Este Mês, No JL/Educação

Há pouco mais de vinte anos, em Março de 2001, os talibã destruíam a cabeça da maior estátua de Buda, na sequência da destruição de outras estátuas na zona de Bamiyan, no Afeganistão. E grande parte do mundo, em especial nas sociedades liberais em torno do Atlântico, chocou-se com a manifestação de intolerância religiosa e a insensibilidade cultural de um grupo radical e fundamentalista que se revelava incapaz de conviver com a diversidade e com exemplos do património histórico comum da Humanidade. Os talibã consideravam que as homenagens a Buda eram contrárias à verdadeira religião e eram símbolos perigosos de um passado (e presente) que era necessário destruir. Na passada semana, no local da destruição, foi feita uma cerimónia na qual se usou a tecnologia da projecção em 3D para recriar o que ainda não foi possível reconstruir.

Entre 2014 e 2016, o auto-proclamado Estado Islâmico destruiu mais de uma dezena de sítios com vestígios arqueológicos, com destaque para a demolição da maior parte das ruínas da cidade romana de Palmira em Julho de 2015. Os ataques a outros exemplos de património histórico, de relevância local ou global, como as cidades históricas de Dura Europos, Hatra, Nimrud ou Nínive, foram duramente condenados no  mundo ocidental, mesmo se surgiram vozes a tentar explicar a intolerância como uma “manifestação da rejeição do Estado-Nação” ou de combate ao uso dos sítios históricos como recurso para a propaganda em estados como o Iraque ou a Síria (Christopher W. Jones, “Understanding ISIS’s Destruction of Antiquities as a Rejection of Nationalism”, Journal of Eastern Mediterranean Archaeology and Heritage Studies, Vol. 6, n. 1-2, 2018, pp. 31-58).

Se do património construído passarmos para as Letras, há muitos exemplos recentes de intolerância em relação a autores e obras que este ou aquele grupo considerou ofensivo ou mesmo blasfemo, de Salman Rushdie a Kamel Daoud. E todos nos lembramos do ataque à redacção do jornal satírico Charlie Hebdo, assim como de outros episódios similares. E apontou-se o dedo à intolerância de quem não consegue lidar de forma pacífica com a diferença e a a alteridade. Entre nós, ficou conhecida a revolta geral quando se soube que um secretário de Estado eliminara José Saramago de um prémio literário, por achar que o livro (O Evangelho segundo Jesus Cristo) ofendia as crenças dos católicos, ou o incómodo quando um cartoon de António com o Papa João Paulo II mereceu reprovação de representantes da comunidade católica.

É verdade que em alguns destes casos, a agravar a atitude de intolerância estiveram acções de destruição de vestígios patrimoniais ou a tentativa (por vezes conseguida) de eliminação física daqueles que foram considerados inimigos da verdadeira Fé ou da Verdade única. Mas a raíz de tudo encontra-se na atitude de fundamentalismo perante valores de outros tempos, formas de pensar ou crenças que se consideram erradas. E quem assim agiu achou que o estava a fazer em nome do Bem.

Claro que a escala é diferente, mas atravessamos um período em que não é difícil detectar o recrudescer e multiplicar de atitudes do mesmo tipo em sociedades que se afirmam defensoras das liberdades individuais, da tolerância e do pluralismo de opiniões e manifestações artísticas. Não é um fenómeno novo, mas parece ter ganho novo fôlego uma atitude de revisão do passado à luz dos valores do presente, lançando anátemas sobre vestígios do que até podemos concordar serem períodos com acontecimentos perturbadores, mas que nem por isso deixam de ter o seu contexto e até servirem como útil ilustração da evolução dos valores das sociedades e da Humanidade, em geral.

Há cerca de um mês, um político português considerou que deveria destruir-se o Padrão dos Descobrimentos por estar ligado à propaganda do Estado Novo. Considerando-o um “mamarracho”, acrescentou que é “um dos grandes monumentos do regime ditatorial”. Outra política, por uma vez com alguma subtileza, retratou o Padrão a descolar para o céu da sua actual localização. Ambos entraram numa “onda” que considerou por bem destruir estátuas de Cristóvão Colombo por ter estado na origem do genocídio de povos como os Astecas e os Incas. Algum tempo antes, foi a vez de se assistir a críticas ao conteúdo das obras de autores como o Padre António Vieira por transmitirem conteúdos de natureza racista, seguindo-se a vandalização de uma estátua sua.

