Arqueologia Da Escola Digital – 1

O excerto que em seguida transcrevo, é de 1996 e faz parte de uma peça da revista Exame Informática em que já na altura se fazia o lamento pela forma desconexa, aos arranques e paragens, como a Informática (ou Tecnologias de Informação) estava a ser promovida nas escolas básica e secundárias, do Projecto Minerva (acrónimo de Meios Informáticos no Ensino: Racionalização, Valorização, Actualização, com arranque em 1985) ao EDUTIC (Programa de Tecnologias de Informação e Comunicação para a Educação, com início em 1995), passando pelo IVA (Informática para a Vida Activa, 1990) ou o FORJA (Fornecimento de Equipamentos, Suportes Lógicos e Acções de Formação de Professores, 1993).

Ler o que então se escrevia faz-nos perceber o quanto não foi feito do modo certo, ou seja, com continuidade e de forma consolidada, preferindo-se a demagogia e propaganda. Há por aí muita gente que ainda se lembra de tudo isto, que viviu isto (eu só muito de raspão, apesar de me ter metido em algumas coisas ainda na primeira metade dos anos 90), mas raramente é quem anda por aí a anunciar como lebre nova e fresca o que não passa de coelho cansado.

Mas, no que diz respeito à informática – onde não é assim tão fácil recorrer a “explicadores” – o que pode acontecer é mais perverso. É aquilo a que Roberto Carneiro (…) considera os «sem-abrigo digitais»: crianças que saem da escola se, domínio das novas tecnologias, essencial para sobreviverem no mercado de trabalho, independentemente da sua formação de base.

Na verdade, a situação pode ser ainda pior, uma vez que o acesso (ou não) ao computador é factor de diferenciação ao nível da igualdade de oportunidades. Ou seja, uma vez que não é a escola que fornece o conhecimento digital, será o nível socio-económico a estabelecer (ainda mais) a diferença – quem tem dinheiro, tem computador em casa ou põe o filho a estudar em colégios particulares onde a Informática seja tão natural como a Educação Física.

(Exame-Informática, Outubro de 1996, p. 90)

É fácil perceber-se que muito do que andou a ser dito ou escrito no último ano nada tem de novo. As desigualdades causadas pelo recurso ao digital não foram descobertas com a pandemia. Há muito que são conhecidas. Assim como não foi a publicação dos rankings a dar a conhecer que os meios entre escolas privadas de topo e a rede pública são muito diferentes. Se há gente que é muito nova nisto e certamente ignora porque não achou por bem estudar a matéria em perspectiva histórica (que horror!) para saber como falharam os ímpetos digitais anteriores, há quem tenha a obrigação, pela idade ou funções desempenhadas, de não nos querer fazer passar por parvos ou desmemoriados.

Se economistas peraltas ou conrarias andaram lá por fora e não passaram por nada disto, o que ajuda a perceber a arrogância com que nos querem fazer acreditar que descobriram sózinhos o século XXI digital (e nem falo de outros plumitivos parlapateiros), já há quem tenha tido cargos de destaque neste período (em especial nos anos 90 do século XX) no próprio Ministério da Educação e não tenha desculpa para aparecer como se trouxesse consigo um Verbo Digital desconhecido dos comuns zecos. E há dos dois lados do Centrão quem tenha tido poder efectivo para não ter deixado cair o Minerva ou transformado o EDUTIC numa espécie de nado-morto. Que andem agora a vender projectos, consultorias ou formações sobre estas coisas, roça uma certa obscenidade.

Estamos quase sempre de volta ao ponto de partida porque, em muitos casos, há quem tenha a ganhar com isso. Uma, outra e outra vez ao longo das décadas.

Bollocks! – 2

O calendário das provas de aferição tinha sido redefinido, quando foi revisto o calendário escolar para este ano. Depois as provas foram canceladas e tomada a decisão de serem feitas apenas por amostragem. Como foi definida esta amostragem? Não sabemos. Mas eu proporia que se foi por inscrição voluntária das escolas, a classificação ficasse a cargo dessas mesmas escolas e que fossem as suas lideranças a assumir a nomeação dos classificadores, em vez de fazerem chuveirinho sobre toda a gente. Porque há quem com o trabalho dos outros goste de ficar bem no retrato da grande família costista.