Domingo

O pessoal do Educare esqueceu-se claramente de colocar online os textos do fim de semana, mas aqui fica o de hoje.

Gerações

Todas as gerações de alunos atravessam contextos problemáticos, seja na sua vida escolar como na conjuntura social, política e económica envolvente. E por “gerações” talvez queira significar antes coortes de alunos que fazem o seu trajecto escolar num dado momento histórico. Não penso tanto em termos de intervalos de 20-25 anos, mas mais de 5 ou 10 anos, que são períodos que permitem uma mais fácil identificação.

A minha geração (entrada para a Primária em 1971) já não é a do período puro e duro da ditadura, mas ainda é uma sobre a qual pairava o receio da ida para a Guerra Colonial, mas teve a sua experiência marcada principalmente pelo pós-25 de Abril em termos nacionais e pelo crepúsculo da Guerra Fria, no plano internacional. Então quando vivido numa zona “quente” em termos políticos, há marcas que ficam bem fortes. Em matéria de Educação, foi tentar sobreviver no caos instalado.

Já a minha filha pertence (por nascimento) à geração de 2003 que é aquela a quem aconteceu quase tudo com excepção do exame made in Cambridge. Levou com as provas finais do ministro Crato, com uma série de ziguezagues nos programas de Português e Matemática, com a autonomia e flexibilidade dos Costas, teve direito a uma dúzia de anos de Educação Física e ainda com as adaptações aos exames nacionais do Secundário por causa da pandemia. Tudo isto envolvido com os estilhaços do socratismo, da troika, da crise internacional e, já a referi, da pandemia.

Confesso que não sinto muita inveja de não ser aluno nesta altura, excepto pela questão da idade. E talvez tenha ainda menos inveja ao reparar em tudo aquilo que tem rodeado, em termos de vida pública, esta geração das primeiras décadas do século XXI e do que lhes é apresentado como “normalidade” a rimar com impunidade. Cresceram a ver quase todos os exemplos de “sucesso” (político ou económico) a ser desmascarados com fraudes ou, pela inversa, a verem evidentes exemplos de incompetência a singrarem na vida com uma enorme impunidade.

Isso não há qualquer disciplina ou certificado de Cidadania que consiga apagar ou transmutar em probos exemplos de ética republicana. Pelo contrário, cada vez mais as proclamações de Cidadania vão a par de práticas que a erodem de forma quase irremediável. E quem mais proclama amores pelo primado da Lei é quem acaba por revelar por ela o maior desrespeito.

Portanto, pobre geração esta que outras, como a minha, não souberam a tempo proteger de tantos desmandos.