9 thoughts on “5ª Feira

  1. Felizmente, uso repelente, pelo que não sou picado pelo PICA.

    O docente em PICA avançado tem stickers com o acrónimo MAIA e coloridas frases memoráveis do 54 e do 55, em que a letra “o” é substituída por um coração; tem também um screensaver com um uma multidão de pontos que, ao formarem uma galáxia, revelam o rosto do SE João Costa.

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  2. O Coxa rodava como parafuso em porca moída, indignando-se perante a mercadoria exposta, a qual, dada a sua natureza complacente, aceitava os perdigotos vociferados e ouvia indiferente as queixas como se de aumentos de IVA se tratasse. Pela terceira vez, o Morgado passeava o Rosmaninho pela arreata, em frente à porta da venda, sem achar coragem para transpor esse portal de acesso a um universo futurista onde licorosas e destiladas criam o cadinho cultural propenso à evanescência das pestes e ao florescimento do Cante.
    Decidiu o asno a situação — já que quatro patas valem mais do que duas nestas ocasiões —, recusando-se a continuar aquela girândola penosa sob o sol que torrava o asfalto da praça. Travou à sombra e rodou a cabeça para se libertar da arreata. Restava ao Morgado enfrentar o calor da discussão, enquanto o auxiliar de transporte de bens indiferenciados aguardava enxotando moscas. A cada um segundo a sua vocação: os comuns discutem, os filósofos meditam.
    — Patrãozinho, dá uma licencinha ao transeunte para se dessedentar?
    — Entre Morgado. A casa é sua.
    — Passava defronte, sem saber para onde o Rosmaninho me levava, e percebi que alguma coisa alterava a sua reconhecida fleuma britânica.
    — Pois fique sabendo que é mesmo do abandono da fleuma britânica que se trata! Então nós andamos aqui a baixar as calcinhas e a ajeitar os limites da matriz, para proporcionar aos ingleses a oportunidade de provar cerveja que não esteja morna, à hora do dia em que ela mais apetece, enquanto o Boris, em vez de enviar um postal de agradecimento, hasteia a sua dura lei e impede os cidadãos britânicos de pernoitar no litoral português e aldeias adjacentes!
    — Tem toda a razão, compadre. A educação de Oxford e Cambridge já não é o que era e as boas maneiras nas ilhas desapareceram com o Império. A propósito, quem bebia qualquer coisinha era eu.
    — Mas afinal, do que é que ele tem medo? — insistia o Coxa sem se desviar do Norte da Europa, qual fiel orientado para Meca.
    — Pensará que a nossa variante é pior que a dele? Ainda não terá percebido que a baixa densidade das nossas gentes permite acomodar um número crescente de arraiais e eventos? Custa-lhe assim tanto entender que a nossa vocação universalista se alimenta do contacto com os outros povos? Pretenderá obstaculizar a que os seus cidadãos obtenham as doses necessárias de vitamina D, enquanto enxotam as micoses das unhas nas nossas tépidas águas territoriais? Acaso estará convencido de que nos reconvertem em nação digital à bazucada, abandonando a nossa tradição de carteiristas de eléctrico em trajectos turísticos?
    O Morgado relia mentalmente os rótulos das garrafas, imaginando um mantra apaziguador de uma qualquer sede de espiritualidade. Mas o dono da venda não esmorecia.
    — Será então que, sem a esmola sazonal dos súbditos da rainha, continuaremos a poder manter em funcionamento as academias de futebol que são a base do negócio das casas de apostas desportivas inglesas? Tanto desprezo pelo aliado multissecular não esconderá o desejo de vingança porque as equipas portuguesas de Inglaterra perderam as duas finais das taças continentais? E os médicos e enfermeiros portugueses que velam à sua cabeceira, quando a sua imprevidência o faz cair nas manhas da doença, poderiam ter concluído as suas licenciaturas se não pudessem passear de tuk-tuk os veraneantes ingleses?
    O Morgado percebia que, de uma maneira ou de outra, a cerveja tinha sido desviada do seu copo por sucessivos episódios envolvendo os ingleses. Restava-lhe o refúgio da sua produção própria, essa sim, constante e fiável, quer em qualidade, quer em quantidade.
    — Desculpe o compadre, mas esqueci-me de atar a corda do bicho e tenho medo que vá às cenouras do Mija-na-horta.
    O Rosmaninho percebeu pelo bafo do Morgado que a sede à saída era a mesma que à entrada e aligeirou o trote no regresso a casa. Porque há coisas que, como é do conhecimento geral, não podem esperar.

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  3. E cada vez são mais os que necessitam de mostrar a Pica! E suspiram de cansaço, de como é tudo um horror mas tem de ser, tem que ser, não é?, perguntam, sorriem e pestanejam… e vão ufanos para o monitor.

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