Deixaram Os Miúdos A Tomar Conta Da Loja

Os “referenciais” do Escola 21|23 são um manancial imenso de materiais para nos rirmos do estado a que isto chegou em matéria de “operacionalização” dos sonhos delirantes de alguns governantes e respectivos cortesão. Quem se der ao trabalho de, a partir do outro post, descarregar os documentos e analisar as suas propriedades, descobrirá a sua autoria, pelo menos em termos da estrutura orgânica que os terá preparado. Indo ao site da dita “Equipa” e apreciando o perfil dos seus elementos poderá “aprender” muito acerca do modo como muita coisa tão velha como qualquer teoria construtivista da Educação, se apresenta como novidade.

Mas eu também já fui jovem e também já achei descobri coisas, só que ia tendo o cuidado de não pensar (defeito da formação histórica) que era o primeiro ou estava no grupo da fuga da frente que tinha descoberto a pólvora seca. Nunca fui a pessoa mais humilde do mundo, mas sempre me faltou esta forma de pesporrência que permite produzir documentos oficiais e “orientadores” do trabalho da rede de escolas públicas com imensas falhas, truncagens ou desactualização dos dados que se pretendem apresentar como modelos a seguir. Sei que haverá quem ache que são coisas menores, mas o amadorismo, o copy/paste, são demasiado evidentes para se deixarem passar em claro. Se fosse um qualquer trabalho de 2º ciclo de estudos bolonheses mereceria, mesmo em instituição de rigor mediano, forte puxão de orelhas aos autores.

Reparemos num exemplo quase ao acaso, pois foi o primeiro ficheiro que abri esta tarde, o “ROTEIRO – Promoção de abordagens curriculares interdisciplinares” que surge integrado na dimensão (ou será “eixo” ou “programa” ou qualquer outra coisa) “Aprender Integrando – 1.2.6.”.

Por mera diversão, em primeiro lugar, vou apontar uma incongruência relevante entre duas passagens do documento. Na página 2 declara-se que “neste modelo de organização pedagógica, os tempos de cada disciplina ou de cada componente que compõem a matriz curricular-base passam a ter um papel secundário.” O que nos levanta algumas dúvidas naturais sobre a forma de organizar os horários de alunos e docentes, não pela complexidade do modelo em si, mas pela obsessão na contagem ao minuto do tempo lectivo dos docentes. Mas mais adiante percebe-se que a promessa de +Autonomia tem limites e na página 3 pode ler-se que “o desenvolvimento do DAC não implica a alteração do horário semanal de cada uma das disciplinas envolvidas, no entanto as escolas potenciam este trabalho de diferentes modos”, seguindo-se umas propostas que quase conseguiria levar a sério, se não soubesse como se constituem certos “bancos de horas”.

Em segundo lugar, só para que se perceba até que ponto um documento criado em 9 de Julho está já desactualizado e terá sido copiado de qualquer coisa anterior, na última página (5) do documento explica-se no “Cenário #2” dos exemplos que “no âmbito do Projeto Piloto de Inovação Pedagógica e da flexibilidade curricular, o AE de Cristelo, organizou parte da sua atividade letiva em torno de 7 Referenciais de Integração Curricular (RIC) apostando numa forte dinâmica de investigação e interdisciplinaridade, com foco no trabalho colaborativo entre docentes e alunos, com grande desenvolvimento da autonomia. Para mais informação aceda aqui, para exemplos de planificações de RIC aceda aqui. Os links são fornecidos no documento e ao segui-los chegamos ao site do Agrupamento referido, podendo ler-se que ao longo dos últimos anos os RIC sofreram algumas alterações e são hoje 4, nomeadamente: RIC 1: ECO-Cozinha Pedagógica; RIC 2: Nós e a Europa; RIC 3: Entr’Artes e RIC 4: Jogos Olímpicos 2040″.

Não vou discutir a relevância destes 4 RIC (e algo se poderia dizer acerca de um par deles, muito em especial), mas percebe-se facilmente que nem existiu o cuidado de seguir os links fornecidos para verificar se o seu conteúdo não tinha sido entretanto modificado. Alguém deve ter recebido um ficheiro com os links e vai de os colar sem sequer confirmar o que lá está. Os referenciais foram alterados de 7 para 4, mas isso agora não interessa nada… o que interessa é o “paradigma”.

Já agora recomendo vivamente a consulta das grelhas produzidas para os “Planos de Trabalho para os RIC” que são um mimo em matéria de registo e monitorização das atividades. Resta saber se não haverá depois um por aluno. Para quem estiver com natural preguiça dominical deixo-vos um deles, assim como o respetivo “Cenário de Aprendizagem” que tem um cronograma que revela até que ponto tudo isto é “flexível” desde que caiba em quadradinhos.

(não quero com isto, em nenhum momento, menorizar o trabalho d@s colegas do Agrupamento de Escolas do Cristelo, muito em particular daquel@s a quem estas coisas são impostas a bem da imagem das lideranças)

20 thoughts on “Deixaram Os Miúdos A Tomar Conta Da Loja

  1. Isto é muito simples: o Bloco de Esquerda em peso, dos mais novos aos mais antigos, bate palmas e aclama, de pé, toda esta linguagem e todos estes referenciais. Sempre procedeu assim desde que foi fundado. Ora como sabemos, a grande maioria dos professores portugueses vota habitualmente no Bloco de Esquerda, pelo que eu diria que talvez se possa dizer que a grande maioria dos professores apoia fortemente estes referenciais e a sua linguagem “bloquista”.

