O Esperado Desconforto

Esperei para ver como o Governo Sombra iria tratar a questão da nomeação do pedro Adão e Silva para comissário do PS para as comemorações do 25 de Abril e a coisa correu de modo ainda mais curioso do que esperava.

Se o Carlos Vaz Marques é rapaz das minhas idades, os três comentadores são da geração do comissário PAS e fazem parte daquela tertúlia alargada de opinadores em vários espaços da “arena mediática” que partilha de uma série de elementos comuns, que não apenas a idade. Embora com três posturas com tonalidades diversas, a verdade é que desde o mais crítico (um João Miguel Tavares que se deve lembrar das críticas que mereceu por causa do 10 de Junho recente) ao mais complacente (um Ricardo Araújo Pereira com sérios problemas em articular um argumento minimamente consistente sobre o tema), todos decidiram confluir no acessório (e não estou a armar-me em JPPereira). Pu seja, que a questão só surgiu por causa do Porto Canal, do salário do comissário PAS e da dimensão a que pode chegar a equipa de apoio.

Ou seja, entraram pelas questões que se poderão caracterizar, pelos defensores de PAS (papel desempenhado em boa parte pelo RAP e em menor escala pelo Pedro Mexia), como as relativas à “inveja”, não faltando a referência às mal amadas “redes sociais”. Só o JMT recordou o currículo político de PAS, em especial do seu proselitismo socratista, deixando de lado a assessoria a Paulo Pedroso no ministério da Segurança Social. RAP até disse que era interessante terem nomeado alguém nascido em 1974 (o próprio RAP nasce um pouco depois do 25 de Abril, pelo que percebo a afinidade). Com um ataque de amnésia oportuno, parece ter-se esquecido de tudo o que PAS escreveu durante muito tempo, mesmo em períodos recentes, de acordo com a cartilha do PS governamental, mesmo se isso significava mentir sem pudor acerca de vários temas (e ocorre-me um, bem em particular).

Estranhamente, ninguém falou – ou fez isso muito, muito de raspão – na adequação das competências do comissário PAS ao cargo. Porque o trajecto académico de PAS – em especial das reveladas na sua tese sobre o impacto económico do surf ou na de doutoramento sobre políticas públicas europeias. Parece que PAS é simpático, conhece muita gente e almoça com quase tudo o que mexe, tendo estabelecido uma rede de cumplicidades que amarra algumas línguas, tão viperinas quando se trata de nomeações de gente menos dada ao convívio social, aos petiscos e aos comentários futebolísticos.

Ora, a minha crítica não nasceu do salário ou equipa de apoio (acho que a ocasião justifica que quem fique com a função seja bem pago e apoiado) ou de ver uma reportagem no Porto Canal (que não vi, porque é canal que me passa ao lado, como qualquer um ligado a clubes, incluindo o do Sporting), mas sim de achar que Pedro Adão e Silva não tem o perfil mínimo para tal função, excepção feita a, pelo que foi dito, almoçar e jantar com muita gente e ser um tipo simpático. Vamos lá deixar-nos de tibiezas: PAS vai ser um comissário político para as comemorações e não adianta vir dizer que já houve outros no passado (até foram à Comissão de Descobrimentos para “limpar” a actual nomeação); vai ter boa imprensa, porque ele aparece em quase todo o lado e tem lugar residente um pouco em todos os sítios; quem levantar reservas é porque tem inveja do salário e das mordomias ou é do FCPorto. O cenário está montado e faz lembrar outros tempos de intoxicação mediática.

Eu não sou dos que acha que deveria ser um “historiador com vasta obra reconhecida” sobre o tema ou parecido. Sou dos que abominaria tanto um Fernando Rosas como um Rui Ramos na função, porque são líderes de facção. Mas não me chocaria um mais discreto António Costa Pinto, por exemplo, já que não temos entre nós um Medeiros Ferreira. Alguém que, mesmo conhecendo-se as afinidades e inclinações, não tivesse um passado conhecido de deturpação consciente dos factos e de tentativa de construção de uma memória falsa de alguns acontecimentos. Isso é que é importante. Se recebe 4500 euros por mês é o que menos me chateia e se querem que vos diga até acho muito pouco, se compararmos com o balúrdio que vão pagar à esposa do ministro Cabrita por coisa de muito menor relevo. Se vai ter um gabinete de 14 pessoas a apoiá-lo? Desde que não sejam mini-PAS, sempre de cabecinha a dar a dar durante muitos anos perante as piores tropelias, tudo bem. O problema é se são apenas um bando de cartilheiros ou “abrantinos” a quem é preciso recompensar serviços prestados.