Sei que a contextualização das figuras históricas no seu tempo, assim como a de obras literárias e artísticas, não pode justificar tudo, mas existem evidentes diferenças entre Colombo e Cortez, assim como entre o Padre António Vieira e Torquemada. E lembremo-nos que entre nós há figuras que estão longe de ser consensuais, apesar do impacto da sua acção (ou talvez mesmo por isso) como o Marquês de Pombal, Afonso Costa ou personalidades da nossa História mais recente, que uns consideram ídolos e outros acham demónios.

Se olharmos para as letras nacionais, desde os seus primórdios, com as lentes do presente e dos valores do chamado “politicamente correcto” e das melhores intenções, acabaremos num cenário entre o Farenheit 451 e o 1984, a destruir o que incomoda e a esvaziar as palavras de sentido. Seremos obrigados a reconhecer que as cantigas de amigo e amor são sexistas, misóginas, presas de um pensamento binário nas relações afectivas, assim como a esmagadora maioria da nossa poesia lírica, da renascentista à contemporânea. Teremos de admitir que os cronistas da Expansão Portuguesa (Barros, Castanheda, Correia, Couto, por exemplo) são casos perdidos de apologia do nacionalismo imperialista, do militarismo, da violência racista e xenófoba e do colonialismo. Que Camões também o é, assim como todos aqueles que, vivendo do século XV ao XVII, consideraram que Portugal estava numa missão justa na conquista e evangelização dos povos tidos como ímpios do Brasil ao Japão.

Há alturas em que penso que há gente que estaria na primeira fila para enviar o Bocage de volta para o Limoeiro por libertinagem e obscenidade ou o Almeida Garrett de regresso à barra dos tribunais por causa do seu, quiçá marialva, Retrato de Vénus. Embora me pareça evidente que a maioria dos autores oitocentistas retrata uma sociedade dominada pela incipiente e provinciana burguesia nacional, nem sempre se libertando de uma visão estereotipada das classes populares, isso não significa que devemos amputar as suas obras de passagens que hoje podemos considerar socialmente preconceituosas ou insensíveis à diversidade de géneros ou à natureza feminina, como aquela em que Ramalho Ortigão declara que “a mulher feia — e quando digo feia não somente me refiro à mulher de nariz torpe e de boca vilã, mas igualmente à mulher mal vestida e mal penteada —, a mulher plenamente feia é uma calamidade social” (As Farpas, Junho de 1876).

Estaremos prontos para reconhecer que o Manifesto Anti-Dantas, em vez de ser uma pérola do inconformismo com as tradições é um texto que evidencia um claro preconceito contra a etnia cigana e que Fernando Pessoa tem escritos explicitamente anti-democráticos e que, apesar da escassa simpatia por Salazar, foi um activo defensor de uma solução política autoritária, desde o apoio à de Pimenta de Castro à justificação teórica de uma Ditadura Militar como a melhor solução governativa para Portugal?  Foi ainda Pessoa que em 1928 escreveu que, para as suas propostas políticas, não pretendia “a atenção dos sub-Portugueses quye constituem a maioria activa da popilação”, mas sim “dos outros, dos que têm ainda um cérebro que pode vir ainda a pertencer-lhes.” (O Interregno – Dsfesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal, p. 11 da edição de 2007)

Será que o claro anti-republicanismo dos seus escritos dos anos 10 do século XX, mesmo alguns inéditos em que ele considera (para deixarmos de fora Afonso Costa, o seu ódio de estimação) António José de Almeida ”um histérico evidente” com “feitio destrutivo”, Alexandre Braga “um aborto de um imaginativo conservado em álcool” ou Bernardino Machado “tão labrego no insinuar, tão indecentemente saracoteador da sua candidatura (…) tão desmandada besta” (Páginas de Pensamento Político: 1910-1919, I, pp. 78 e 82), deve implicar que se considere a sua obra merecedora de umas tesouradas censórias em nome das boas maneiras?

E o que faremos ao Sei os teus Seios de Alexandre O’Neill, enquanto nos escondemos quando, em dia de futebol, cantarem A Portuguesa, esse hino de inspiração colonialista e pleno de nacionalismo imperialista ?

4ª Feira – Dia 45

A recta final de qualquer período é marcada por todo o aparato que agora rodeia a avaliação dos alunos. O que a tecnologia poderia facilitar, a mentalidade burocrática faz por dificultar, criando múltiplos mecanismos de controlo do trabalho dos professores, de quem parece normal desconfiar-se.