Para Que Conste…

… tenho 56 anos, sou professor, pertenço a um dos grupos de risco da lista inicial, e vou recomeçar as aulas na 2ª feira sem ser testado (parece que será dia 8), com aqueles testes que podem dar não/sim/talvez), nem vacinado.

Por isso me custa que alguém razoável e racional como o António Araújo escreva o que adiante transcrevo, mesmo sabendo-se que menos de 2% dos professores em exercício têm menos de 30 anos e que no 1º ciclo (aqueles que já foram em parte vacinados, com direito a televisionamento) são menos de 1%.

Há dias, com a conivência de um país inteiro, vimos professores sorridentes, com 20 ou 30 aninhos, a esticarem os braços para as picas milagrosas, e ninguém se questiona, ninguém se indigna, ninguém interpela as autoridades máximas da nação sobre como é possível, como é moral e humanamente admissível que jovens sem risco algum estejam alegremente a tirar o lugar aos mais indefesos, aos mais carentes. As vacinas e os recursos mobilizados para vacinar professores por atacado poderiam servir para salvar muitas vidas – cálculo que não foi feito, de todo, até porque ninguém o reclamou. O que ocorreu em Portugal no passado fim-de-semana foi uma gigantesca operação de eutanásia cívica e moral, reveladora do mais profundo desprezo pela vida humana e pela sorte dos mais idosos. Não duvidem: a História registará tudo isto, este momento ignóbil. Mas, por ora, poucos ladraram, ou sequer uivaram. Os cães seriam incapazes de tamanha maldade.

(já agora… eu é mais gatos… de quem muita gente, infelizmente, não gosta, por não os entender)

Sábado – Dia 55

Logo coloco link, quando sair no Educare.

Dia 55 – Um Diagnóstico Estranho

Gostava de voltar ao todo o aparato que se armou em torno do “diagnóstico” realizado pelo IAVE às aprendizagens que se diz terem sido perdidas em virtude dos efeitos da pandemia na Educação. Porque há muitas inconsistências na metodologia do estudo, mas ainda mais na encenação que envolveu a divulgação dos seus resultados. Não me parece que tenha sido por falta de preparação – tudo está a decorrer de acordo com uma lógica facilemnte perceptível – mas porque os encenadores parecem voltar a tomar-nos todos por tolos. Haverá uma quantidade razoável por aí, que nem dá por isso, mas nem todos gostamos de ser assim tratados.

Desde logo, são estranhos alguns dos resultados obtidos, até porque acontecem de forma sistemática e transversal às provas e aos anos, dando a entender – sem ironia – que a concepção da ferramenta de avaliação não foi a melhor. Não é muito normal que os alunos respondam de forma mais acertada a questões apresentadas como de maior dificuldade do que às consideradas mais fáceis.

Na prova de “Literacia da Leitura e da Informação”, mais de 80% dos alunos do 9º ano conseguiram responde a pelo menos dois terços das questões de nível 3, enquanto menos de 50% conseguiram isso para as questões de nível 1 ou 2 (os mais baixos, numa escala até 4). No caso dos alunos de 6º ano, as respostas a questões de nível 2 e 3 também tiveram melhores resultados dos que as de de nível 1. Na prova de “Literacia Matemática”, as discrepâncias são menores, mas de qualquer modo, os alunos de 9º ano responderam melhor às questões de nível 2 do que às de nível 1, e às de nível 4 melhor do que às de nível 3. Os do 3º e 6º ano responderam de modo equivalente às de nível 3 e 4. Já na prova de “Literacia Científica”, voltam a verificar-se incongruências que, se fosse em testes feitos nas escolas por professores (não especialistas em avaliação recrutados para o efeito, portanto), levariam a críticas quanto á fiabilidade da ferramenta usada: Os de 3º e 6º ano ano respondem melhor a questões de nível 3 e 4 dos que às de nível 2, enquanto os de 9º ano respondem melhor às de nível 2 do que às de nível 1.

Gostava de sublinhar que a “categorização” da dificuldade das questões foi feita pelos “especialistas” do IAVE, sendo que qualquer manual de avaliação nos explica que uma distribuição tão irregular e assimétrica dos resultados (acontece, repito, em todas as provas realizadas e em quase todos os anos diagosticados), não é “culpa” dos alunos, mas sim de quem elaborou a prova/teste/ferramenta.

Basear qualquer estratégia de combate a aprendizagens alegadamente perdidas com base em ferramentas que parecem ter sido elaboradas seguindo pressupostos desadequados, mesmo que tenham sido pensadas de acordo com os pré-conceitos de quem ordenou o referido “diagnóstico”, parece-me muito arriscado, muito pouco fiável e pouco sério.