Domingo

É dia de descanso mais do que merecido, mas é impossível esquecer que chegou uma catadupa de referenciais do chamado “Plano de Recuperação das Aprendizagens”. São documentos especialmente divertidos, se nos abstrairmos de quase por certo implicarem a produção de mais uma enorme quantidade de papelada inútil para as aprendizagens dos alunos. Passei os olhos por aquilo é um chorrilho de chavões arrancados às sebentas da formação inicial de professores bolonhizada e generalista. Há parágrafos que parecem ter sido escritos por um aqueles programas onde se inserem padrões de linguagem e frases e depois eles produzem um texto automático.

Comecemos pelo roteiro “Começar um ciclo – 1.2.2.” que é todo bom, começando assim:

Começar um ciclo requer especial atenção por parte da escola e implica o envolvimento dos alunos, dos encarregados de educação e do pessoal não docente. Uma transição bem-sucedida deverá proporcionar, em cada fase, as experiências e oportunidades de aprendizagem que permitam aos alunos desenvolver as suas potencialidades, fortalecer a sua autoestima, resiliência, autonomia e autocontrolo, criando condições favoráveis para que tenha sucesso na etapa seguinte.

Aos velhos professores em exercício, formados quase todos no tempo dos afonsinos, nada disto ocorreria, porque a importância do início de um ciclo de estudos é algo que não ocorre naturalmente a quem leva décadas disto. Porque quase todos pensamos ainda que os nove anos da escolaridade básica são um contínuo sem etapas. É preciso alguém jovem para se lembrar de tal.

Mas há muitos outros nacos de prosa que merecem destaque pela forma como realçam coisas fulcrais, nucleares e potenciadoras de um trabalho docente em condições, algo que sem um “referencial” ou um “roteiro” feito por malta quase em cueiros seriam por certo ignoradas. Cheguemos à página 3 e deleitemo-nos com a profundidade analítico-sintética plasmada na seguinte passagem:

Uma articulação bem-sucedida exige a comunicação entre docentes e trabalho colaborativo, o que implica a promoção de encontros pedagógicos entre docentes dos dois níveis de educação/ensino para:

– análise e mapeamento dos documentos curriculares dos dois níveis (Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar e Aprendizagens Essenciais do 1.º ano do 1.º CEB) para um conhecimento mais profundo e potenciador da articulação das aprendizagens a desenvolver;

Havendo um mapeamento potenciador de uma articulação estamos salvos da ignorância e da obscuridade. Está quase tudo resolvido, porque a Luz que se derrama sobre as escolas e a mente tacanha dos professores obsoletos a partir deste modo inovador de encarar a articulação vertical do currículo abre caminhos nunca imaginados para as aprendizagens a recuperar.

Mas o que é mais interessante – e está muito bem pensado – é a forma como ao longo do “roteiro” se repetem passagens, com esta ou aquela mínima alteração, para que os docentes com défice de atenção e conhecidas carências de memória, possam consolidar as suas próprias aprendizagens. A passagem acima era do “cenário 1”; a que se segue é do “cenário 3” (página 4):

A articulação curricular bem-sucedida entre ciclos e níveis de ensino requer comunicação entre docentes e trabalho colaborativo para:

análise e mapeamento das Aprendizagens Essenciais dos diferentes anos/ciclos/níveis de ensino para um conhecimento mais profundo e potenciador da articulação das aprendizagens a desenvolver;

Reparem que há o cuidado de resumir um pouco o que já foi transmitido, de modo a concentrar o essencial da mensagem a absorver pelos docentes que podem ter-se deixado distrair na leitura anterior.

E depois surgem exemplos de boas práticas, entre as quais está uma “investigação” que permitiu elaborar um quadro que “sintetiza algumas medidas que, segundo os autores, favorecem o acolhimento, acompanhamento e integração dos alunos, na mudança de ciclo”. Hoje deixo-o completo para que todos possamos aceder ao “estado da arte” dos conhecimentos sobre a matéria.

