a mulher plenamente feia é uma calamidade social. Ela é a desonra da sua raça, o eterno ridículo do seu marido, a tristeza dos seus irmãos, a humilhação dos seus pais”.

Fialho de Almeida – figura paradoxal que critica de forma ácida o que considera serem os vícios do presente, mas em nome de uma nostalgia passadista que vê no passado qualidades que dificilmente assim o poderemos considerar, como quando (texto de 24 de Setembro de Os Gatos) renega algumas práticas de prostituição juvenil, para elogiar os tempos em que “o homem, mesmo vicioso, mantinha a virilidade altiva da raça, contendo os seus desmandos num ciclo de orgias, que raro faziam violências à natureza”. Embora seja de elogiar a atitude de amor livre que se pressente nesta passagem, não se pode negar que tudo está imbuído de uma mentalidade machista, misógina e explicitamente racista. Que regressa mais adiante quando se afirma que “filhas de banqueiros ou filhas d’operarios, não se imagina o que elas são d’inquietadoras, aos doze, treze, quatorze annos, e com que felina arte, encantadora e abominável, muitas dessas pequenas sabem fazer a corte aos homens, a occultas das aias e das mamãs. Desconhecidas larvas, rastejando-lhes no sangue mórbido que herdaram, vem produzir naquela crise da idade, as mais singulares e inconfessáves pixerias.”

Júlio César Machado – embora menos conhecido do que os anteriores, a sua obra Da Loucura e das Manias em Portugal é um reportório de péssimo gosto, no qual se tratam de forma abusiva situações muito sérias, como sejam a natureza feminina ou a incapacidade física. Sobre alguns infelizes, escreve que “o mais trivial é não se poder ver um corcunda sem ficar enguiçado. Parece que, sobretudo em jejum é desastroso”. Não satisfeito, acrescenta que “há quem afirme que os vesgos ainda são piores que os corcundas” Também aqui, a Mulher é representada de forma negativa e histriónica, como se demonstra neste excerto: “Elas falam e berram, dias, noites inteiras, e tornam-se mais notáveis nos insultos, no descomposto do fato, e até nas tendências malfazejas – atirando sempre que podem uma tigela contra as grades, e os cacos contra quem vai.”

Quanto aos republicanos, que o tempo revelaria em toda a sua hipocrisia misógina, haverá algo mais deplorável do que o seu hino xenófobo, nacionalista, militarista, colonialista e imperialista que vergonhosamente ainda usamos como hino? Seja na versão original (“contra os bretões”) ou na retocada (“contra os canhões”)? Que país do século XXI, de desejada colaboração internacionalista multilateral, pode aceitar estas estrofes como símbolo nacional?

Heróis do mar, nobre povo
Nação valente, imortal
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória
Oh, Pátria, sente-se a voz
Dos teus egrégios avós
Que há de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar

Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar
Contra os canhões
Marchar, marchar
!

Adenda: no fascículo anterior, esqueci-me lamentavelmente de incluir Bocage, esse um vergonhoso pornógrafo, cultor da obscenidade gratuita e de uma sátira cínica que lhe valeu justos dissabores e uma passagem pelo Limoeiro.

6 thoughts on “A Minha Proposta De Index Politicamente Correcto Das Letras Portuguesas – Parte IV

  1. Sempre achei que a disciplina de Língua Portuguesa trilhava maus caminhos assim que se desviava da leitura de “A Bola” e das bulas dos medicamentos.

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  2. Sem dúvida um bom texto, mas…. curioso como se nota cada vez menos a ironia… p. ex. em relação a esse anacronismo que é o hino nacional, subscrevo tudo. E quanto ao Eça, que originou agora tanta indignação, também é curioso que o mesmo já tenho acontecido em meados do século passado, o que levou alguém a escrever na altura “No Eça nem com uma flor se toca”. Tantas décadas depois, cá estamos na mesma e isso também dá que pensar.
    Mas gostei, e agora que vou começar Os Maias no 11º, acho que até vou aproveitar algumas coisas daqui 🙂

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