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    1. Há que lembrar que este tipo de discurso precede o aparecimento do Bloco de Esquerda por cá. Isto vem dos anos 70-80 do PS: O Bloco apenas se encavalitou e é algum Bloco, porque conheço muito professor bloquista que abomina estas tretas.

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  2. Paulo

    Seria importante “afixar” no escaparate da loja o nome e origem dos autores de tão geniais “documentos” ou referenciais (!).A minha preguiça dominical só me permitiu identificar um (a) – Estela Costa ( especialista daquelas retumbantes “ciências”).

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  3. Colega Guinot,
    para conseguir abarcar a coisa,
    tem de deixar “prevalecer uma conceção de organização da gramática escolar na base da tecnologia intensiva que analisa cada caso, por contraponto à intervenção baseada em tecnologia em cadeia.”

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  4. Acho notável — e não estou a ironizar — que o Guinote se consiga divertir com isto (bem sei que criticamente, mas mesmo assim…). A mim, só me apetece mandar estes gajos e gajas para o c***** que os/as f*** a todos(as).

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  5. Por favor, alguém me explique o que significa ser “professor” nestes tempos modernos de “referenciais”. Após 12 anos de escolaridade + 5 anos de formação superior (estágio incluído) + 30 anos de serviço com tudo a que somos obrigados, já estou como muitos alunos: “Stôra, não tou a perceber nada disto!” Eu sei, o problema é mesmo meu! Já tenho 55 anos de história, tropeçados em não sei quantas reformas na educação, consumidos por toneladas de papel de leis, decretos e despachos, depois de redigido icebergues de atas, relatórios, planificações, planos, projetos, mastigado, engolido e mal digerido muitas das “ementas” repetidas e “pratos” únicos que foram sendo servidas aos professores ao longo de tantos anos – houve aí uns anitos com umas inovações peregrinas do tipo Estudo Acompanhado, Área de Projeto, e outros, mas que duraram os dias que já estavam contados – com períodos a arder de febre do burnout, do stress, … Já estou cansada para ler mais papelada e respetivos conteúdos, e ainda mal chegaram as férias e já no Agrupamento nos mandaram “ler e interiorizar” o Plano 21/23 Escola + e seus Roteiros (de roteiros só me apetece ver os Turísticos= FÉRIAS+).
    Agora a sério: eu nem quero saber se veio da esquerda, do centro ou da direita! Eu sinto-me completamente ultrapassada pelos “referenciais”. Perdi o “norte”!

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  6. A minha resposta é NÃO!

    Não vou “aplicar” nada daquilo.
    Não vou ler nada daquilo.
    Não vou ouvir sermões ou palestras sobre nada daquilo.

    Vou simplesmente conservar o que resta da minha sanidade mental e IGNORAR! Rindo e cantando…

    Aconselho a todos que façam o mesmo. Essa gente nem merece o meu tempo.

    Rir é mesmo o melhor remédio!

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  7. Hoje no público: ” Professores dão positiva ás aprendizagens essenciais ”

    Pergunta: quem deu positiva foram os pseudoprofessores diretores?

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    1. O jornalismo português é preguiçoso. Não investiga, nem aprofunda, limita-se a recolher retórica dos useiros e vezeiros grilos falantes. É essa a estratégia usada para ter material editável a qualquer momento. Sobretudo quando falha o labor redatorial.
      É um jornalismo fraco e perigoso. Muito desonesto devido à baixa qualidade e ao modus operandi.

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  8. Desde há alguns anos a esta parte, sobretudo depois daquela Ministra da Educação, que todos sabemos, que os professores têm sido (mal)pagos, e até “congelados”, para hibernar a consciência e o pensamento, aquilo que verdadeiramente nos distingue dos outros animais e nos torna humanos – para deixarem de pensar e passarem a agir como “carneirinhos”. Por isso, não interessa se pensas, se sabes pensar, se sabes, se não sabes, mas queres saber, se refletes, se questionas, se não concordas, se …. e por aí fora. Tudo isso é incómodo para o “sistema”! O professor é pago para fazer o que o chefe e a tutela mandam, mais nada! Isto até já me foi dito por colegas… Quanto mais inerte, mineral e vegetal te mantiveres, melhor para este sistema de nepotistas e pseudoiluminados que nos rodeiam.
    Portanto, meus caros, os “spin doctors, pseudoprofessores”, pertencem à categoria dos conhecidos “yes-man” (que-diz-sim-a-tudo), que tudo farão para se manterem nos cargos confortáveis ou para ascenderem a esses mesmos cargos. Muitas vezes até arranjam um “yes-man jellyfish” de fora para nos manterem a todos na linha!
    Eu não quero cargos, nem sou “burra de carga”, só quero ser professora, e sobretudo quero ser tratada como tal, sem assédio moral!

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