Pessoalmente, acho um repositório fascinante e “inovador”, apenas me ocorrendo salientar que poderiam ter sido usadas as funcionalidades do Word que permitem centrar o texto no plano horizontal e no vertical, porque para um professor já com a capacidade de entendimento diminuída, fico sem perceber se a “sistematização” se aplica também à “orientação”. Por outro lado tenho dúvidas sobre o que significará a expressão “expressões usadas” em relação aos “indicadores”. Sublinho, porém, a importância de clarificar que “tranquilizar” significa “tranquilizá-los”, o que se deve aplicar apenas aos alunos rapazes, mais rebeldes. Num contexto inclusivo como o que vivemos penso que se fosse para aplicar às raparigas se justificaria uma linguagem mais gender neutral. Pelo que também ouso sugerir que não seja tanta vez usada a expressão “os alunos” porque transmite uma mensagem errada, herdeira das estruturas de uma linguagem patriarcal que, deste modo, perpetua uma ideologia, mesmo que implícita, de dominação do masculino sobre as restantes formas de identidade de género que merecem uma representação equitativa neste tipo de documentos oficiais.

Penso eu de que.

20 thoughts on “Domingo

  1. “Reparem que há o cuidado de resumir um pouco o que já foi transmitido, de modo a concentrar o essencial da mensagem a absorver pelos docentes que podem ter-se deixado distrair na leitura anterior.”
    Deixado distrair?! Deixado adormecer, queres tu dizer!

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  2. Medidas/políticas educativas cujo sucesso está garantido, sendo possível elaborar já o relatório de avaliação:

    Onde no roteiro se prescreve:
    “Começar um ciclo requer especial atenção por parte da escola e implica o envolvimento dos alunos, dos encarregados de educação e do pessoal não docente. Uma transição bem-sucedida deverá proporcionar, em cada fase, as experiências e oportunidades de aprendizagem que permitam aos alunos desenvolver as suas potencialidades, fortalecer a sua autoestima, resiliência, autonomia e autocontrolo…”

    No relatório inscreve-se:
    “ Deu-se especial atenção ao início de ciclo, envolvendo alunos, encarregados de educação e pessoal não docente, o que permitiu uma transição bem-sucedida e que proporcionou, em cada fase, as experiências e oportunidades de aprendizagem que permitiram aos alunos desenvolver as suas potencialidades, fortalecer a sua autoestima, resiliência, autonomia e autocontrolo…”

    Bate tudo certo.
    É o tal discurso redondo, pescadinha rabo na boca, cujo objetivo é justificar-se a si próprio.

    Um exemplo bem redondinho, bem esquerda geringonça:

    “As Aprendizagens Essenciais foram sujeitas a uma avaliação no subprojeto Curriculum Content Mapping, no âmbito do projeto Future of Education and Skills 2030, da OCDE, tendo-se salientado o papel das ações estratégicas de ensino orientadas para o perfil dos alunos como garantia da prossecução dos objetivos e conteúdos curriculares que as suportam”.

    No meio de tudo isto, a diminuição de número de alunos por turma já se transformou na “promoção da redução do número de docentes por turma/grupo de alunos”:
    “Ao potenciar a gestão pedagógica através da redução do número de professores por turma facilita-se o desenvolvimento do trabalho colaborativo, designadamente pela afetação das mesmas turmas ao mesmo grupo de professores”.

    Libertação imediata do povo cubano!

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    1. Essa da libertação do povo cubano vem em que artigo? Se vc ainda anda a libertar-se da geringonça e ela já desapareceu, veja lá como vai libertar o povo cubano. Mas fica a intenção. A propósito, este mês há viagens para Cuba, faça uma marcação na Abreu e comece a tal libertação.

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  3. 😵😲😱🤕! Não há mesmo palavras…

    Como a organização é um ponto forte dos portugueses, prevê-se um ano letivo animado…

    De reforma em reforma até à reforma final. Claro que falo da minha porque, tendo em conta a vertigem reformista que tomou conta do sistema educativo português ao longo do tempo, o excepcional seria espera-se um futuro com moderação reformista em matéria educativa!

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  4. Algum destes ‘iluminados’ foi professor ou se dignou a entrar numa escola e auscultar os professores?

    Tratam-nos como atrasados mentais…

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  5. Falta aí nesse doc:

    Se aluno for para a rua, chamar o discente após 5min. , dar um rebuçado e mandar entrar de novo.

    Se o aluno agredir o prof verbalmente ou fisicamente, tranquilize o(a) aluno(a) e ofereça a outra face.

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  6. Fiquei com uma dúvida existencial sobre isto.

    O que será que acham os iluminados que escreveram estes indicadores?
    A – Que os professores são uns idiotas ao ponto de alguém ter que lhes dizer isto?
    B – Que descobriram a pólvora com estas ideias espetaculares e é preciso registar a patente, produzindo um documento oficial com elas?
    C – Que são os salvadores das escolas, porque se não forem eles a lembrar-se disto, mais ninguém se lembra?

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