Voltando ao Governo Sombra. Percebi onde estão as linhas vermelhas ou as linhas de desconforto. É que o desconforto foi tal que nem uma tirada com piada conseguiram produzir acerca do tema. Quer dizer… eu ri-me com aquela de PAS já ter almoçado com quase toda a gente. Qual gente?

8 thoughts on “O Esperado Desconforto

  1. Eu também sou simpático e já almocei com muita gente!
    Se formos a tirar a minha Josefa, os meus dois filhos e noras sem esquecer o gato Bigodes, já almocei com muito pessoal aqui no meu tasco junto à Nacional 1.
    E olhem que por cá passa muita gente! Até aos mal encarados arreganho a taxa e dou uma entradinha na mesa, o que me obriga a sair do meu posto de comando, o balcão, a arrastar esta perna que quase perdi no Ultramar.
    Até almoçaria com muito mais gente se me sobrasse tempo e dinheiro desta vidinha de manter a família à beira da estrada.
    Pelo menos estive no pelotão do Salgueiro Maia nesse dia!

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  2. Eu também daria um bom comissário porque estive no estrangeiro a fazer milgres simpáticos e andei a pedir para almoçar com muitos pobres. Até aos peixes eu agradava e depois foi uma luta porque todos me queriam! Tanto que eu que era Fernando e passei a ser António santo reclamado pelos de Portugal e pelos de Itália.
    Hoje, chamam-me em todo o mundo por ser mesmo simpático e adorar almoços de grupo com umas boas sardinhas assadas e uns pimentos a estalar.

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  3. Um ser aberrante, cartilheiro do PS, até ao tutano, ir ganhar MAIS (não é o mesmo) + ajudas de custo, para durante 5 anos preparar uma “festa” é uma alegria para o nosso povo. Não esquecer que semelhante criAtura era propagandista de Sócrates e amigos, lda.
    Bem … é mais um a par de alguns dos nossos ministros e família de ministros.

    Ps- no eixo do mal a vergonha ainda foi maior que no governo sombra

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    1. Do Eixo do Mal já não espero nada de jeito, tirando uma ou outra chispra do Luís Pedro Nunes.
      Aliás. não é por acaso que acho que três das abencerragens fariam também bel@s comissári@s de qualquer coisa.

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  4. Desliguei desses programas de comentário humorístico-político há muito tempo, menos por achar que não se deve brincar com coisas sérios do que por achar que se deve ser sério ao brincar, isto é, que há uma ética do humor, ou melhor, que há uma ética.
    Em relação ao RAP, desliguei – mas era preciso esperar por isso?! – em razão de dois episódios sintomáticos. Num caso, no Governo Sombra, a propósito do Zeinal Bava e da PT, o senhor fez rir os comparsas, ao preceder o seu “comentário” de uma declaração de interesses. No outro, na altura dos tempos da Troica, quando, sendo dia de greve geral, a rábula do humorista na Rádio Comercial é anunciada deste modo: “O Ricardo não faz greve.”, ao que o fura-greves responde: “Mas estou solidário com a greve.”.
    Gente como o RAP mete-me nojo, mesmo que reconheça a sua qualidade profissional e qualidades como humorista. O Bruno Nogueira Montepio é outro que tal. Gentinha venal.

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  5. A mim chateia o salário de €4500 durante 6 anos principalmente porque nas escolas esperam sempre muita solidariedade quando se carrega com trabalho extraordinário recusando-se a devida remuneração extra, esperando-se que naturalmente o prof. seja solidário e voluntarista e que não ‘respingue’. Ora, porque é que PAS não faz a tarefa em regime de voluntariado, como acontece em muito lado e com muita gente, em muitas instituições e organizações sociais?
    E depois, para se pagar essa e as muitas outras nomeações de outras tantas comissões e grupos de trabalho, vão cortar onde? E quem me diz que ‘patinar’ na lista negra do 4º e 6º escalões não é uma das formas de corte, de modo a ter o ‘dinheirinho’ para pagar a essa malta que já é burguesa?
    A mim chateia a dualidade de critérios: ao ‘zeca’ comum é exigida a disponibilidade de voluntariado mas a certa classe é indigno esse estatuto.

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  6. Somos pequenitos, é o que é… paroquiais… É quase um mistério sermos um país! E todas estas caravanas que têm passado vão chegar ao seu destino para, de seguida, os seus atores serem cumulados de honrarias e heroísmos…

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