4ª Feira

Há muitos anos que se ouvem críticas ao modelo de ingresso no Ensino Superior e ao peso dos exames no processo. E nada de relevante é feito para alterar essa situação. Pessoalmente, acho que o modelo não tem assim tantos defeitos, porque eu não sei bem como seria, por cá, um modelo de ingresso baseado em exames e entrevistas feitas pelas próprias instituições do Ensino Superior. Por maus que sejam, os exames são um facto de regulação externa aos compadrios.

O problema é que, em especial nos últimos anos do Santo Iavé Autónomo, se sucedem as falhas, imprecisões, erros, ziguezagues na concepção de vários exames. Que se diz estarem a cargo de “equipas de especialistas”. Não sei se é bem assim e só o poderia saber se as coisas fossem mais transparentes, desde logo através, no mínimo, do conhecimento público dos coordenadores das tais “equipas de especialistas”. Porque é demasiado mau ter um par de exames para fazer por ano e fazer asneira, maior ou menor, quase todos os anos.

Porque aquela parte da necessidade de privacidade dos tais “especialistas” só funciona em parte, pois nas respectivas escolas (e ao redor) há quem não se exima a dar a conhecer o seu “estatuto”. Há uma boa meia dúzia de anos tive um colega contratado que no anterior estivera numa daquelas escolas onde parecem concentrar-se vários desses “especialistas”. Os quais não faziam qualquer esforço para que não se soubesse que o eram e até gostavam de partilhar o seu saber com quem os rodeava.

Uma das suas teorias – bem notória na evolução dos critérios de classificação dos exames de História e não só – é que os “itens” devem ter valores muito aproximados ou mesmo iguais, independentemente da sua tipologia. O que significa que uma escolha múltipla vale pouco menos do que desenvolver um tema com recurso a documentos e relacionamento de tópicos de resposta. O que, por muito que digam que é uma tese desenvolvida a partir de “investigação, é idiota e não consigo expressar a minha ideia de forma mais “sensível”. O exame de História A deste ano é um bom exemplo deste tipo de “lógica” que eleva a mera operação de identificação de algo correcto à análise crítica de vários factores.

Pior mesmo, só aquele hábito de algumas equipas “inovarem” de um ano para o outro, como se andassem a brincar com alunos, professores e famílias. É o caso do exame de Matemática A deste ano, que também foi de pandemia. Se no ano passado se percebiam algumas alterações, este ano houve uma espécie de excesso de zelo. e eu gostava de saber quem toma estas decisões, porque a desresponsabilização é a regra nestes casos. Desvaloriza-se o erro, afirma-se que há “leituras” diferentes das questões, relativiza-se tudo, adaptam-se critérios às escondidas, os de cima dizem que não foram eles a fazer, os de baixo nem sabemos quem são. Ninguém, nunca, é publicamente reconhecido como culpado e acredito que todos se auto-avaliam como excelentes no seu desempenho.

Claro que há sempre espaço para teorias conspirativas como aquelas que levantam a suspeita destas “equipas” serem constituídas na base dos contactos amiguistas e da “especialização” raramente ser na área científica da disciplina, mas sim em “teorias da avaliação”. Pior pode ser mesmo a suspeita de que quem faz em privado alguns destes exames ser publicamente contra a sua existência.

Por isso, um mínimo de decência e ética exigiria que este fosse um processo transparente. Não é e ninguém com responsabilidades parece interessado em que o seja. Depois acontecem “anomalias”, como colocar como obrigatórias questões sobre autores de leccionação facultativa (exame de Português A)

6 thoughts on “4ª Feira

  1. Uma contradição nesta publicação: como podem serem “os exames um facto de regulação externa aos compadrios” se quem os faz são “especialistas que trabalham nas escolas”, ou seja, professores do ensino secundário que lecionam a turmas?
    Como impedir que esses especialistas não revelem de forma subrepticia aos seus alunos o conteúdo dos exames? Ou é preciso fazer um desenho para mostrar que é possivel revelar algo confidencial de modo que não seja possivel ser acusado de o ter feito?
    Portanto, é “um fator de regulação de compadrio” desde que seja em pequena escala?…

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  2. Há outro problema: a avaliação interna é uma farsa.

    Os professores de disciplinas não sujeitas a exame nacional dão 5 ou 6 valores a mais aos seus alunos. Em todas as escolas? Suponho que não. Na minha, sim; então este ano foi uma festa.

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    1. Não é totoloto nem uma festa mas sobrevivência. É que o nº de turmas tem vindo a diminuir com o consequente aumento de horários-zero. E agora apanha malta acima dos 50 anos, que após décadas no quadro são obrigados a concorrer para mais longe. De certeza que ninguém está disposto a calcorrear kms nessa idade, já não falando no aumento brutal de despesa (com o combustível a preço pornográfico…). Uma forma de evitar isto é tornar ‘atraente’ as disciplinas de opção para o estudante. É o preço de se ter transformado a escola numa lógica empresarial de concorrência para captar clientes (estudantes).

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  3. Mais um disparate dos “especialistas”. No exame de FQ-A, na questão 10.2, de escolha múltipla, nenhuma das opções de resposta está correcta!!! Podem ver a explicação do porquê na página da Sociedade Portuguesa de Física (https://www.spf.pt/).

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  4. A incompetência científica grassa. E só tenderá a piorar. É o reflexo desta educação na qual não é preciso saber para ensinar. Vai ficar pior. Muito pior. Está a chegar ao Iave a leva que começou a frequentar o secundário ali em inícios de 90. Sabedoria? Rigor? Estudo? Esforço? Nã. A escola passou a ser uma festa, do “aprender a aprender”, da pandeireta e de coisas desse género… O resultado está à vista. Admiram-se?

    Não é por acaso que Portugal está a ficar para trás na Europa. Todos os outros que entraram depois já nos passaram à frente.

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